Cinco fenômenos negativos das redes sociais

12/06/2019 10:02

A internet tornou-se parte integrante de nossas vidas, nos auxilia na comunicação instantânea, no processo de informação, de comercialização, no relacionamento com outras pessoas e até no entretenimento diário. Estamos vivenciando as transformações propiciadas pela tecnologia, usufruindo de seus benefícios, sem ter a clara noção dos malefícios que podem causar à sociedade a longo prazo.

Cotidianamente somos orientados a ter cuidados com crimes cibernéticos, com a Deep web, a Dark Web ou com as notícias falsas propaladas pelas Fake News. Assistimos aterrorizados às notícias de suicídios incitados por redes sociais e de crimes de pedofilia digital, que exploram imagens de crianças e adolescentes.

Conforme vamos conhecendo e sofrendo com os crimes cometidos no mundo digital, os poderes judiciário e legislativo desenvolvem leis para coibir esses abusos. E assim vamos indo, em uma relação de constante aprendizado com a internet.

Contudo, é muito importante termos a consciência e observarmos os fenômenos comportamentais que podem ser causados pela internet. Como somos “objetos” dessa transformação e estamos criando nossos filhos como “cobaias” desse mundo tecnológico, é vital analisarmos os seguintes fenômenos causados pela relação contínua com as redes sociais:

1º) Individualismo = as redes sociais possibilitam que cada pessoa seja o ator principal de sua história, um mundo paralelo se cria, onde é necessário alimentar a timeline e relatar os momentos cotidianos (colocar a foto da refeição, do passeio ou até mesmo de uma briga). As redes sociais estimulam o indivíduo a dizer “o que está pensando ou sentindo”. Amplia-se a preocupação individual e diminui-se a preocupação com o social.

2º) Impaciência = se cada um é um e cada um tem pressa, acredita que o mundo está a seu serviço. O individualismo potencializa a falta de paciência, pois diminui a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro). Tudo precisa ser muito rápido: se espera que a resposta a uma mensagem seja instantânea, que a foto seja curtida e comentada, que se dê atenção rápida a quem pede atenção (em alguns casos, são muitos pedidos de atenção).

3º) Ansiedade = Se cada indivíduo se sente único em sua relação com o smartphone e suas redes sociais, a expectativa também é potencializada. A impaciência é seguida de ansiedade. Os tempos do mundo virtual são diferentes dos tempos do mundo real, qualquer espera parece infinita e muitas pessoas sofrem quando não são respondidas no tempo que desejam. É cada vez mais comum crianças e adolescentes desejarem ser youtubers ou influenciadores digitais, abrindo canais e esperando audiência. E os sentimentos que oscilam entre a expectativa e a frustração são motivadores da ansiedade.

4º) Distração digital = se caracteriza pela dificuldade de concentração, ocasionada pela multitarefa, que cria uma atenção parcial contínua, de uma mente que pula de uma coisa para outra. É difícil a atenção simultânea ao estudo e ao WhatsApp ou trabalho e as postagens do Facebook. Esse é um tema em debate e estudo na psicologia.

5º) Nomofobia = é quando a internet começa a causar dependência e se tornar um vício. A nomofobia é o medo de não ter acesso ao celular, e se caracteriza pela angústia de não acessar a internet e as redes sociais, tornando a pessoa impaciente ou desesperada por ficar sem comunicação. Para estas pessoas o mundo virtual se torna mais importante do que o mundo real.

O lugar da política é em todo o lugar

04/06/2019 07:05

Parte do meu cotidiano como cientista política está relacionado com o estudo do funcionamento da política e, em especial, sobre o comportamento político eleitoral da população.

Não é de hoje que a maior parte da população não gosta de política, não se interessa e não tem o hábito de conversar sobre política. A grande maioria não se envolve com partido político e não participa de nenhum tipo de entidade representativa (como associações, sindicatos, conselhos...).

As redes sociais potencializaram a participação e o engajamento político virtual de parte da sociedade e o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião tem monitorado o interesse por temas políticos. Atualmente, ¼ dos gaúchos costumam acompanhar postagens sobre política e ¼ procuram o tema quando há um debate que interessa, em especial, quando há polêmicas. A outra metade dos gaúchos afirma que não utiliza as redes sociais para se informar sobre política ou nunca se informou sobre o tema.

Na prática, a população tem sido, sistematicamente, ensinada a não gostar de política através das sucessivas experiências negativas com a política partidária. Como a sociologia e a ciência política não estão presentes no currículo das escolas desde as séries iniciais, o conhecimento sobre política ocorre através da experimentação: a população vive a experiência com a política partidária do país e, através dessa, tira suas conclusões.

E o que a política partidária tem ensinado à população.

- Que promessas feitas não precisam ser necessariamente cumpridas;

- Que uma coligação pode fazer inimigos políticos se tornarem amigos;

- Que o toma lá, dá cá faz parte das negociações políticas;

- Que a corrupção envolve políticos de todos os partidos;

- Que as leis são feitas pelos políticos para beneficiar os políticos;

- Que a política faz a vida piorar.

Para tentar se defender, a população que não confia nos partidos, tenta acreditar na pessoa de um político, onde deposita as esperanças até que haja uma nova decepção.

A cultura política instituída no país nos ensina que o “bom” é se manter longe da política, como se política fosse algo ruim. O que aprendemos com exemplos ruins contraria o princípio da democracia representativa que pressupõe participação da população, onde todo poder emana do povo.

A política é o que nos une em sociedade, o que pode inspirar o sentimento de comunidade, de solidariedade. A política é a arte do diálogo, da negociação, do estabelecimento de regras, da pactuação. A política fez nascer o contrato social entre as pessoas, a política é a base do direito e das leis que nos regem.

A política está presente nas relações entre os casais, quando estes decidem se terão uma relação mais conservadora ou aberta.

A política está em nossas casas, quando decidimos como iremos criar os nossos filhos, se será uma relação menos ou mais democrática.

A política está dentro das escolas, na lição do professor que determina se seus alunos irão ou não participar da aula.

A política está presente nas relações de trabalho, quando os gestores da empresa decidem as regras internas de convívio ou se irão dar benefícios além do que a lei exige.

A política está presente em nossas relações, nos micro espaços de poder do nosso dia a dia, em todo o lugar que temos a capacidade de decidir ou fazer algo pelo outro. A política está presente nas nossas escolhas e na maneira como vemos o mundo. A política este presente no mundo que idealizamos.

Volmiro deu a vida à BR 116 SUL

28/05/2019 16:35

Volmiro Silva da Rosa, 48 anos, era casado e pai de duas filhas. Semanalmente, seu trabalho era receber os passageiros com um cumprimento na porta do ônibus do Expresso Embaixador, para logo depois lhes indicar a poltrona. Antes do ônibus partir, com a timidez que lhe era peculiar, Volmiro dizia o destino da viagem, que o uso do cinto de segurança era obrigatório, que havia água no frigobar e desejava uma boa viagem a todos.

Todos os dias, durante 17 anos, Volmiro colocava sua vida à prova na BR 116 SUL e guiava a vida de quase uma centena de pessoas que se destinavam de Pelotas a Porto Alegre ou vice e versa.

A viagem com Volmiro era sempre serena. Era um motorista prudente, mostrava que dominava a arte de dirigir e quando estava no comando do ônibus, os passageiros podiam dormir, trabalhar, conversar ou até mesmo contemplar a paisagem com muita tranquilidade. Os mais apressados podiam até se estressar com ele, mas ele tinha sempre o mesmo ritmo e a resposta de que era importante chegar com segurança.

 Muitos e muitos artigos escrevi dentro do ônibus do Expresso Embaixador, sabendo que Volmiro estava nos conduzindo pela BR 116 Sul, uma estrada sem duplicação e por onde passa toda a frota de veículos que se destina à região Sul do Estado.

Minhas conversas com ele sempre se limitaram ao obrigado, quando me cumprimentava ou quando desejava uma boa viagem a todos. Hoje penso que deveria ter dito que era um ótimo motorista e que eu confiava minha vida a ele em cada viagem.

Nesse último dia 23/05/19, Volmiro perdeu a vida em um acidente envolvendo um carro e um caminhão no KM 433 da BR 116 e os depoimentos dão conta de que Volmiro foi um herói, sua habilidade na condução do ônibus guardou a vida de muitos passageiros.

Volmiro é um exemplo que representa simbolicamente tantas e tantas outras vidas que se foram em uma rodovia em que as obras de duplicação ficaram por longo tempo paradas e estão sendo retomadas a passos lentos. No mesmo acidente, Eduarda Bechel, de 26 anos, também perdeu a vida e deixou uma filha de 4 anos. Mas há uma centena de outros nomes, que deixaram histórias, que deixaram amores e que deixaram muita saudade.

Podemos refletir sobre a imprudência dos motoristas ou sobre a falta de fiscalização, mas antes temos que debater sobre os riscos de uma BR sem duplicação. Uma estrada com pista única por onde passam milhares de veículos.

E para fazer este debate teremos que pensar nos problemas históricos que assolam a política brasileira, como a perda de muitos recursos para a corrupção ou pela malversação das obras.

Mas mais do que isso, teremos que debater a falta de visão dos governantes deste país e a incapacidade de estabelecer uma política de estado, com um planejamento sistêmico: se cresce a população, se cresce a frota de veículos, se cresce a produção é necessária a ampliação da malha rodoviária, é vital a duplicação das rodovias.

Não é à toa que o movimento tem sido ao contrário, a sociedade civil organizada é quem tem pressionado os governantes e representantes do povo a perceberem o óbvio: que é necessário investir nas estradas, que é por onde passam milhares de vidas e a riqueza deste país.

Um case de referência da sociedade organizada e que merece todo o respeito e apoio é o movimento “BR 116 Sul: Duplicação Urgente”, que foi criado para dar visibilidade ao tema e que sofre cada vez que um Volmiro dá sua vida à falta de duplicação.

Menos corrupção, menos intolerância!

21/05/2019 09:59

Há tempos estamos sofrendo com a corrupção e é um sofrimento que parece não ter fim. É um desalento que vai abrindo feridas profundas em todos e está nos levando ao pior de todos os males: a intolerância.

Durante o processo eleitoral de 2018, a população tinha como consenso a necessidade de um presidente que tivesse como princípio o combate à corrupção. Deveria ser uma pessoa com pulso firme, com capacidade de romper com a velha política do toma lá, dá cá. Desejavam um político que administrasse o Brasil como se administra uma empresa, fazendo com que os serviços públicos e obras andassem e os funcionários públicos trabalhassem em prol das pessoas.

Era um desejo simples, justo e necessário! O problema é que os agentes que operam o sistema político brasileiro “não se dão conta” dos malefícios causados pela corrupção. Mas a sociedade sabe pontuar os diferentes males que a corrupção traz:

Há aqueles que dizem que a corrupção leva o dinheiro de serviços como a saúde e tira a chance de muitas pessoas viverem.

Tem aqueles que percebem a corrupção como uma doença contagiosa, que contamina as pessoas honestas. Acreditam que, quando se “chega lá” e vê os colegas desonestos se dando bem, é fácil entrar na mesma lógica.

As pessoas com mais experiência contam que a corrupção mantém a ineficiência do serviço público e potencializa a burocracia. Cria a figura do intermediário, daquele que é o “despachante”, que faz a indústria do suborno começar a funcionar para que o cidadão tenha acesso àquilo que é seu de direito.

E uma parcela fala da corrupção com profundo desprezo, lembrando da impunidade. Das práticas corruptas que acabam fazendo parte do nosso dia a dia, nos entristecendo, nos obrigando a dizer para os nossos filhos: “infelizmente é assim que funciona”.

Diante dessas lógicas perversas, os efeitos da corrupção ampliam cotidianamente a decepção que é potencializada e externada pelas redes sociais. A impaciência da população é um sintoma, que mostra que não se aguenta mais ver as mesmas práticas, os mesmos conchavos e as negociatas de sempre.

E essa intolerância que nasce das sucessivas frustrações da população, alimenta a descrença com os partidos, com os políticos e com as instituições. E a desmoralização das instituições afeta a crença na democracia.

E aí está o pano de fundo para os debates que estão sendo visto nas redes sociais. A grande maioria tem um desejo comum: querem um país melhor, sem corrupção e não acreditam que o país esteja caminhando para esse propósito.

Além disso, a forma como as soluções são apresentadas geram muitos temores: como se abrir mão da aposentadoria fosse um caminho bom para o país não quebrar e investir em educação fosse um caminho ruim, pois há necessidade de contingenciamento.

Temos a tempestade perfeita para o bate-boca, para a desqualificação do outro, para que a intolerância se mostre na sua forma mais plena.

Montesquieu diz que dois seres uma lei, dois seres um diálogo. E a intolerância se torna a rainha quando dois seres não dialogam, se atacam. Quando dois seres não trocam ideias, se desqualificam. A intolerância procura um culpado, ataca o mensageiro e não permite que se chegue a uma leitura e muito menos aos pontos fortes e fracos da mensagem.

Temos que resgatar a tolerância. É salutar concordar, discordar ou mostrar pontos frágeis da mensagem, mas sempre com respeito ao mensageiro.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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