A percepção do brasileiro sobre si mesmo

16/04/2019 09:18

Guardo na memória um dia ímpar em minha trajetória como pesquisadora. Estávamos fazendo um estudo sobre classes sociais, avaliando a percepção dos entrevistados sobre si mesmos e o seu comportamento de consumo.

Era uma pesquisa qualitativa e foram montados grupos focais (significa que reunimos umas 8 pessoas, nesse caso com as mesmas características, para falar sobre o tema durante umas duas horas). Separamos os grupos focais por renda. O meu primeiro grupo era composto por pessoas que viviam com menos de um salário mínimo, em especial, beneficiários do Bolsa Família.

Uma das primeiras perguntas era sobre a pobreza, como poderia saber que uma pessoa é pobre? Como eles faziam para classificar? O grupo foi unânime: uma pessoa pobre é uma pessoa que não tem renda, capacidade de comprar o que precisa. Na prática, estavam me dizendo que não se classificavam como pobres, pois o pobre era alguém que ganhava menos do que eles.

Esse tema voltou a minha mente quando vi a divulgação de uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha, para a ONG OXFAM, realizada em fevereiro de 2019. A pesquisa solicitou que o entrevistado se auto classificasse em uma classe, aplicando a seguinte pergunta: Considerando sua renda e padrão de vida, você se considera em qual dos seguintes grupos?

- 16% dos brasileiros se consideram pobres;

- 49% se consideram de classe média baixa;

- 32% se classificam como classe média;

- 2% como classe alta.

Tendo como ponto de corte os últimos cinco anos, a maioria acredita que a situação do país tem dificultado a mobilidade social, que está associada à leitura de que a vida tem piorado:

- 57% avaliam que não mudou de classe social nos últimos cinco anos, este fenômeno é mais acentuado na classe média;

- 24% consideram que melhorou de classe social. Em especial, dentre os que se classificavam como pobres e passaram a se classificar como classe média baixa;

- 1% não soube avaliar o seu desenvolvimento pessoal.

Na percepção dos brasileiros uma coisa leva a outra. A dificuldade de crescimento está associada às condições financeiras da família, que por sua vez limita as oportunidades de trabalho e de estudo, em especial, entre os jovens.

A pesquisa demostrou que o principal desejo do brasileiro para ter uma vida melhor não está associado diretamente à questão econômica. O que o brasileiro quer:

- Fé religiosa 28%;

- Estudo/conhecimento 21%;

- Ter acesso a medicamentos/à saúde 19%;

- Crescer no trabalho 11%;

- Ganhar mais dinheiro 8%;

- Ter acesso à aposentadoria 6%;

- Apoio financeiro da família 5%.

Os entrevistados valorizam o bem-estar, a capacidade de se sentirem bem consigo mesmos. Sendo que a fé, a educação e a saúde se destacam em todas as classes sociais, do mais pobre ao mais rico.

A educação é vista como um tema muito importante. Na percepção da maioria dos brasileiros uma pessoa de família pobre e que trabalha muito, não tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida, como uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito.

A dificuldade de superar este paradigma está associado ao acesso à educação, o conhecimento é considerado como a principal porta para a mobilidade social, que possibilita que o filho de um “operário” se torne um “doutor”. O brasileiro sabe que tal meta nem sempre é possível entre as pessoas com menor renda, tendo em vista a necessidade de subsistir-se, por isso apregoa que se “correr o bicho pega e se ficar o bicho come”.

Os sentimentos presentes na experiência de compra

09/04/2019 14:47

Você já parou para pensar como foram as suas últimas experiências de compra? E essas experiências foram mais positivas ou negativas? Teve um certo uau com um produto ou com um atendimento encantador? Ou foi uma experiência que lhe trouxe certa indignação ou até motivou uma frustração, seja com a falta de um produto ou com um atendimento displicente?

Essa é a nova vertente das técnicas de pesquisa, que estudam o comportamento do consumidor, realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, para compreender a experiência de compra. E quando se fala em experiência de compra, podemos pensar em uma loja física ou virtual. Estamos vivendo um processo de transformação do comportamento social que incide diretamente no comportamento de compra.

O consumidor se interessa cada vez mais por novidades. Quer comprar algo que o deixe feliz. Quer analisar tendências e escolher a opção que tenha a ver com seu jeito de ser ou apenas quer que um produto facilite a sua vida!

Para entender este novo cenário, temos que nos reportar ao papel que a tecnologia está ocupando na sociedade, na relação cotidiana com o smartphone, que influencia diretamente o comportamento e o estilo de vida das pessoas.

As pessoas acompanham grupos e influenciadores que se propalam nas redes sociais e assistem às dicas de youtubers. Estes indicam o que deve ser consumido, comprado ou customizado. São muitas dicas compartilhadas que estimulam o desejo, fomentam expectativas e anseios.

Tal conjuntura vai moldando um consumidor que quer sempre uma nova experiência e que está associada a diferentes sentimentos e expectativas, tais como o de:

1º) Transparência = Como se tem a informação na palma da mão, tem-se uma noção do valor, do preço dos produtos e serviços. O preço é o primeiro item desejado pelo consumidor, que espera um preço justo, que esteja associado à experiência positiva.

2º) Tangibilidade = A internet propicia o contato inicial com os produtos e as tendências do mercado. Mas o consumidor gosta de manter a relação com a loja física, gosta de ter a sensação de clareza, que está dominando o processo de compra. O consumidor se sente seguro em ver as opções de produtos, gosta de se surpreender com os detalhes, as aplicações ou as funcionalidades dele.

Se, durante a experiência de compra, o consumidor for estimulado a visualizar, sentir e até ouvir algo que lhe agrade, tende a emitir uma resposta emocional, uma satisfação de encantamento, que agrega valor à compra.

3º) Bem-estar = O consumidor presta atenção em um lugar agradável, gosta de um lugar que o surpreenda. A arquitetura do ambiente, sua iluminação, sinalização, os aspectos visuais de decoração ou paisagismo e as interações sensoriais são cada vez mais considerados pelo consumidor.  

4º) Consideração = Uma boa experiência de compra está associada à capacidade de interação com uma equipe de atendimento, seja no mundo real ou no virtual. O consumidor quer falar com alguém que o entenda, que mostre saídas e alternativas quando não há o produto desejado. O consumidor espera que o vendedor seja um consultor, que esteja motivado e motive-o, que tenha proatividade mostrando tendências, possibilidades de uso e alternativas.

Na prática, o consumidor espera que a experiência de compra seja uma atividade de lazer, um momento em que ele saia para comprar, esqueça os problemas cotidianos e tenha boas sensações.

Nem de direita, nem de esquerda...

02/04/2019 07:58

Nas eleições de 2018, os termos direita e esquerda passaram a fazer parte das defesas e, principalmente, dos ataques e desqualificações entre as pessoas. Até hoje, nas redes sociais, os simpatizantes de cada lado fazem tanto barulho que dá a impressão de que o mundo está se radicalizando.

Tal conjuntura fornece um contexto ideal para pesquisa, afinal de contas como o gaúcho se auto classifica em termos de direita e esquerda?

Para tanto o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, replicou o teste clássico aplicado no ESEB (Estudo Eleitoral Brasileiro): “Na política as pessoas falam muito de esquerda e de direita. Eu gostaria de saber se, em termos de ideologia, o(a) Sr.(a) se enquadra mais à direita ou à esquerda (ou não tem ideologia)? Em uma escala de 1 a 10, sendo que mais próximo de 1 é mais à esquerda e mais próximo de 10 é mais à direita. Com qual nota o(a) Sr.(a) se classifica em termos de ideologia?”

O primeiro resultado indicou que 1/4 dos gaúchos não se classifica dentro do espectro ideológico e 9,5% afirmam que não têm opinião formada sobre o assunto.  Na prática, pouco mais de 1/3 dos gaúchos já começam a entrevista afirmando que não querem saber do debate entre direita e esquerda.

São pessoas que rejeitam os partidos políticos, que têm uma vida corrida por trabalhar de sol a sol, utilizam os serviços públicos e possuem uma renda familiar inferior a três salários mínimos. Na maioria das vezes, esses eleitores definem o processo eleitoral, escolhendo o candidato que tenha um discurso sensível aos problemas que estão sendo debatidos. Tecnicamente, é o eleitor volátil, que deposita esperança em uma pessoa e vota em função de suas propostas.

Os outros 2/3 afirmam que têm uma posição ideológica. O entrevistado escolheu uma nota que representasse a sua opinião, analisou um cartão com uma régua com uma numeração de 1 a 10, sendo que os resultados obtidos foram os seguintes:

- 14% dos eleitores gaúchos se consideram mais inclinados à esquerda, posicionando-se com notas de 1 a 3.

- 4,9% dos eleitores gaúchos se consideram mais inclinados à centro-esquerda, posicionando-se com notas 4, que pode ser analisada como a esquerda moderada.

- 22,1% dos eleitores gaúchos se consideram mais inclinados a centro, posicionando-se com notas 5 e 6.

- 8,1% dos eleitores gaúchos se consideram mais inclinados à centro-direita posicionando-se com notas 7, que seria a direita moderada.

- 15,8% dos eleitores gaúchos se consideram mais inclinados à direita posicionando-se com notas de 8 a 10.

O resultado indica que as duas pontas, direta e esquerda, têm em média 15% de incidência. Se analisarmos os que se classificam como centro-direita e centro-esquerda, temos uma tendência pró-direita, com 23,9%.

Encontrou-se percentuais similares em todas as faixas de idade e de renda. Na prática, não se pode dizer que quem é mais jovem tem ideologia diferente de quem é mais velho ou que, quem ganha menos, tem ideologia diferente de quem ganha mais.

Se analisamos a zona de conforto do gaúcho, a maioria do eleitorado não se classifica em uma posição ideológica ou se classifica como centro (notas 5 e 6), totalizando 57% dos gaúchos.

É importante registrar que há consensos entre as pessoas que se auto classificaram de diferentes formas. A maior unanimidade está associada à leitura de que o maior problema do país é a corrupção. O problema é que a divergência de opinião se manifesta de forma intensa quando a pergunta é sobre a origem da corrupção.

Como entender a popularidade de Bolsonaro

27/03/2019 09:40

Acompanho resultados de pesquisas de opinião a mais de duas décadas e analiso dados de forma longitudinal, tal prática me permite mensurar as mudanças comportamentais da sociedade.

E os dados indicam que a volatilidade da opinião pública está cada vez maior. O que motiva a variação da opinião pública em um pequeno espaço de tempo é a falta de crença. As pessoas mudam de ideia quando a sua decisão não foi baseada em informações ou em um ideal de mundo. Na prática, nosso maior mal é o desinteresse e a descrença com a política.

E a última avaliação do governo Bolsonaro é um exemplo prático, que ilustra essa perspectiva analítica. Segundo pesquisa nacional realizada pelo IBOPE, em março de 2019, Bolsonaro é avaliado positivamente (como um governo ótimo e bom) por 34% dos brasileiros. Outros 34% avaliam como regular e 24% têm avaliação negativa (ruim ou péssimo). E 8% não soube avaliar.

Pesquisa realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião no RS, em março de 2019, demonstra que a opinião dos gaúchos está literalmente dividida: 35,2% dos gaúchos avaliam o governo positivamente (ótimo/bom), 31,6% avaliam como regular e 33,3% avaliam negativamente o governo Bolsonaro (ruim/péssimo). 

As principais análises nacionais destacam que a avaliação de Bolsonaro é menor do que a avaliação dos últimos presidentes eleitos, realizadas no mesmo período.  Mostram que Bolsonaro caiu 30% em relação a pesquisa de janeiro de 2019 e que a sociedade brasileira está dividida, sendo que apenas 1/3 tem uma avaliação positiva de Bolsonaro.

As análises evolutivas precisam ser feitas à luz das variações comportamentais. O eleitor de hoje não é mais o eleitor do governo Fernando Henrique ou de Lula.

Ao longo das últimas duas décadas o eleitor sofreu muitas decepções. As mesmas pesquisas que avaliam o governo Bolsonaro, conferem que eleitor está mais cético, confia menos nas instituições e acredita que os políticos atuam em causa própria: roubando, desviando, favorecendo alguém ou, simplesmente, sendo descomprometidos com as necessidades básicas da população.

Não podemos esquecer que Bolsonaro obteve 55,1% dos votos válidos, mas que sua votação representou 39,2% dos eleitores brasileiros e as pesquisas de opinião são realizadas com uma amostra de todo o eleitorado. Uma analogia entre o percentual de votação de Bolsonaro com sua avaliação positiva (ótimo e bom), demostra que Bolsonaro perdeu apenas 13,2% de apoio.

O elemento mais simbólico desta reflexão diz respeito a diminuição da paciência do eleitor. Outrora, levava um ano para que o eleitor se decepcionasse com o candidato eleito. Antes, o eleitor garantia um salvo-conduto maior, esperava ações para julgar o governante. Após a eleição de 2016, este marco temporal foi para um semestre e a atualmente está em um trimestre. Inclusive, o mesmo fenômeno ocorre com o governador Eduardo Leite.

Esse comportamento pragmático do eleitor é mais emocional do que racional e se baseia em percepções. Quando pensa em política, o eleitor vive uma constante dicotomia de sentimentos: deposita esperança em um candidato e se frustra ao pressentir que o mesmo não tem condições de executar o que prometeu.

Mesmo quem não votou em Bolsonaro reconheceu seu discurso em prol da moralidade política e segurança pública. Para resgatar sua popularidade, o presidente terá que mostrar resultados nestas duas áreas.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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