Como entender o voto em Bolsonaro

06/02/2018 17:00

O artigo sobre os principais fatores de motivação do voto em Lula suscitou questionamentos sobre os motivos que sustentam o voto em Bolsonaro.

Enquanto Lula tem dois motivadores de votos (entre os simpatizantes do PT e os beneficiários de programas sociais), Bolsonaro ocupa espaço entre os eleitores que se sentem abandonados pelo Estado. São eleitores que já sofreram alguma mazela pessoal e não confiam mais no discurso do político tradicional: querem alguém que efetivamente os representem:

a) Os indignados com a corrupção = Eleitores que intencionam votar em Bolsonaro pelo princípio da ética, afirmam que Bolsonaro é verdadeiro, espontâneo: diz o que pensa, o que precisa ser dito. Dentre estes eleitores se destacam jovens que acreditam e até idolatram Bolsonaro. É como se Bolsonaro representasse a angústia reprimida, a indignação perante a falta de princípios que se expressam nas práticas do jeitinho brasileiro.

b) Os que se sentem inseguros = Esta parcela de eleitores de Bolsonaro teme a situação do país, se preocupa com o aumento dos índices de criminalidade (em especial os associados ao crime organizado) e acredita que Bolsonaro não estaria comprometido com conchavos políticos e corporações, tendo condições de enfrentar os principais dilemas que atingem a sociedade na área da segurança pública. Na percepção destes eleitores Bolsonaro é um político de coragem e, portanto, tem condições de liderar.

c) Os que almejam pelo discurso da maioria = Se constituem por eleitores que não se sentem inclusos nos discursos de minorias e acreditam que há um vazio na defesa do conceito de família, no conceito de trabalhador, na defesa das pessoas de bem. Estes eleitores que não se interessam por política e que não tem ideologia, tem apenas um sentimento de falta de identidade. Nesta lógica entra o voto nacionalista, seguindo a tendência da eleição de Trump. É um raciocínio que pode crescer durante o processo eleitoral e se a agregar temas como ética e segurança pública.

d) Os que argumentam com critérios políticos = Caracterizam-se como o menor e mais marcante grupo de eleitores de Bolsonaro. São eleitores conservadores e que, declaradamente, tem consciência política de sua opção. São eleitores com tendência à direita, alguns defendem a ditadura ou até mesmo raciocínios homofóbicos ou racistas. São os eleitores mais radicais de Bolsonaro e vão se manifestar se a onda Bolsonaro se tornar um tsunami.

Para uma grande parcela do eleitorado é difícil compreender a intenção de voto em Lula e em Bolsonaro e esta grande parcela poderá ser responsável pela decisão eleitoral no Brasil, desde que saia de sua apatia social

Como entender o voto em Lula

31/01/2018 15:50

É recorrente chegar, a um instituto de pesquisas como o IPO, questionamentos sobre os motivos pelos quais os eleitores intencionam votar em Lula, mesmo diante de processos e de uma condenação.

Para entender este fenômeno, excluindo os eleitores com relação orgânica ou histórica com o PT, é importante observar duas vertentes de análise:

a) cultura política vigente no país;

b) o papel dos programas sociais de Lula.

Em termos de cultura política temos como cerne todos os vícios do clientelismo, do personalismo e do patrimonialismo. Esta cultura política foi reforçada pela premissa da corrupção endêmica (ativada pela operação Lava Jato) e ampliou a desconfiança, o ceticismo e a descrença da população em relação aos políticos e a política. O eleitor que antes dizia que não gostava de política, hoje não quer nem ouvir falar sobre a mesma.

Atualmente a maior parte dos brasileiros não confia nos partidos políticos. Não confia em nenhum partido! Os eleitores não confiam na maior parte das instituições de representação política, como as Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional.

Ora, se o voto personalista se constituiu como a égide da decisão eleitoral e a percepção que vigora é a de que todos os políticos são corruptos, como o eleitor faz para diferenciar? A decisão do eleitor, que se mantém distante da política e vota em Lula, parte do pressuposto que todos os políticos se preocupam com seus interesses próprios e a diferença está naquele que além de buscar os seus interesses pessoais, também se preocupa com a população: a antiga premissa Ademarista do rouba, mas faz.

Diante desta lógica cultural que equanimiza a maior parte dos eleitores de Lula, solidificam-se dois fenômenos que se fundem entre si e justificam o voto no petista:

a) a percepção de dignidade humana = é preciso ter em mente que boa parte do eleitorado de Lula recebeu algum benefício oriundo de políticas públicas, através de programas sociais. Nas entrevistas qualitativas o eleitor de Lula sempre conta uma história de vida que tem como base a mobilidade social. Esta mobilidade traz consigo o atributo da dignidade que aparece em vários tipos de relatos:

- Imagine um trabalhador braçal semianalfabeto que vê seu filho ingressar na Universidade pelo ProUni.

- Um trabalhador que atua há anos como auxiliar de serviços gerais e faz um curso do PRONATEC: sente-se um profissional e passa a ter uma identidade como trabalhador.

- Um morador de periferia que mora de favor na casa de parentes ou em sub habitação e consegue a sua moradia no programa Minha Casa, Minha Vida.

b) Quem ganha dignidade retribui com gratidão = Os eleitores que receberam benefícios sociais tiveram melhorias na sua qualidade de vida e, por consequência, na sua autoestima, sentiram-se respeitados ou tiveram o reconhecimento público de seus pares, se sentiram valorizados. Esta dignidade motiva um sentimento de gratidão e, este sentimento, se materializa na intenção de voto em Lula.

Para uma grande parcela da população é difícil de entender porque uma outra grande parcela do eleitorado continua destinando seu voto em Lula. O que parece não fazer sentido, está imbuído de sentido e de sentimento. 

A geração Y e o mercado de trabalho

26/01/2018 14:10

Um dos debates atuais, do mundo do trabalho, está associado as crescentes disrupturas comportamentais ocasionadas pela geração Y e tantas outras que serão estimuladas pela geração Z, que logo estará no mercado de trabalho.

A geração Y se desenvolveu em uma época de grandes avanços tecnológicos, ampliação das oportunidades na área da educação e com estabilidade econômica. Cresceu brincando de Barbie e jogando videogame. Possui acesso aos mais variados bens materiais e de consumo duráveis e usufruem de um mix variado de alimentação, diferentemente da origem e desenvolvimento de seus antepassados. Para esta geração o mundo está aí e é para ser vivido.

Neste contexto o desafio é compreender o comportamento destes jovens que foram e continuam sendo estimulados por diferentes atividades, tendem a ser ansiosos e possuem certa dificuldade em exercer carreiras subalternas no início de sua trajetória, necessitando de constantes feedbacks.

No ambiente de trabalho o profissional da geração Y é pragmático no que se refere ao exemplo dado pela chefia: não pode haver contradição entre o que o chefe fala e o que o chefe faz.

As expectativas com o trabalho estão associadas à flexibilidade de horário e qualidade de vida. Este profissional não quer ficar preso ao trabalho ou trabalhar aos sábados pela manhã. Não tem vocação para ser workaholic.

O trabalho ideal é aquele que favoreça o desenvolvimento pessoal com o profissional. O desejo deste profissional é conciliar as metas do trabalho com as suas metas pessoais.

A relação com o tempo é a principal fonte de ansiedade desta geração. Estes jovens não gostam de rotina, de ficar fazendo a mesma coisa por horas, precisam de uma pausa ou respiro a cada duas horas. Esta geração não almeja se estabelecer em um único emprego. Se em dois anos a empresa não apresentou um plano de carreira para este profissional, a tendência natural será de novos voos.

 Esta geração tem uma relação mais íntima com a internet do que com os livros. Quando precisam de atualização ou de algum conhecimento específico procuram sites que englobem o maior conjunto de informações sobre o tema em questão.

Para esta geração a cidadania é um tema superficial. Não são motivados a mobilização ou a participação política. A principal adesão desta geração se limita ao compartilhamento nas redes sociais, mas apenas de temas ou ações que tenham credibilidade ou sensibilizem uma pauta específica.

Quanto maior for o conhecimento sobre o comportamento e a tendência de cada geração, maior será a capacidade de relacionamento, de embate ou até mesmo de resiliência. Não podemos esquecer que as mudanças de comportamento estão associadas as mudanças do meio, da conjuntura, do mundo. Sociologicamente, somos reflexos do meio.

Quanto mais difícil o cenário, maior a importância do povo

20/12/2017 07:20

Imagine você sendo questionado por um entrevistador do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião sobre "o que existe ou acontece no RS que te enche de orgulho?". Ao realizar este questionamento para uma amostra dos gaúchos verificou-se que 1/3 dos gaúchos citam os simbolismos do Estado (tradicionalismo e os ícones que representam a cultura gaúcha). Até aqui nenhuma novidade!

O interessante é que outro 1/3 dos entrevistados destacam o fator humano (o povo, a solidariedade do povo e a união do povo) como motivo de orgulho, são pessoas declarando orgulho de outras pessoas. Cabe registrar que a "história/ povo de história" e os times de futebol aparecem com menos de 10% cada.

A tradição, os simbolismos do povo gaúcho são marcados pela integração, pelo sentimento de comunidade, pela percepção de pertencimento. Os elementos identitários de integração estão presentes nas batalhas rememoradas ou na forma de socializar o alimento, como chimarrão e o churrasco: que motivam a ação coletiva, o compartilhamento.

Se de um lado a atual conjuntura econômica e política ampliam a descrença nas instituições, de outro lado a sociedade aposta no sentimento de igualdade e solidariedade com seus pares. A população se compadece assistindo a cada noticiário: com as vítimas de violência, com os doentes que não conseguem atendimento e até mesmo com os funcionários públicos que não recebem o salário em dia.

O cenário de decepção, com as mazelas do Estado e de apatia com a política, alimenta o sentimento de frustração e favorece a necessidade da crença. É um ciclo vicioso, assim como a alegria precede a tristeza, a esperança precede a frustração. O gaúcho acredita que a esperança está na cooperação, na reciprocidade, na confiança, no companheirismo e nas atitudes positivas.

O povo gaúcho se orgulha de seus símbolos e de suas virtudes e esta combinação é essencial, matéria-prima para a construção de uma associação cívica em prol do fortalecimento das instituições e da democracia. Agora, o detalhe: para ativar esta matéria-prima, para ter a adesão e apoio do povo é necessário: propósito e liderança.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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