O Coronavírus muda nossa forma de ver o mundo

31/03/2020 15:56

Não imaginávamos entrar em uma “guerra” invisível, contra um inimigo que não enxergamos e temos pouca informação. Ouvimos histórias sobre as dificuldades e tristezas causadas pela gripe espanhola ou sobre as consequências da primeira e da segunda mundial. Mas para nós eram apenas histórias.

Não sabíamos o que era o distanciamento social, o isolamento social, quarenta, o toque de recolher, a intervenção horizontal com bloqueio do que não é essencial. Não tínhamos visto o comércio fechar, a novela deixar de ser gravada ou uma olimpíada ser cancelada.

Agora, se prestarmos atenção à história da humanidade, as guerras trazem consigo uma ruptura, que cria uma mudança social e que marca as gerações que passaram por essa situação. Essa mudança está associada às novas experiências vividas, ao medo, ao sofrimento e ao fortalecimento da esperança e da solidariedade. Todos esses sentimentos alteram o comportamento e fazem com que as pessoas olhem o mundo por outro ângulo.

E isso acontece porque o certo, vira incerto. Em um curto espaço de tempo, nossa vida vira de cabeça para baixo, temos a sensação de que sabemos muito pouco ou quase nada e passamos a viver um dia após o outro.

Vivíamos em uma zona de conforto, com os nossos problemas e dificuldades cotidianas, mas sem muitas surpresas. Estávamos tão acostumados a dizer que no Brasil nada mudava, que os políticos não prestavam e tínhamos quase a certeza de que não se podia confiar em ninguém! Tínhamos dado um rótulo e tudo estava resolvido.

Nos acostumamos a ver a violência, a falta de leitos nos hospitais e a miséria como parte de uma realidade que não nos afetava mais. Sabíamos que o respeito estava cada vez menor e que a intolerância cada vez maior e íamos tocando.

Tínhamos cada vez menos tempo e menos paciência para dar um apoio a quem precisava, para dar aquele abraço em um amigo ou até para sentar e alertar um familiar sobre os riscos de suas decisões. Estávamos perdendo a nossa essência, a nossa identidade, o sentimento de comunidade e tudo o que aprendemos com os nossos pais e avós. E de repente chegamos em um momento que temos que parar por eles, que nos preocupamos com eles e que começamos a ver tudo de outra forma.

O medo nos ajuda a olharmos para dentro de nós, a rever a nossa espiritualidade, a pensar no outro e descobrimos que somos frágeis diante dessa situação. As experiências não serão iguais e nem os aprendizados. Cada um de nós irá passar por isso de um jeito diferente. Temos a capacidade de escolher a forma como olhamos e como absorvermos os sinais que recebemos.

Podemos escolher se vamos ficar reclamando ou se vamos reagir e procurar aprender com tudo isso. Se vamos colocar a culpa em alguém ou se vamos exercitar a compressão. Se vamos ativar a intolerância ou se vamos praticar o respeito. Se vamos entrar em depressão ou fortalecer nossa crença.  Se vamos ficar tristes pelo dinheiro que deixamos de ganhar ou se vamos ajudar quem não tem dinheiro nem para comer. Podemos escolher se vamos semear o ódio ou plantar o amor.  

As rupturas mudam os paradigmas de nossa existência, redesenham a nossa realidade e mudam as regras do jogo. E temos que olhar e aprender com tudo isso.

Não há como passarmos por tudo isso e não mudarmos. A grande pergunta é: como passaremos por tudo isso? Vamos aproveitar esse momento para desintoxicar nossa alma e rever conceitos? Vamos sair de tudo isso como seres humanos melhores?

E o Coronavírus continua a nos ensinar...

24/03/2020 08:36

...que de repente, de uma hora para outra, tudo pode mudar. E passamos a viver em estado de guerra, com um inimigo invisível.

De repente o dinheiro não tem tanto valor, e não há como comprar álcool gel, vacina ou vaga na UTI. E quando menos esperávamos, tudo que era certo virou incerto. Nossa rotina mudou, as regras mudam e a cada dia ganhamos novas leis.

De repente não temos mais o direito de ir e vir. Não podemos mais circular de uma cidade para outra ou até mesmo sair de casa. E passamos a ter medo do que não conhecemos.

De repente temos que nos preocupar com o hoje, com a necessidade de ir ao supermercado ou a farmácia. E passamos a manter o distanciamento social, a nos isolar. Não podendo nem fazer o churrasquinho com a família.

De repente vemos gente egoísta comprando o que não precisa, mas também vemos muita gente solidária, ajudando quem precisa. E as manifestações físicas ocorrem pelas janelas, enquanto as fake news continuam a nos perseguir nas redes sociais.

De repente paramos de trabalhar e nos preocupamos com as contas que irão chegar e com o aluguel que vencerá. E passamos a ver novas regras de renegociação, de isenção e de anistia de juros e multas.

De repente vemos que não é fácil ser médico ou enfermeiro e que esses profissionais se tornam soldados dessa guerra invisível. E junto com eles estão profissionais que atuam no transporte de cargas, nos postos de combustíveis, nos mercados, farmácias e na segurança pública.

E de repente vemos muitas pessoas incrédulas, não acreditando que tudo isso é real, ampliando a margem de risco de outras pessoas e contaminado os mais frágeis e vulneráveis.

De repente vemos doentes entrando em hospitais sem seus familiares e acompanhantes e perdemos o direito de velar e enterrar o ente querido.

E no meio de tudo isso, vemos gente mostrando a sua intolerância política, buscando culpar o adversário ou uma nação inteira, como se uma ideologia ou partido político fosse o responsável.

De repente nos damos conta que o mundo paga milhões de salário para jogadores de futebol e não investe o suficiente na remuneração de cientistas.

E de repente todos tendem a ser contaminados, independentemente de sua ideologia política, classe, cor, religião ou poder econômico.

E a natureza nos coloca no nosso lugar, nos dizendo que devemos ter mais simbiose, que devemos ser solidários e respeitar o meio ambiente e o planeta Terra.

De repente temos um novo mundo se constituindo, que nos obriga a olhar a vida por outro ângulo. E nesse novo contexto, nada mais será como antes!

De repente poderemos nos reinventar como pessoas, como sociedade e como seres humanos. E teremos o livre arbítrio de escolher o novo caminho, de respirar fundo, secar as lágrimas e buscar a superação das perdas, de rever nossas ideais e valores. Podemos revisitar conceitos, diminuir o individualismo, o egoísmo e ter a clareza de que o direito de um termina quando começa o do outro.

De repente podemos resgatar os valores e princípios que perdermos, com a consciência de que todos temos que primar pelo bem comum, pelo interesse público. E que o jeitinho brasileiro é uma porta para sacanagem que inspira os políticos, e que cada um de nós precisa mudar, para que o país mude.

E de repente temos um novo mantra: tudo passa. Isso também irá passar e temos que manter a esperança e o otimismo.

 

O que o coronavírus nos ensina...

17/03/2020 09:24

Que somos frágeis.

Que somos todos iguais.

Que precisamos uns dos outros.

Que cada um de nós tem responsabilidade.

Que a decisão individual afeta a coletividade.

Que não faz sentido as universidades suspenderem as aulas e a galera ir para balada.

Que a ignorância aliada à intolerância pode ser prejudicial à humanidade.

Que o preconceito precisa ser superado.

Que precisamos retomar os sentimentos de solidariedade e de comunidade.

Que o distanciamento social irá ampliar a sensação de solidão.

Que quem é contaminado e contamina se sente impotente.

Que precisamos proteger os doentes e os mais velhos.

Que quem está em quarentena sente medo e precisa de gestos de carinho e apoio logístico (precisa receber comida, medicamentos...).

Que quem tem um amigo ou familiar com suspeita ou em quarenta está aflito e que cada um de nós pode ficar nessa situação.

Que a fé, a esperança e a caridade precisam ser praticadas e motivadas. Que teremos que ter disciplina, consideração e respeito para que não falte alimentos, produtos de higiene e remédios para ninguém.

Que precisamos aprimorar e ser rigorosos com os hábitos de higiene e seguir as orientações dos especialistas.

Que os profissionais da saúde precisam de estrutura, condições de trabalho e muita consideração.

Que não é saudável desconfiar das instituições do país e que a negação da política só faz mal à cidadania.

Que atacar os jornalistas diminui a capacidade de diálogo e de restabelecimento da verdade.

Que precisamos ter uma política pública que dê mais atenção ao sistema de saúde (público ou privado).

Que as autoridades precisam ter sensibilidade social e primar por decisões que ajudem a prevenir e combater o vírus.

Que a economia se move por especulação e que nos momentos de calamidade os oportunistas aparecem para extorquir de quem tanto precisa.

Que todos vamos perder financeiramente e isso exigirá uma capacidade de resiliência e superação futura.

Que é melhor parar e prevenir do que não ter condições de remediar.

Esse vírus nos traz muitas reflexões e aprendizados. É um momento ímpar para rever as “doenças sociais” que avançam de forma preocupante em nossa sociedade, como: o individualismo, a vaidade, o egoísmo, o oportunismo, a intolerância e o jeitinho brasileiro.

Esse vírus diminui as nossas certezas e aumenta as nossas preocupações. Não sabemos qual será o impacto financeiro que teremos em uma economia que vem sofrendo com as instabilidades políticas, econômicas e com as intempéries climáticas (de um lado seca extrema e de outro, enchentes que tiram vidas).

É um momento de inquietação, mas principalmente, de muita paciência, bom senso, respeito, tolerância e perseverança. Que essa experiência nos permita evoluir como pessoas, como sociedade e como seres humanos.

O lema da campanha da fraternidade de 2020 parece ter sido providencial: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. Uma chamada à reflexão individual, em um momento em que cada um de nós terá um papel importante de cuidador, dando apoio aos colegas, amigos, vizinhos e familiares que forem infectados.

Será um grande ensinamento para uma juventude que tem sido “servida” e precisa apender a “servir”, a ter empatia com os que têm mais vulnerabilidade física e precisam de apoio.

Gosto muito de uma frase que cabe muito nesse momento histórico: “não há nada tão bom que não tem algo de ruim e nada tão ruim que não tenha algo de bom”.

A mulher que educa é a mulher que pode alterar a cultura

10/03/2020 15:25

A comemoração do dia internacional da mulher traz consigo um reconhecimento das conquistas passadas, uma reafirmação do papel na mulher no presente e, principalmente, a necessidade de uma reflexão sobre o futuro.

A mulher tem tido muitas conquistas. Mas quando se pensa em política, não é fácil ser mulher em uma sociedade de cultura política machista, que tem na sua essência o personalismo político, em que as próprias mulheres reconhecem na figura masculina o tipo ideal de liderança.

A mulher tem um “baita papel” como educadora. Como mãe, naturalmente, é a primeira educadora, é a orientadora da casa, dá o passo do que é certo e do que é errado. Ensina as crianças a terem valores, princípios, a reconhecerem os regramentos sociais e a lidar com os diferentes sentimentos (do amor ao ódio).

Na área da educação formal, é maioria dentro das faculdades de pedagogia e está a frente das salas de aula do ensino infantil ao médio.

Quando analiso a capacidade da mulher de interagir na formação educacional e cultural de meninas e meninos, fico me perguntando: por que as pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião mostram que são as próprias mulheres que mantém a maior distância de temas importantes relacionados ao exercício de cidadania, como a política?

A narrativa das mulheres me mostra que fomos educadas a educar e quando replicamos o conhecimento, replicamos os vícios de nossa educação, de nossa cultura.

É mais ou menos assim, aprendemos que a política é um tema dos homens. E o funcionamento e os exemplos da política partidária não propiciam um envolvimento e/ou uma mudança cultural na relação com as mulheres. As mulheres continuam distantes, ampliam a negação com a política e não introjetam o tema na educação das crianças. Se não gostamos de política, como podemos ensinar nossos filhos? Ou ensinamos que a política não presta?

Pronto, continuamos com a tempestade cultural perfeita para o sistema personalista da política brasileira!  Os indicadores de desinteresse com a política se ampliam, aumenta a intolerância, a negação com a política e a reclamação de que as mulheres atuam como “laranjas”, se candidatando para cumprirem cotas partidárias.

Pensar na evolução da mulher em uma sociedade democrática inclui a necessidade de amadurecimento da relação da mulher com a política. O princípio é simples: as mulheres precisam se interessar, se envolver com política, para saberem mais sobre o tema, para ampliarem sua representatividade na gestão pública e nos parlamentos, para participarem da elaboração ou alteração das leis, para exercerem a cidadania e ensinarem cidadania aos seus filhos.

Se as mulheres se interessarem e tiverem o hábito de conversar sobre política, vão estar mais atentas a temas como o jeitinho brasileiro, vão ter mais clareza sobre o que é certo e o que é errado e poderão guiar melhor os seus filhos.

Se as mulheres tiverem mais informações sobre política, terão mais capacidade de conhecerem as leis que as protegem, os seus direitos em relação à assistência social, habitação e saúde.

Se as mulheres se envolverem mais na política, irão salvar a política. As mulheres têm o poder de educar, de transformar uma realidade cultural e o empoderamento político trará condições para que as mulheres coloquem a política no seu eixo: o papel da política é negociar, buscar o bem-comum, o bem público e só se faz isso com respeito e ética.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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