A tecnologia facilita ou dificulta os relacionamentos?

19/11/2019 16:58

A pergunta parece banal e a resposta simples, pois cada um responde de acordo com as suas experiências. Aqueles que estão iniciando um relacionamento amoroso pelas redes sociais vão pular e responder que facilita. Quem fala com um parente ou amigo distante não tem dúvida de que a tecnologia facilita.

Agora, no relacionamento cotidiano, a tecnologia traz consigo muitos ruídos, dificultando a comunicação entre as pessoas. E esses ruídos nascem da impaciência, da facilidade de antecipar os diálogos, de tentar resolver os problemas pelas redes sociais, contando para o outro uma indignação, mostrando tristeza ou descontentamento com uma situação.

Não podemos esquecer que os relacionamentos em sociedade se dão pela convivência no mesmo espaço, pelo entendimento e respeito do outro, pela compreensão e solidariedade, pela comunicação direta, em que se utiliza todos os sentidos (um fala e outro escuta, gestos, olho no olho, etc) e que os relacionamentos são baseados no compartilhamento de determinado contexto ou interesse em comum (família, romance, trabalho, sala de aula, amizades...).

E como “cada cabeça é uma sentença”, é normal haver divergências nos relacionamentos. O problema é que estamos debatendo esses atritos nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens (como WhatsApp) e tornando os relacionamentos mais difíceis, tensos e minimizando a capacidade de entendimento.

Quando fazemos o debate de uma discordância de forma virtual trazemos, naturalmente, conosco, o tradicional pré-julgamento e juízo de valor. Acrescentamos os novos dilemas sociais, que estão associadas à ampliação do individualismo, impaciência e à intolerância. Significa dizer que, como não estamos frente a frente com o outro, acreditamos que podemos dizer o que bem quisermos e na hora que quisermos (sem saber a situação que o outro está vivendo). Na prática, em um diálogo virtual, temos menos capacidade de empatia e esse fenômeno potencializa a leitura de que estamos certos.

Diante desse cenário o debate virtual fica mais forte e impiedosamente eternizado.  É um debate onde tudo fica registrado (em texto, áudio ou vídeos), permitindo que as partes possam voltar, reler, olhar e fazer novas releituras e interpretações. E essas novas releituras podem ampliar a animosidade, pois trazem consigo o julgamento e a condenação do outro, sem mais direito à defesa. Ou seja, no começo da conversa virtual havia o pré-julgamento estabelecido pela indignação ou ira que motivou o diálogo e, se as respostas não corresponderem às expectativas, a condenação pode ser sumária e resultar em uma conta bloqueada.

E nesse novo contexto a tecnologia vai interferindo na comunicação interpessoal e atrapalhando os relacionamentos, criando antipatias, ressentimentos ou rompimentos e potencializando disputas virtuais que não fazem sentido no mundo real.

Temos que desenvolver a consciência de que não podemos ser envolvidos em uma rotina de despachar tudo por Whats e que, em muitos casos, é mais indicado desenvolver a arte da paciência e esperar pelo encontro pessoal para tratar do ponto de discordância ou do ruído.

A tecnologia é uma grande ferramenta à disposição da sociedade, mas é vital que tenhamos consciência da sua influência no nosso comportamento e, por consequência, dos seus malefícios. Não podemos permitir que a tecnologia diminua a capacidade de diálogo e de entendimento entre as pessoas.

Vale a pena participar da política?

12/11/2019 07:55

Grande parte da população gaúcha não quer saber de partido político e, muito menos, participar de reuniões ou debates políticos. Os estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que a falta de interesse é motivada pela decepção, que pode ser ativada por diferentes gatilhos:

a) pela cultura política vigente = que é resultado do distanciamento histórico da sociedade em relação à política. E o distanciamento mantém a população desinformada e suscetível a avaliar a política pela rede de boatos ou por suas observações;

b) pelas práticas permissivas dos agentes políticos = essas práticas são observadas em negociatas, manutenção de privilégios ou vantagens pessoais para quem faz parte do mesmo grupo político;

c) pela malversação de recursos públicos = que mostra que muitos gestores públicos não tem planejamento de suas ações ou que são displicentes com os recursos. Na prática, não cuidam do dinheiro público ou orientam ou cobram a suas equipes como deveriam;

d) pela demagogia dos eleitos = ninguém gosta de ser engado. Quando um candidato promete e não cumpre ele denigre a sua imagem e quando vários candidatos prometem e não cumprem, denigrem a imagem da política;

e) pela corrupção de alguém que deveria dar o exemplo = o maior de todos os males e que, de certa forma, é a cereja do bolo. O eleitor olha para todo o cenário e pensa que a política é a arte da enganação, uma forma oficial de roubar a população.

Chegamos nesse cenário e não se pode culpar a sociedade por acreditar que a política é algo ruim e que políticos não prestam.

Temos a missão de salvar a política. Para salvar a política temos que ajudar a resgatar e recontextualizar a política. E para fazer isso temos que rever o nosso comportamento e o nosso envolvimento com a política para que os políticos revejam o seu comportamento e as suas práticas.

Desde o processo de democratização do país, não houve o efetivo estímulo à participação política da sociedade. Na prática, é muito mais fácil para os mandatários não terem que prestar contas a uma sociedade organizada, crítica e que tenha informações sobre os bastidores da política.

Essa realidade precisa ser alterada para que a política seja vista de forma positiva e que cumpra o seu papel enquanto fomentadora do diálogo, como ferramenta de negociação de ideais, de propostas e que guie projetos. A política é o baluarte da democracia e deve ser utilizada pelos líderes na busca pelo bem-comum (interesse público).

Vale a pena participar da política, mas para haver participação é necessário ampliar o interesse pela política e ter instituições representativas, locais para participação, espaços de diálogo e de debate.

A participação política pode começar pelo envolvimento com a realidade em que vivemos: com a associação do nosso bairro, a associação de pais e mestres da escola de nossos filhos, o sindicato que cuida de nossa profissão, a associação de classe ou ONG (que defende um tema que é importante para nós).

Também podemos pensar no ativismo digital, utilizando as redes sociais e os sites de informações, para acompanhar a política e interagir com quem destinamos o nosso voto. Se cada um de nós se interessar e se envolver mais com a política vamos descobrir que vale a pena. Com isso estaremos salvando a política e o resultado dessa ação irá repercutir e influenciar no comportamento e nas práticas dos partidos e dos políticos.

O perfil do próximo prefeito

05/11/2019 09:52

Em 2020 tem eleição, e você já parou para pensar nas características que deseja para o próximo prefeito(a) de sua cidade? Por onde passa, o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião tem aplicado essa pergunta, em suas pesquisas quantitativas e qualitativas.

Nesse momento há três características que se destacam e se mostram como basilares para alguém que quer ser prefeito de uma cidade, que são:  capacidade de gestão; a honestidade e a atitude.

Quando o eleitor conhece um candidato (mesmo que seja pela TV ou redes sociais) a primeira coisa que ele quer saber é se o mesmo tem capacidade de ocupar o cargo a que se propõe, se terá condições de administrar a cidade, e essa avaliação ocorre pela reputação ou pela imagem que o candidato transmite.

Para os eleitores, a capacidade de gestão pode ser observada de várias perspectivas: está associada à trajetória política do candidato, ao conhecimento que o mesmo tem da cidade, pela formação e preparação do candidato e até mesmo pela experiência com a gestão de uma empresa ou entidade.

A honestidade é um grande atributo e é valorizado por diferentes visões de mundo. Está associada à necessidade de probidade com a gestão dos recursos públicos, pela perspectiva de que o prefeito terá que ter transparência com as decisões que toma e pelos recursos que gere. Mas a honestidade também ganha força como atributo decisório pela repulsa e ojeriza à corrupção do país. A honestidade se torna a característica mais importante nas cidades onde há denúncias de corrupção ou onde houve prefeitos cassados. E a honestidade também é vista como a capacidade do candidato de cumprir o prometido, de honrar com as promessas que fará durante a campanha.

Significa dizer que o eleitor olha para a experiência profissional e pessoal de um candidato e imagina que ela foi movida por um comportamento ético. Que ele pagou em dia a quem devia, não usurpou órgãos públicos, não desviou recurso, não explorou pessoas, não enganou, traiu ou mentiu.

A atitude está associada à capacidade de mando, ao pulso firme. Para os eleitores, um candidato a prefeito precisa saber o que deve ser feito e saber quem pode fazer. Ter atitude é fazer as coisas acontecerem, é cobrar de quem precisa ser cobrado e é resolver o que precisa ser resolvido. A atitude também está associada ao enfrentamento dos problemas, a sair da zona de conforto e estar à frente dos debates, e inclusive a explicar quando algo dá errado.

O tipo ideal de prefeito “ganha vida”, aos olhos do eleitor, quando um candidato que tem alguma experiência administrativa e reputação de boa pessoa mostra firmeza no seu propósito. Quando as características de uma pessoa estão a serviço de ideias. Significa dizer que os eleitores esperam um prefeito que tenha capacidade de gestão, seriedade e atitude para tocar um programa de governo, que tenha conteúdo, “que saiba o que precisa ser feito e como fazer dentro dos recursos que tem ou pode buscar”.

Na percepção dos eleitores, as características seriam o meio para que o fim fosse alcançado. Não adianta um candidato ter as características desejadas e não ter conteúdo, não conhecer os problemas e não ter um bom programa de governo.

O candidato ideal conhece os problemas da cidade, sabe das dificuldades que a população passa e trabalha com afinco para construir a melhor proposta de solução, levando em consideração a realidade e as potencialidades do seu município.

Usamos a internet e a internet nos usa

29/10/2019 09:24

Oito de cada dez gaúchos utilizam um smartfone com internet e redes socais. A maioria está conectada e anda com o seu celular nos mais variados lugares.

A relação entre seres humanos e máquinas se torna cada vez mais simbiótica, o celular parece quase uma extensão do nosso corpo e está sempre na palma ou ao alcance da mão. É muito difícil esquecermos o celular, pois ele nos acompanha em todos lugares, está perto de nós durante a noite e é a primeira coisa que damos atenção pela manhã. Isso quando não vai para o banheiro conosco!

Em média, usamos o celular três hora por dia, o que cria a sensação de que temos cada vez menos tempo e essa praticidade nos instiga a perguntar de tudo para o Google. Consultamos, pesquisamos as coisas mais variadas: informações, receitas, músicas, endereços, produtos, marcas e até a vida de outras pessoas.

Tudo fica mais fácil com a internet, ela nos ajuda a encontrar uma localização, a nos aproximar de uma pessoa a encontrar um livro antigo ou até mesmo comprar um produto do outro lado do mundo.

Cada um de nós sabe o quanto usa a internet e qual a importância da mesma em seu cotidiano. O que não sabemos é o quanto somos usados pela internet? A internet nos monitora o tempo todo e usa as nossas informações de muitas formas, fazendo vigilância do comportamento da sociedade, onde cada indivíduo pode ter o seu comportamento analisado.

Se pesquisarmos o preço de um produto na internet passamos a receber várias propagandas do mesmo produto ou da concorrência. E quando saímos de uma loja ou restaurante podemos receber uma pesquisa de avaliação da experiência.

Nossos passos são monitorados e a internet pode saber onde passamos e qual a rota que utilizamos, triangulando nossos trajetos cotidianos, quando permitimos no smartfone o acesso à nossa localização. O sistema consegue saber mais de nós do que nós mesmos, pois organiza informações sobre nosso trajeto, nossos hábitos, comentários e até sobre nossos medos e desejos.

A internet sabe tudo o que perguntamos para o Google, o nosso histórico de buscas. Sabe os arquivos que transferimos, onde tiramos as fotos, os vídeos que baixamos e tudo o que postamos nas redes sociais, incluindo o que apagamos. Na prática estamos deixando pegadas digitais que podem ser monitoradas, analisadas e utilizadas.

Atualmente nossas pegadas digitais já estão sendo usadas pelo marketing digital e, principalmente, pelo marketing de geolocalização, alavancada pela tecnologia de GPS (Sistema de Posicionamento Global).

Como o sistema sabe onde estamos e do que gostamos irá nos enviar propagandas, matérias publicitárias ou nos envolver em novas experiências virtuais que nos propiciam uma sensação de bem-estar (como fazer uma simulação sobre o melhor ângulo para assistir a um show ou partida de futebol ou ter acesso à informações do estoque de uma loja física perto da nossa casa, sem precisar falar com o vendedor).

Os sites de busca usam as nossas informações para personalizar o nosso comportamento e possibilitam que as marcas nos localizem e nos impactem com suas estratégias de mercado. E as redes sociais fazem a mesma coisa, nos monitoram e nos transformam em um consumidor que acredita que está empoderado, que é dono de sua timeline, mas que na prática é um consumidor passivo que é monitorado e influenciado de uma nova forma. A internet é uma grande ferramenta e temos o grande desafio de entendê-la e monitorar sua evolução.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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