Uma coisa sempre influencia a outra

20/08/2019 14:58

Crescemos ouvindo os mais velhos falarem que “uma coisa leva à outra”. E o senso comum sabe que existe a lei da ação e da reação, chamam ela de lei da vida: causa e efeito. Na prática o cultivo da terra ensina essa lição, semeamos, cuidamos e colhemos (e podemos perder tudo pois sempre estamos sujeitos a intempéries climáticas e pragas).

Na sociologia é mais ou menos assim, começamos a estudar um comportamento da sociedade ou uma opinião e aprendemos que ambos podem ter relação com uma experiência anterior ou pela influência do outro.

Quando escrevo sobre esse tema tenho em mente os estudos sobre a ampliação da intolerância. Temos visto a intolerância se mostrar na cena pública e ganhar força nas redes sociais, com destaque para o Twitter. E a intolerância traz como escudo uma narrativa de desqualificação do outro, até mesmo de forma obscena (com muitos palavrões) e a essência da radicalidade e do preconceito, com o argumento de libertação do politicamente correto.

Entender esse comportamento crescente é um desafio dos cientistas sociais do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. E todo desafio traz consigo uma jornada e essa é uma jornada instigante, mas muito preocupante. Preocupante pois esse comportamento não está assentado apenas em ideologia. Os que são ideológicos defendem uma mescla de conservadorismo nos costumes e liberalismo econômico.

Mas o que move a grande parte das pessoas intolerantes não é uma crença na política governamental, elas são motivadas pela dor, pelo sofrimento! Elas sofreram ou ainda sofrem com a ausência ou ineficiência do Estado. Perderam pessoas que amavam no trânsito, perderam pessoas que amavam para violência, perderam pessoas que amavam para ineficácia dos serviços de saúde. E ficam ressentidas ao ver as notícias sobre os recursos públicos desviados e ter que sair de casa e viver os dilemas do cotidiano, cruzando com obras paradas e não sabendo o dia de amanhã.

São pessoas que até pouco tempo se caracterizavam como céticas em relação à política (tinham dúvidas, frustrações, mas buscavam acreditar). Diante da ampliação da corrupção e do descaso do Estado essas pessoas passaram a negar a política. Com base em experiências ruins e pela influência de sucessivos escândalos chegaram à conclusão de que os políticos não prestam e para se defender adotaram um raciocínio dicotômico: apoiam um salvador acreditando que ele irá combater o mal que está presente em todos que forem contrários às suas ideias.

Esse fenômeno ocorre em vários países, mas no caso do Brasil, boa parte das pessoas intolerantes são representadas por partes do discurso do Presidente. Utilizam as suas frases de efeito como salvo-conduto para reforçar a sua indignação. E o interessante é que cada um se conecta com a narrativa que lhe convém, ou melhor, com o discurso que é reconhecido por sua dor ou por seu sofrimento.

Um exemplo é o grau de aprovação da frase “bandido bom é bandido morto”. Dentre os gaúchos 44,7% concordam, 44,9% discordam e 10,4% não sabem avaliar. Quando uma pessoa sofre com a criminalidade, não quer saber se o conceito de furto é diferente de roubo e não quer ouvir que a polícia não tem viaturas para atender. Essa pessoa quer ser protegida, quer ter paz e sossego para caminhar nas ruas e, principalmente, quer conseguir dormir sem medo à noite. E vai se identificar, vai apoiar discursos contra a origem do mal: o criminoso.

Vamos descomplicar?

15/08/2019 11:51

Com a correria do dia a dia temos a sensação de que tudo está cada vez mais complicado. Se de um lado temos menos tempo e paciência, do outro temos mais compromissos, responsabilidades e regras para cumprir.

O trânsito é um dos locais onde mais se ouve a frase: “está ficando cada vez mais complicado”. Tem aumentado o número de veículos e diminuído as vagas de estacionamento. Tem ampliado o número de pessoas utilizando outros tipos de transporte (como bicicletas, patinetes...) e reduzido o espaço nas calçadas.

E conforme as relações vão se estabelecendo o Estado vai fazendo leis para disciplinar ou regrar a convivência entre as pessoas. E não podemos esquecer que temos muitos campos de relacionamento que são regrados pelo Estado, em especial, as relações comerciais e o empreendedorismo.

Imagine o Estado fazendo novas regras e leis para atender às mudanças da sociedade, sem anular as leis ou normas anteriores? Essa prática tem acontecido e ampliado o número de leis em desuso ou até mesmo conflitantes.

Putz! Um monte de leis juntas e não revistas cria o que as pessoas conhecem como burocratização e recebe o apelido popular de “burromania”. É uma prática que leva o Estado a ter muitas divisões, processos e regramentos que exprimem uma lentidão aos departamentos. E há regras que chegam a ser desnecessárias, atrapalhando a vida do cidadão e, em especial, dos empreendedores.

Agora a novidade é a visão ou a revisão do Estado brasileiro sobre este tema. Há um amadurecimento dos gestores públicos sobre a necessidade de revisitar a burocracia, simplificando e descomplicando os entraves do setor público.

A iniciativa do governo do Estado do Rio Grande do Sul tem o objetivo de facilitar a vida de quem quer empreender, gerar empregos e desenvolvimento, além de apresentar serviços mais ágeis à população, promovendo ações que buscam minimizar a burocracia da máquina pública.

Mas esta caminhada não é fácil, pois além de rever leis há a necessidade de se rever a cultura, mudar as práticas introjetadas que foram forjadas por uma época analógica: com escassez de informação, filas, papeladas, carimbos, assinaturas e muita morosidade (sem falar na má vontade).

O trabalho iniciou no final de 2018, com a criação do Conselho Estadual de Desburocratização e Empreendedorismo, coordenado pela Secretaria de Governança e Gestão Estratégica (SGGE). O Conselho é formado por sete secretarias do Executivo e sete representantes da sociedade civil, incluindo o Sebrae, sendo que sou uma das representantes da sociedade civil.

Em 100 dias de trabalho do Conselho, foi criado o projeto Descomplica, revogando 300 leis em desuso e indicando 21.000 normas para avaliação legal. Também houve o aceite de mais de uma centena de municípios a Redesim (que é um sistema integrado que irá permitir a abertura, fechamento, alteração e legalização de empresas em todas as Juntas Comerciais do Brasil). Consulte a www.redesim.gov.br e conheça uma das principais ferramentas que está sendo pensada para descomplicar a vida dos empreendedores.

Temos que ter em mente que essa jornada é de todos nós. De um lado está se caminhando para revisar as leis, construir um acesso digital e diminuir a burocracia. Do outro lado, o Estado precisa de uma visão empática dos dilemas da sociedade e desenvolveu um canal de comunicação www.descomplica.rs.gov.br para ouvir as dificuldades e as sugestões da população.

Participe, conte a sua experiência, diga como é e como deveria ser!

A importância do tal “ócio criativo”

06/08/2019 08:57

Cada vez mais temos menos tempo e mais coisas para fazer. Uma correria sem fim e até soa estranho quando alguém defende o ócio. O conceito diz que ócio é um tempo de descanso, cessação do trabalho, folga, repouso, quietação, vagar. Na prática, o conceito está nos dizendo que temos que ter uma mudança de rotina, fazer algo diferente.

Nesse debate reside a grande reflexão em torno do ócio criativo, que é uma resposta, uma saída ou até uma forma de fuga da rotina e, principalmente, uma capacidade de relacionamento com a tecnologia.

Estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o gaúcho passa em média 3 horas na internet, em especial, navegando nas redes sociais. Se calcularmos esse tempo, em uma semana estamos falando de 21 horas e em um mês representa uma média de 84 horas de envolvimento com a internet e com as redes sociais.

Mas vamos imaginar um dia normal. O dia tem apenas 24 horas e durante esse período temos que dormir, fazer higiene, temos que nos locomover no trânsito, temos que trabalhar ou estudar, temos responsabilidades e problemas com as pessoas que vivemos e temos o tempo gasto nas redes sociais.

Ufa, temos a sensação de que o tempo passa voando e que não temos tempo para nada. E não temos mesmo! Voltando ao conceito simplista de ócio criativo, a ideia é administrarmos o tempo. Termos um tempo para nós, ter um tempo em família, ter um tempo com as pessoas que gostamos. Significa desligar o smartfone de todos adultos e o tablet das crianças, escutar uma música, tomar um chimarrão, dividir o preparo do jantar ou ter uma relação afetiva.

Pense em um momento de contemplação do céu, onde explicamos para as crianças o que aprendemos sobre as estrelas ou sobre a lua. O momento em que cuidamos de flores ou o momento em que paramos para ler ou debater sobre um livro. E mais do que isso, o momento em que trocamos ideias sobre o presente e sonhamos com o futuro. E o momento que discutimos a relação ou que criamos um hábito de ouvir o outro.

O que estou dizendo é que temos que gerenciar o tempo, e gerenciar o tempo significa diminuir a influência dos smartfones e das redes sociais em nossas vidas e na relação com a nossa família. Significa ter uma disciplina sobre o tempo, ter um planejamento do tempo, e ter o ócio criativo como parte de uma estratégia para que a tecnologia não domine nossa vida, nossos valores e nossos sonhos.

Em um debate mais avançado, o ócio criativo significa trabalhar com aprendizado constante e buscando momentos de bem-estar e de lazer. Em algumas atividades profissionais dá para fazer a integração destas três ações, em outras não! Quanto mais intelectualizado o trabalho, maior a capacidade de haver o ócio criativo de forma integrada e esta capacidade diminui quando o trabalho é mais braçal.  

Mas como a tecnologia vem adentrando em nossas vidas, em todas as atividades temos que ter a seguinte lógica: o tempo da atividade/trabalho, o tempo do penso/da busca pelo conhecimento e o tempo da diversão, do lazer.

A grande reflexão que devemos fazer, de forma permanente, diz respeito ao nosso posicionamento em relação à tecnologia: vamos ficar passivos ao que a tecnologia nos oferece, sendo objetos desse processo, ou vamos nos posicionar como sujeitos e planejar o papel que a tecnologia vai ter em nossas vidas e o tempo que vamos gastar com o ócio criativo, vivendo com as pessoas que amamos?

Nem na hora da compra somos iguais

30/07/2019 09:34

Quem atende o consumidor diariamente sabe que existem vários perfis e que cada consumidor expressa um tipo de característica: há o consumidor que sabe o que quer e o que não sabe, tem o brincalhão e tem o consumidor com cara de brabo, há aquele que não dá muita conversa e também aquele que não para de falar... E tem aquele que quer pechinchar e até o que não pergunta o preço.

Agora, avançando no campo sociológico, quando se pensa no consumidor gaúcho quais são os principais tipos de comportamento, em quantos grupos eles se classificam e qual a importância de cada grupo?

Analisando as principais variáveis que interferem no comportamento da sociedade, o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião elaborou uma tipologia do comportamento do consumidor gaúcho que tem sido sistematicamente testada em uma amostra representativa: distribuídas por gênero, idade e mesorregiões do Estado.

Na pesquisa, o entrevistado se auto classifica com as descrições apresentadas pelo entrevistador, retratando os seus hábitos de consumo. São analisados os hábitos de compra, tanto na loja física quanto na virtual, bem como variáveis socioeconômicas como idade e renda familiar.

De uma forma geral, foram mapeados cinco tipos de comportamentos: o consumidor racional, o anticonsumo, o consciente, o consumidor por impulso e o consumidor de tendência.

O consumidor racional (54,6%) = É o consumidor que planeja a compra, calcula o custo X benefício de sua decisão. Pesquisa preço, avalia as vantagens da compra. Muitos desses consumidores economizam primeiro para comprar depois.

O consumidor anticonsumo (22,4%) = Este grupo se constitui em duas lógicas distintas, mas que mantém a mesma prática: evitam realizar compras. O primeiro grupo é constituído pelo consumidor que não tem tempo ou não gosta de comprar. Só compra o essencial e em situações de necessidade extrema. Na maioria dos casos, esse consumidor tem o apoio de um familiar. O segundo grupo é formado pelos consumidores que defendem a substituição de produtos industrializados por produtos caseiros e a realização de escambos de produtos entre as pessoas.

O consumidor consciente (9,6%) = Tem uma visão de mundo e acredita em ideais e princípios. Para escolher os seus produtos, além do preço e da marca, leva em consideração o meio ambiente, a saúde humana e animal e as relações de trabalho.

O consumidor impulsivo (7,0%) = É o consumidor tipicamente consumista. Compra tudo o que vê, mesmo quando não pode. Nesse tipo de comportamento se incluem aqueles que são viciados e se sentem felizes quando compram e frustrados após a compra. É o grupo que mais sofre com problemas financeiros.

O consumidor de tendências (6,4%) = É o consumidor que acompanha a moda. Quer estar sempre atualizado, adora novidades. Para este consumidor é vital a importância da marca no processo de decisão.

A pesquisa identificou dois comportamentos com decisão de compra mais utilitária (quando a decisão é motivada pela necessidade, pela demanda ou por fatores tangíveis) que foram classificados como consumidores racionais e conscientes (64,2% dos casos).

Outros dois comportamentos foram enquadrados como decisão de compra hedônica, (que é motivada por tendência, impulso ou emoção), sendo eles o comportamento por impulso e o de tendência (13,4% dos casos).

E é claro que dentro de cada um desses grupos há subgrupos, pois cada consumidor tem suas características comportamentais, econômicas e seu estilo de vida.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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