Não diga ao eleitor que ele precisa votar certo!

13/09/2017 10:00

Imagine um entrevistador do IPO batendo na casa de um eleitor e perguntando em quem ele votou no segundo turno das eleições para Presidente na eleição de 2014! Excluindo os eleitores que têm relação orgânica com um partido político, mais de 95% da população gaúcha tem a convicção de que votou no candidato em que acreditava e foi enganado: o problema é que, o que parecia ser, necessariamente não era!

A decepção é a ocorrência mais comum entre os eleitores e a preocupação os assola dia-a-dia. Em pesquisas qualitativas o eleitor faz diversas analogias para exprimir sua inquietação, entre elas destaca-se a comparação do Brasil com um avião sem piloto. Um avião que está sendo comandado pelo “piloto automático” e que a todo momento está sofrendo avarias.  

Este eleitor sabe que precisa votar em um “piloto”, em um candidato que possa assumir a condução do avião. O eleitor tem consciência de que o problema é anterior ao destino do voto, o problema está na seleção dos candidatos. Neste tipo de analogia, os eleitores afirmam que os candidatos que se apresentam “dizem que sabem pilotar, mas na verdade não tem brevê nem horas de voo, não tem condições de pilotar o Brasil”.

O descrédito do eleitor com a política está se tornando imensurável e o eleitor não quer receber indiretas sobre a sua capacidade de votar, com frases do tipo: “vote certo”, “vote consciente”, “vamos mudar o Brasil com o voto”.  O eleitor almeja por mudanças na regra do jogo, mudanças que delimitem regras rígidas para definir os candidatos aptos. Estes candidatos precisam ter lisura ética e capacidade de gestão devidamente comprovadas.

O eleitor oscila cada vez mais entre o sentimento de frustração, movido pela descrença e indignação diante das denúncias intermináveis da operação Lava Jato e o sentimento de esperança, de quem almeja dias melhores e acredita que existem pessoas bem-intencionadas que poderiam assumir a representação política, tornando-se políticos. O eleitor sabe votar, pois vota com base na cultura política existente e a cultura política existente é resultado do sistema político vigente. Bingo!

O consumidor “empoderado” ativa a “ouvidoria pública”

06/09/2017 10:00

As plataformas digitais colocaram o consumidor no centro das atenções: deram “voz a quem não tinha” e “estas vozes somadas” “empoderaram” o consumidor (tornando-os emissores, agentes ativos no processo de comunicação).

Há uma mudança social em curso, advinda da relação com as redes sociais, estabelecendo um novo padrão comportamental. Neste novo cenário o consumidor está no controle e suas ações motivam uma sequência de alterações no mercado e na relação com as marcas, que impactam desde a forma de fazer a comunicação até a forma de expor um produto no varejo.

Foi-se o tempo em que o consumidor procurava o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) de uma empresa para fazer sua reclamação ou manifestar sua percepção sobre um comercial em sala de aula ou na mesa do jantar.

Os estudos do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o “empoderamento” do consumidor ativa a “ouvidoria pública” que consiste no relato natural e instantâneo sobre uma marca ou produto nas redes sociais. Pela pressão social, seja pelos comentários e pelas interações dos internautas, a empresa se vê coagida a monitorar ou até mesmo a responder as manifestações dos consumidores. Este novo comportamento diminui a demanda nos SACs e aumenta a demanda nas redes sociais.

As experiências do consumidor em sua jornada de compra, sejam positivas ou negativas, são cada vez mais relatadas instantaneamente nas redes sociais. Efetivamente, o consumidor reclama mais do que elogia. Na prática, o consumidor facilmente critica e expõe os incômodos ocasionados por um mau atendimento ou má qualidade de um produto, relatando apenas as experiências resultantes de práticas de “encantamento”, que é quando o produto e/ou atendimento propicia uma experiência única, um sentimento positivo ou uma sensação de bem-estar para o consumidor.

As redes sociais se tornam um lugar “onde todo mundo está”, obrigando empresas a se relacionarem, monitorarem e elaborarem estratégias de atendimento pelas redes sociais. O fenômeno da “ouvidoria pública” coloca o consumidor “dentro da sala de casa de uma marca” e motiva novas práticas de comunicação que devem ser observadas:

•    Acesso de pessoas/ consumidores em tempo real/ com maior democratização da informação;
•    Possibilidade de aferição dos indicadores de forma mais direta;
•    Possibilidade de direcionar e acompanhar o público alvo.

As mudanças pautadas pelas plataformas digitais e tecnológicas demandam uma maior capacidade dos profissionais envolvidos nestes processos, pela busca de espaço para acentuar os resultados das marcas, a estratégia passa a ser tão importante quanto a criatividade.

O problema dos partidos não está no nome, está na falta de essência!

30/08/2017 14:00

Mesmo diante de uma imensa crise de representatividade os partidos políticos adotam uma estratégia de “reposicionamento de marca” para tentar melhorar a reputação negativa. Esta estratégia parte do pressuposto de que as siglas partidárias devem ser suprimidas, excluindo o “P” de partido e transformando o nome do partido em um “slogan”, uma palavra que traga algum sentido para o eleitor, como se fosse uma palavra de ordem.

O PFL foi o percussor desta lógica em 2007, se tornando Democratas. Uma década depois, o DEM debate a possibilidade de alterar seu nome para Centro Democrático.

No debate para a exclusão do “P” de partido estão as seguintes propostas:

PTN  = que já virou “Podemos”.
PTdoB = Avante.
PSDC = Democracia Cristã.
PSL = Livres.
PMDB = discute voltar a ser “MDB”.
PP = propõe tirar o “P” de partido e deixar apenas o “P” de progressista.
PEN = Patriotas.

Os partidos deveriam ser os principais protagonistas do jogo democrático.  Por princípio, são o instrumento de informação e de familiaridade com as ideologias que deveriam balizar os programas de governo. E a ideologia de cada partido deveria estar alinhada com a premissa de cada um de seus candidatos.

Na democracia, que é o governo de muitos, os partidos deveriam manter ideologias coerentes ao longo do tempo e, paralelamente, deveriam ser confiáveis e honestos no cumprimento de suas promessas de campanha. Os partidos deveriam fazer a diferença entre si e todos deveriam visar o bem comum.

O problema não está no “P” de partido, mas no “P” de prática. Os partidos não fazem o que deveriam. E quanto maior for a inconsistência e fragilidade dos partidos políticos, maiores serão as relações entre os eleitores e as lideranças políticas visando interesses próprios, culminando na manutenção do clientelismo e na ampliação do personalismo político.

Os partidos precisam se preocupar menos com o nome e mais com a sua essência, com a reconstrução de suas ideias. Se os partidos querem se preocupar com um “P”, que se preocupem com o “P” de propósito!

Mais humanidade, mais propósito!

23/08/2017 12:00

Tenho me dividido entre a gestão de pesquisas de opinião e de mercado e a realização de palestras para diferentes públicos, relatando “o que pensa e o que espera a sociedade”.

Em cada pesquisa realizada verifico indicadores mais críticos, mais instáveis, mais negativos. Seja pesquisas que mostram consumidores empoderados, mais exigentes, críticos e insatisfeitos. Seja pesquisas de opinião que refletem cidadãos mais descrentes, apáticos e sem esperanças.

A cada palestra que profiro destaco a necessidade da busca pelo “propósito”, de resgatar os valores, de se ter crença. É necessário estabelecer novas práticas, que tenham sentido, que tragam identidade na relação humana (seja ela uma relação de mercado ou política).

As relações precisam ser menos mecânicas e mais orgânicas. O princípio é simples: “tanto o produto, marca ou a plataforma política precisa estar imbuída de “verdade”, fazer ou servir ao que se propôs.  E, tanto o produto quanto a ação política precisa ter “simplicidade” ou seja, fazer sentido, ter utilidade para quem consome ou acredita. As pessoas estão cansadas de comprar ou escolher “gato por lebre”.

Este debate remete a obra de REIMAN (2013)* que apregoa que “a humanidade deve estar presente nos negócios” e reitero, a humanindade se faz necessária em todas as relações sociais e é vital na política.

Para se ter propósito é necessário “tomar uma posição”, acreditar em algo. Este propósito precisa virar uma prática que seja boa para os dois lados, deve ser um “ganha-ganha”. No mundo dos negócios deve resultar em satisfação para o consumidor e lucratividade para as empresas. Na política deve trazer a ampliação do bem comum e líderes inspiradores.

Para que o propósito seja mantido é necessário uma liderança que tenha valores definidos e os mantenha, com capacidade de reavaliação e atualização do propósito conforme avança a sociede e que consiga unir os colaboradores ou a sociedade em torno deste propósito.

“O propósito dos negócios não é simplesmente o de gerar valor, mas sim o de atribuir maior valor à vida das pessoas. Quando isso acontece, nossas empresas vão lucrar no curto prazo, na próxima década, e o mundo lucrará no longo prazo, no próximo século.”

*REIMAN, Jaime. Propósito: Porque ele engaja colaboradores, constrói marcas fortes e empresas poderosas. São Paulo, Editora HSM, 2013.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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