O jovem de hoje fará a política de amanhã

19/02/2019 07:42

A política é vital e está associada diretamente ao nosso cotidiano. A política influencia no custo de vida, define os impostos e taxas que devemos pagar, determina quanto tempo temos que trabalhar para usufruir dos direitos da aposentadoria, as regras de trânsito, as diretrizes para a educação, o sistema de saúde e de segurança que temos, o que é certo e o que é errado e, inclusive, levanta o debate sobre podermos, ou não, dar uma palmada em nossos filhos.

E temos que ter consciência de que vivemos um grande paradoxo: a política define a vida das pessoas e as pessoas não querem saber de política. Salvaguardando todas as proporções e diferenças, em uma democracia, a política é tão vital quanto a água, inclusive muitas pessoas podem sofrer consequências sérias se a política não cuidar bem da água.

Como cientista social e política, que coordena o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, acompanho o crescente desinteresse das pessoas pela política, em especial, em relação as instituições representativas que fazem a política funcionar: entidades de classe, associações, sindicatos e os partidos políticos.

Quando vejo este contexto, me preocupo em observar se os jovens também são céticos e desiludidos. E, infelizmente, os jovens em sua maioria não querem saber de política ou dos partidos políticos.

A criança de ontem é o jovem de hoje. Se a criança recebe, sistematicamente, a informação de que a política não presta ou de que ela deve ficar longe de política, o resultado é um jovem com uma percepção negativa da política, dando voz ao ditado que diz que somos o reflexo do que vivemos.

Não estou eximindo a responsabilidade dos políticos e partidos, afinal de contas quem, neste momento, tem 18 anos passou sua adolescência inteira assistindo um terrível noticiário: desvios, corrupções e prisão dos principais representantes do povo. E este jovem, que foi forjado em uma sociedade que rejeita a política, está totalmente conectado nas redes sociais.

É sabido que a juventude traz consigo uma rebeldia natural. Geralmente o jovem se rebela em relação a um princípio que lhe é imposto. No atual contexto o jovem tenta se rebelar contra o descrédito e, na prática, converte a sua ira aos serviços públicos que têm problema ou a alguma decisão que discorda, mantendo a premissa de que não gosta de política.

É como se estivéssemos construindo um mundo paralelo. Estes jovens têm mais educação formal e acesso a informação, mas pela rejeição à política desconhecem a organização da política do mundo real, não tem uma ação prática off-line, não participam de nenhuma instituição e não debatem cara a cara.  

Fazem o seu ativismo digital por pautas individuais ou por ações coletivas que lhe são caras. Se o jovem gosta de pets, passa a apoiar quem precisa de ajuda ou defende pets.

Os jovens utilizam a internet para emitir os seus juízos de valor, se posicionarem de forma individualista, crítica e, muitas vezes, até egoísta. Defendem desde questões comportamentais até mudanças legais, não mostrando muita paciência para dialogar ou debater e, quando o conflito se acirra, deletam ou bloqueiam, mantendo uma bolha de relações.

Como a política é instintiva, em um ativismo digital motivado por ondas da internet para os jovens, é muito fácil repassar centenas de convites para uma manifestação ou fazer um blog para postar a sua opinião.

O grande desafio é conectar os jovens à política off e as instituições representativas ou, ainda, reposicionar as instituições representativas para que elas se conectem aos jovens.

A política existe para garantir o bem comum

12/02/2019 09:44

Quanto mais estudo a indignação e o distanciamento da sociedade com a política, maior é a convicção de que precisamos fazer o caminho inverso: nos aproximarmos da política. Quando falo isso, estou pensando em como a política foi idealizada, em como ela funciona de fato e em como a população se envolve e percebe a política.

Minha maior preocupação está no resgate e debate do conceito base do ser humano em sociedade: o bem comum. Nos organizamos em sociedade, em um Estado para garantir o bem comum e a política deveria servir como uma ferramenta de manutenção e evolução desse bem comum.

Diante de tantas decepções históricas com a política, acabamos perdendo a sua essência e, por vezes, nos esquecemos até do bem comum. Motivados pela frustração e pela premissa de que todos os políticos trabalham pelo interesse próprio, optamos pelo distanciamento e pela crítica: “a política e quem está associada a ela não presta!”. Pronto, a cristalização da negação da política e de distanciamento da sociedade fornece tudo o que os maus políticos precisam: condições para manter as coisas do jeito que estão!

Para se compreender o bem comum temos que retomar princípios básicos de seu conceito como: a finalidade, a noção do bem, a noção de participação, a noção de comunidade e a noção de ordem. Um dos principais motivadores do bem comum é a finalidade, temos que compreender como algo é feito, qual a essência, o que motiva ou qual seu objetivo ou resultado.

A noção de bem vem sendo passada moralmente de geração em geração: “nunca faça para os outros o que você não gostaria que fizessem para você” e com a premissa de que “meu direito termina quando começa o do outro”.

Podemos pensar na questão de participação no seu sentindo mais simplista, “se tornar parte”. A política não é feita sem o consentimento de todos nós. A política também atua motivada por nosso desconhecimento, omissão ou interesse. E em todos esses casos tomamos partido, o da negligência ou condescendência.

A noção de comunidade se constitui a partir da finalidade, com a noção de bem e de participação e se fundamenta no sentimento de solidariedade e igualdade com os demais membros da comunidade.

Mas para termos uma comunidade em funcionamento, precisamos da noção de ordem, que pode ser pensada com normas de cooperação, reciprocidade, confiança e atitudes positivas que devem ser reveladas através da confiança em si, no outro e nos representantes eleitos.

Se você está pensando que este texto é para os políticos, está enganado! Só mudaremos a política se mudarmos as relações de baixo para cima. Vamos pensar em uma associação de bairro, sabemos que a participação é cada vez menor porque não percebemos a finalidade da associação, acreditamos que há interesses pessoais ou que não adianta participarmos. Se esta percepção é compartilhada por várias pessoas que saem de uma entidade, quem fica pode não ter força para estabelecer a noção de comunidade e de ordem e vai fazer o que acredita ser o certo, que pode não ser o bem comum. É como uma corrente onde cada um de nós tem um papel importante na manutenção do elo de ligação.

Se visamos o bem comum ampliamos a capacidade de existirmos, coexistirmos e convivermos em sociedade de forma harmoniosa e assim contribuímos para o interesse público. Na prática, quando trabalhamos com as premissas do bem comum começamos a tratar uma das doenças deste século, que é a ampliação do individualismo, do egoísmo e da falta de paciência.

Quanto mais dominarmos a política, menos ela nos dominará

05/02/2019 09:58

Por princípio a opinião popular deveria ser a base das regras políticas e das normas sociais. Não é à toa que a Constituição diz em seu parágrafo único que: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Como pesquisadora acompanho o crescente desinteresse da sociedade por política, inclusive entre os jovens. Pesquisa realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião no RS verificou que 81,5% da população não tem o hábito de conversar sobre política e 63,6% não tem interesse no tema.

Nas redes sociais se observa a impaciência, a intolerância e até a agressividade dos internautas com a política. Em muitos casos, a crítica e a ofensa antecede o debate e a reflexão. Em outros, o debate e a reflexão inexistem.

A opinião deve ser a forma de uma pessoa se manifestar, buscar sua identificação com o mundo que o cerca. É fato que a opinião está envolvida por um juízo de valor e externar essa opinião é um movimento salutar em direção ao conhecimento. Ou seja, se digo o que penso e debato com o outro de forma respeitosa, amplio o meu conhecimento. Em muitos casos, agrego uma nova perspectiva, faço uma reflexão, vou atrás de mais informação, confirmo um dado, aprendo! E é assim que devemos evoluir em uma democracia.

Ao contrário, a radicalização de uma posição nunca é positiva e a negação da política é tão ruim quanto as ideias fixas dos radicais políticos.

Sei que aprender a opinar não é uma tarefa fácil e necessita estar associada ao bom-senso, resiliência e empatia, para que a opinião não vire uma posição, uma verdade absoluta ou um abuso de poder. E a nossa régua de referência tem sido historicamente salvaguardada pelo senso-comum: “o meu direito termina quando começa o do outro”.

O objetivo da Constituição é “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. E não há nenhuma contradição entre o objetivo da Constituição e a expectativa da sociedade.

Então não devemos negar a política! Ao contrário, devemos nos apropriar da política. A política precisa estar nas reuniões de família, na escola desde as séries iniciais, no local de trabalho, no debate das redes sociais e até mesmo nas atividades de lazer.

E quando falo em política não estou falando em defender o político X ou Y ou o partido W ou Z. Estou falando de debatermos a cidade que temos e a cidade que queremos. As leis que temos e as leis que podemos ter.

Estou falando em utilizar a internet para buscar informações sobre as reformas que estão sendo propostas, de acompanhar a atuação dos políticos em que votei, acompanhar aplicativos como: “Sr. Cidadão”, “Meu Deputado”, “Tá de pé?, “Meu município, entre outros.

Estou falando em compartilhar informação sobre os direitos que temos e como exercê-los de forma plena. De trocar experiência e sonhos. Também estou falando em se reunir em algum tipo de entidade ou associação, de pensar, deliberar e reclamar em conjunto.

Estou falando de identidade, de propósito, estou falando de sentimento de comunidade, de pertencimento. Estou falando que para o poder emanar verdadeiramente do povo, devemos ter que gostar de política e o primeiro passo é o interesse e o hábito de conversar sobre política.

A sirene não tocou e mais uma vez o Brasil falhou

29/01/2019 17:11

Assistir a tragédia de Brumadinho pela televisão é desolador e deve ser uma experiência devastadora para aqueles que estão trabalhando heroicamente no processo de atendimento e de busca às vítimas.

Quando falamos em vítimas, temos que ter em mente que são mais de 1.000 pessoas que foram vítimas diretas ou indiretas desta tragédia. Mais de 670 pessoas foram localizadas ou resgatadas pelo corpo de bombeiros. E são mais de 360 pessoas desaparecidas ou encontradas sem vida.

É algo inimaginável, pensar na barragem rompendo e na lama trazendo consigo uma grande leva de trabalhadores e gerando o maior acidente de trabalho da história do país. E esta lama foi avassalando uma comunidade, acabando com ruas, destruindo casas, soterrando plantas e animais, levando carros e, principalmente, tirando vidas humanas e separando famílias.

Os depoimentos dos sobreviventes demonstram o turbilhão de sentimentos que uma pessoa fica exposta depois de vivenciar uma tragédia destas. De um lado, os sobreviventes expressam a gratidão pela vida e de outro lado, demonstram o desalento pelas perdas de parentes e amigos e a frustração em ter sua história soterrada.

E parece que vivemos um déjà vú apenas três anos após a tragédia de Mariana, um acidente na mesma região, com a mesma empresa e com o mesmo tipo de operação. Parece que não aprendemos, nem mesmo para conseguir tocar a sirene. E novamente uma tragédia assola todo um contexto social e ambiental e a estimativa de especialistas é de que a lama atinja mais 10 municípios de Minas Gerais e pode chegar ao rio São Francisco, se nada for feito.

Para os que assistem a tragédia de forma atônita ficam as perguntas. O que houve? Foi incompetência, negligência ou ganância?  Por que o Brasil não aprendeu com a tragédia anterior?

Para refletirmos e/ou debatermos sobre os motivadores desse novo desastre temos que analisar os vários contextos que envolvem este tema e as lições que precisam ser aprendidas.

Na questão legislativa, o Senado Federal arquivou um projeto que endurecia a política de segurança de barragens e perdeu a oportunidade de fazer um importante debate sobre o tema e possibilidade de diminuir o risco desse novo desastre.

Os ambientalistas afirmam que a tragédia é resultado do descaso, motivado de interesses econômicos. Afirmam que existe tecnologias mais avançadas para uma mineração mais segura, porém é difícil conciliar interesse econômico com responsabilidade social.

Todos os documentos da Barragem estavam em dia em termos de fiscalização e regulação. As informações oficiais dão conta de que são 790 barragens de rejeitos de mineração e com um marco regulatório frágil, que permite que o controle de riscos fique nas mãos das próprias barragens, ou seja, a própria barragem é que deve apresentar laudos que atestem a segurança da população e do meio ambiente.

Do ponto de vista da engenharia, os laudos dão conta de que era uma barragem estável. Diante desta reflexão, o grande questionamento fica por conta da engenharia de barragens: se há falta de tecnologia para fazer o controle mais efetivo das barragens ou se há falta de recursos?

Em um mundo em transformação e disruptivas, talvez o debate tenha que refletir sobre o fim das barragens, com o aproveitamento dos rejeitos da mineração em matéria prima para construção civil (blocos, tijolos, cimento, etc).

Não é à toa que dizem que “errar é humano e persistir no erro é tolice”.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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