A responsabilidade é da sociedade ou dos políticos?

07/11/2017 14:35

Vivemos uma época em que novos temas e debates são postos cotidianamente, alguns muito instigantes, como o debate da inovação social. A inovação social se refere às novas estratégias e formas de organização que visam o atendimento das necessidades sociais. É o pensar social das condições de trabalho, da educação, da saúde, da qualidade de vida e do desenvolvimento sustentável de comunidades.

Entretanto, não podemos nos perder de temas vitais e históricos como a participação política, que é vista com indiferença ou até de forma negativa pela cultura política brasileira. Por princípio, a participação política resulta no engajamento social. O engajamento social mobiliza a reflexão e as deliberações coletivas em torno dos direcionamentos da sociedade, desde a condução de políticas públicas e sociais até as ações de inovação social.

Em pesquisa estadual realizada pelo IPO – Instituto Pesquisa de Opinião, no início do mês de setembro, com 1.500 gaúchos distribuídos proporcionalmente nas sete mesorregiões do Estado, verificou-se que a maioria não tem o hábito de participar de associações, sindicatos ou partidos e têm dúvidas quanto a responsabilidade da sociedade sobre a política brasileira.

Pergunta aplicada: E pensando em toda situação da política brasileira (esquemas e escândalos de corrupção), uns dizem que a  responsabilidade é dos políticos e outros dizem que a responsabilidade é de toda a sociedade.

Qual a sua posição? (%)
- A responsabilidade é de toda a sociedade 51,3%
- A responsabilidade é apenas dos políticos 43,9%
- Não sabe avaliar 4,8%

A falta de participação fomenta uma certa omissão social, a mesma sociedade que delega a responsabilidade da representação e da condução do país aos políticos se mostra muito indignada com reformas trabalhistas, com os conluios dos políticos em torno de interesses pessoais ou corporativos e se mostra estarrecida com os desdobramentos intermináveis da Lava Jato.

Esta omissão social é reflexo da maneira como o sistema político está estruturado no país. Um sistema que é baseado em instituições representativas, como partidos, sindicatos e associações e que atua na oxigenação do personalismo, no individualismo e na manutenção dos interesses pessoais em detrimento dos interesses coletivos, o “toma lá dá cá”.

A cristalização da omissão social naturalmente fomenta a apatia social. Uma parte acredita que a sociedade tem responsabilidade, mas qual a ferramenta de participação é confiável? Como cada um poderia contribuir? E confiar em qual instituição? E como saber que as deliberações estão em torno do bem comum?

Estes e outros questionamentos fazem parte das dúvidas de uma sociedade apática, mas que almeja por inovação social.

Os eleitores não acreditam nos partidos, mas creem na democracia

01/11/2017 16:00

Sempre digo que a democracia representativa deveria ser vista como um “telhado” e a análise da consistência do telhado deveria ser medida pela estrutura das paredes, que deveriam por sua vez, ser constituídas pelo exercício da cidadania (com conhecimento dos direitos e deveres) e pela prática da participação política (que inclui o debate e o engajamento da sociedade nas instituições representativas, sejam associações, sindicatos, partidos, etc).

Para haver participação política é necessário a crença e a legitimidade da política. Infelizmente, as pesquisas mostram que para a maior parte da sociedade a política é sinônimo de partido político, de político e de corrupção.

O conceito de política é muito amplo e deveria guiar o “homem” em sociedade, em especial, em um Estado Republicano. A política pode contemplar desde a habilidade de se relacionar com os outros, a cortesia e urbanidade, passando pela orientação ou método político até a arte de governar. A cidade e as leis que temos são fruto da política, a cidade e as leis que queremos ter devem ser frutos do debate político. A política é perene à nossa existência social e, na percepção da sociedade, a política é representada por Instituições e por representantes do povo. O receio é que a falta de crença na política contamine a crença na democracia.

Em pesquisa estadual realizada pelo IPO – Instituto Pesquisa de Opinião, no início deste mês de setembro, com 1.500 gaúchos distribuídos proporcionalmente nas sete mesorregiões do Estado, verificou-se que a maioria dos gaúchos não confiam nos partidos políticos, mas acreditam na democracia. Pergunta aplicada: E pensando no debate entre democracia (governo de muitos) e ditadura (governo de um) é melhor para o Brasil...

- Se manter na democracia 69,3%
- Ter uma ditadura 22,9%
- Não sabe avaliar 7,8%

A maior parte dos gaúchos acredita que a melhor forma de governo é a democracia. Em Porto Alegre, este percentual chega a 79,3% e o menor desempenho está na região da Serra, com 64,4%. Há uma relação direta com a renda e o acesso a informação. Quanto maior a renda e o grau de escolaridade, maior o percentual de pró democracia.

A relação entre rejeição partidária e democracia não se mostra significativa, tendo em vista que quem rejeita e quem não rejeita os partidos políticos prefere a democracia.
É como se a população dissociasse a política da democracia e este fenômeno está alicerçado no personalismo político. A maioria da população não reconhece valor na política (não se interessa, não percebe importância) e tem ojeriza a classe dos políticos. No entanto, estes eleitores acreditam em pessoas e atribuem à estas pessoas um voto de confiança, depositando nelas suas esperanças e crenças. E assim anda a democracia, um telhado que é sustentado pela terceirização da crença em outrem!

Os eleitores não acreditam nos partidos, mas creem na democracia

31/10/2017 18:00

Sempre digo que a democracia representativa deveria ser vista como um “telhado” e a análise da consistência do telhado deveria ser medida pela estrutura das paredes, que deveriam por sua vez, ser constituídas pelo exercício da cidadania (com conhecimento dos direitos e deveres) e pela prática da participação política (que inclui o debate e o engajamento da sociedade nas instituições representativas, sejam associações, sindicatos, partidos, etc).

Para haver participação política é necessário a crença e a legitimidade da política. Infelizmente, as pesquisas mostram que para a maior parte da sociedade a política é sinônimo de partido político, de político e de corrupção.

O conceito de política é muito amplo e deveria guiar o “homem” em sociedade, em especial, em um Estado Republicano. A política pode contemplar desde a habilidade de se relacionar com os outros, a cortesia e urbanidade, passando pela orientação ou método político até a arte de governar. A cidade e as leis que temos são fruto da política, a cidade e as leis que queremos ter devem ser frutos do debate político. A política é perene à nossa existência social e, na percepção da sociedade, a política é representada por Instituições e por representantes do povo. O receio é que a falta de crença na política contamine a crença na democracia.

Em pesquisa estadual realizada pelo IPO – Instituto Pesquisa de Opinião, no início deste mês de setembro, com 1.500 gaúchos distribuídos proporcionalmente nas sete mesorregiões do Estado, verificou-se que a maioria dos gaúchos não confiam nos partidos políticos, mas acreditam na democracia. Pergunta aplicada: E pensando no debate entre democracia (governo de muitos) e ditadura (governo de um) é melhor para o Brasil...

- Se manter na democracia 69,3%
- Ter uma ditadura 22,9%
- Não sabe avaliar 7,8%

A maior parte dos gaúchos acredita que a melhor forma de governo é a democracia. Em Porto Alegre, este percentual chega a 79,3% e o menor desempenho está na região da Serra, com 64,4%. Há uma relação direta com a renda e o acesso a informação. Quanto maior a renda e o grau de escolaridade, maior o percentual de pró democracia.

A relação entre rejeição partidária e democracia não se mostra significativa, tendo em vista que quem rejeita e quem não rejeita os partidos políticos prefere a democracia.

É como se a população dissociasse a política da democracia e este fenômeno está alicerçado no personalismo político. A maioria da população não reconhece valor na política (não se interessa, não percebe importância) e tem ojeriza a classe dos políticos. No entanto, estes eleitores acreditam em pessoas e atribuem à estas pessoas um voto de confiança, depositando nelas suas esperanças e crenças. E assim anda a democracia, um telhado que é sustentado pela terceirização da crença em outrem!

Entre Lula, Bolsonaro e à procura do salvador da pátria

24/10/2017 16:20

Estudo o comportamento dos eleitores há mais de 20 anos e a cada novo pleito aprendo muito com cada processo. Dito isso, posso afirmar: o pleito de 2018 será histórico!

O eleitor está cansado, está exaurido com o nível endêmico da corrupção e a situação política do país, e ainda, é acusado de não saber votar. Os políticos conclamam para que o eleitor vote com consciência e o eleitor conclama para que os partidos políticos escolham com consciência os candidatos que os representarão. O problema é anterior a escolha eleitoral, diz respeito a falta de princípios na escolha dos candidatos dentro dos próprios partidos.

O eleitor analisa as opções disponíveis, que vão de Lula a Bolsonaro e faz suas escolhas. Em ambos os casos, o voto ideológico tem um peso secundário.

A maioria dos eleitores que intencionam votar em Lula o fazem por gratidão, por reconhecimento aos programas sociais implementados no país durante os governos do PT. Estes programas alteraram a vida de muitas pessoas, proporcionaram dignidade, mobilidade social e a realização de sonhos. É comovente ouvir relatos de famílias que conseguiram financiar uma casa no programa Minha Casa Minha Vida e que seu filho teve acesso ao ensino superior pelo Prouni. Como a corrupção é vista por 90% dos gaúchos como um mal que permeia todos os políticos, a análise é que “pelo menos Lula fez”.

A maioria dos eleitores pró Bolsonaro temem a situação do país, se preocupam com o aumento dos índices de criminalidade e acreditam que Bolsonaro não estaria comprometido com conchavos políticos e corporações, tendo condições de enfrentar os principais dilemas que atingem a sociedade. É como se Bolsonaro representasse a angústia reprimida, a indignação perante a falta de princípios que se expressam nas práticas do jeitinho brasileiro.

Entretanto, a maior parcela do eleitorado não quer saber de Lula e nem de Bolsonaro em função da frustração com os atuais políticos. Procuram um candidato que seja exemplo de honestidade e que tenha a capacidade de encorajar o país a se reformular, a fazer as disrupturas necessárias a fim de superar as práticas permissivas que alimentam a corrupção. Os eleitores procuram um salvador da pátria, uma pessoa que tenha a capacidade de liderar e que tenha experiência como gestor.

Os eleitores sabem que um salvador da pátria é algo idealizado, mas apregoam que a esperança é o que motiva a crença no amanhã e permite sobreviver frente a toda frustração.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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