Quanto maior a desconfiança, menor a crença

08/01/2019 10:16

Uma pesquisa realizada pelo Latinobarómetro em 28 países da América Latina, em 2018, indicou que os brasileiros são os mais insatisfeitos com a democracia, apenas 13% consideram-se muito satisfeitos ou satisfeitos com a democracia brasileira. A desconfiança com a democracia está associada à desconfiança dos seus representantes, neste quesito o Brasil ocupa o penúltimo lugar, em 2018 somente 11% da população confiava no Congresso Nacional.

E esta percepção negativa é resultante de três fatores: corrupção, clientelismo político (que favorece o grupo ligado ao político) e a ineficiência dos serviços públicos (situação cada vez mais agravada na saúde, na segurança, na educação e infraestrutura).

O Brasil também fica nos últimos lugares quando o tema é confiança entre as pessoas: apenas 7% responderam positivamente à pergunta “É possível confiar na maioria das pessoas?”. A desconfiança entre as pessoas está associada e, é ampliada, pela desconfiança da população com os líderes políticos. Quanto maior é o descaso dos políticos com a sociedade, menor é o sentimento de coletividade, de comunidade. E o individualismo é potencializado quando as pessoas precisam “se virar sozinhas” para conseguir direitos que são ignorados ou negados pelo Estado.

No início de cada mandato, se renovam as esperanças e se reposicionam as expectativas. Neste momento a opinião pública tende a dar um “salvo conduto” aos eleitos, desejando que o próximo governo seja melhor que o seu antecessor. Pesquisa realizada pelo Datafolha em dezembro de 2018 indicou que 65% dos brasileiros têm uma expectativa positiva com o futuro governo de Bolsonaro. Sendo que entre os eleitores de Bolsonaro a expectativa é de 88%.

Segundo o Datafolha, esta é a menor expectativa com um presidente eleito deste a reabertura política: Collor 71%; FHC 70%; Lula 76%; Dilma 73%. Quando o quesito é a comparação, 76% avaliam que Bolsonaro será melhor do que Temer; 73% acreditam que Bolsonaro será melhor do que Dilma, para 58% Bolsonaro será melhor do que Lula e 56% acreditam que Bolsonaro será melhor do que FHC.

Quando questionados sobre a prioridade para o Brasil, a população afirma que deveria ser a saúde, com 40%, educação com 18% e segurança com 16%. Quando se questiona a expectativa com a área que Bolsonaro “vai se sair melhor”, os brasileiros acreditam que será a segurança, o combate a violência. Ao contrário, a expectativa é que as áreas que o presidente “vai se sair pior” são a educação (14%) e saúde (13%).

Estes números que sistematizam a percepção da opinião pública são importantes para compreensão do momento em que vivemos e reflexão sobre o papel de cada um de nós neste processo.

1) Bolsonaro tem a menor expectativa de um presidente eleito, pois assume em um momento de baixa satisfação da população com a democracia, com seus líderes e consigo mesmo (não confiamos uns nos outros).

2) O brasileiro tem uma lista de prioridades (como saúde e educação) que são conscientemente relegadas a segundo plano, na aposta de que o presidente eleito combata duramente a corrupção, acabe com privilégios e minimize a violência.

O desejo da sociedade é para que haja uma ação no cerne do problema, na fonte histórica que alimenta o câncer da política brasileira. Afinal de contas, se a corrupção, se os privilégios e se os conluios não forem repelidos não acabaremos com o eterno dilema da falta de recursos.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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