Há algo de curioso em ver Edgar Wright, um dos diretores mais inventivos de sua geração, à frente de uma nova adaptação de O Sobrevivente (The Running Man), romance de Stephen King publicado sob o pseudônimo Richard Bachman. Depois da versão de 1987, estrelada por Arnold Schwarzenegger, que transformava o texto original em um espetáculo de ação puro e simples, esta nova leitura tenta equilibrar a adrenalina com uma crítica social mais fiel ao espírito do livro. O resultado, porém, é um filme dividido: empolgante como entretenimento, mas hesitante como comentário político.
O protagonista, Ben Richards (Glen Powell), é um homem em desespero. Com a filha doente e sem dinheiro para pagar o tratamento, ele se vê forçado a participar de um reality show mortal em um futuro distópico, onde os pobres são caçados por esporte, e cada dia vivo rende uma fortuna. Richards não é um herói clássico: tem um temperamento explosivo, uma raiva contida contra um sistema que o oprime, e um senso de dignidade que se recusa a ser comprado. Seu antagonista é o produtor do programa, interpretado por Josh Brolin, um homem encantado pela crueldade do espetáculo e pela promessa de poder que ele representa.
A nova versão, mais fiel ao livro, devolve ao personagem algo que o filme de 1987 havia perdido, a humanidade frágil e irônica de um homem comum lançado em uma arena de horrores televisivos. Powell é um acerto, interpretando um personagem carismático, mas não imortal. Seu corpo é vulnerável e sua fúria é palpável. Embora roteiro até exagere em seus esforços para torná-lo simpático, empilhando diversas boas ações em sua conta nos primeiros minutos, a performance do ator mantém o personagem crível. Ele é o rosto da impotência em um país tomado pela desigualdade e pela manipulação midiática.
E o futuro imaginado por Wright não parece tão distante assim. Nas ruas tomadas por paramilitares mascarados, nos cidadãos denunciando uns aos outros com seus celulares, e nas falsificações digitais que reescrevem a verdade diante dos olhos do público, o filme acerta um ponto sensível: a distopia já começou. Diversos momentos da produção são incômodos pelo tanto que se confundem com a nossa realidade, onde a violência virou espetáculo e a mentira, entretenimento.
Como cineasta, Wright demonstra mais uma vez domínio absoluto da ação. As perseguições são claras, dinâmicas e propulsivas, montadas com a precisão rítmica que já é sua marca. A trilha sonora, composta pelo colaborador de longa data do diretor, Steven Price, mescla batidas potentes com temas orquestrais, impulsionando o filme como um motor em constante aceleração. É impossível negar o prazer visceral de acompanhar a coreografia dos combates e das fugas, conduzidos com uma energia que raramente se vê em blockbusters contemporâneos.
Mas o equilíbrio entre forma e conteúdo vacila. O Sobrevivente tenta constantemente falar de controle social, desigualdade e alienação midiática, mas o faz de modo superficial, como se sua própria grandiosidade de produção sabotasse o peso da crítica. O filme parece ciente de suas ideias, mas não interessado em explorá-las a fundo. Em comparação, RoboCop (1987), lançado no mesmo ano da adaptação anterior, continua sendo uma aula sobre ironia e subversão. Temas que aqui são tratados de forma literal, sem o humor perspicaz que costuma caracterizar Wright.
Há lampejos do diretor brilhante de Em Ritmo de Fuga, Scott Pilgrim e Chumbo Grosso, especialmente nas transições estilizadas e no uso expressivo da música. No entanto, a fluidez dos diálogos e o timing cômico que tornaram seu cinema tão distinto parecem diluídos. O filme é longo demais, e embora quase tudo funcione visualmente, a narrativa perde força nos momentos em que tenta parecer mais profunda do que realmente é.
Ainda assim, há méritos inegáveis. Wright entrega um espetáculo de ação vigoroso, com personalidade o suficiente para se destacar em meio à saturação de remakes e franquias. Glen Powell confirma seu status como um astro em ascensão, carregando o filme com energia e carisma. E Colman Domingo, como o extravagante, ameaçador e fascinante apresentador do programa, rouba cada cena em que aparece; uma mistura de showman e carrasco.
No fim, O Sobrevivente é um filme dividido, preso entre a vontade de divertir e a ambição de dizer algo importante. Como entretenimento, é ágil, estiloso e visualmente impecável. Como comentário social, é um esboço instigante, mas raso. Ainda assim, é difícil não se empolgar com o que Wright faz quando se entrega ao puro prazer do cinema.
Com O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho entrega sua obra mais ambiciosa - um filme de espionagem à brasileira que transforma o gênero em reflexão sobre memória, identidade e esquecimento coletivo. Longe dos espiões elegantes e das conspirações globais do cinema americano, aqui o segredo é outro: o da própria nação, que tenta apagar seus crimes e silenciar os que ousam lembrar.
O protagonista, Marcelo (Wagner Moura), retorna ao Recife sob uma identidade falsa. Um homem perseguido, não por governos estrangeiros, mas pela própria pátria, por policiais corruptos e empresários influentes que usam a máquina ditatorial e suas conexões políticas e monetárias para caçar e destruir seus desafetos.
Ao tentar reencontrar o filho após a morte da companheira, ele se vê arrastado para uma rede de poder e vingança que revela um Brasil sufocado pela repressão de seu tempo. Esses homens não eram ainda “fantasmas”, eram forças muito reais, violentas e impunes. São fantasmas apenas para nós, hoje, que tentamos compreender o que o país preferiu esquecer.
Kleber constrói um filme que dialoga com o cinema de espionagem clássico, com ecos de Hitchcock e de John le Carré, mas o faz a partir de uma inversão profunda do gênero. Em vez de alguém buscando proteger um Estado, acompanhamos um homem fugindo das engrenagens de sua própria nação, corroída, corrupta, autoritária.
O “agente secreto” do título não é o herói que esconde segredos, mas o sujeito que tenta revelá-los: alguém que luta contra o apagamento da história e da memória nacional. É um “espião” às avessas, cercado de inimigos que se confundem com as próprias instituições.
Assistir à O Agente Secreto é, também, um exercício de reconhecimento cultural. Desde os carnavais cobertos de confete até lendas urbanas como a “Perna Cabeluda”, o filme evoca símbolos, sons e imagens que pertencem à alma do Brasil.
A reconstituição dos anos 1970 é assombrosa em escala e precisão: cabines telefônicas, anúncios de rádio, automóveis, texturas de tecidos e arquitetura modernista em decadência. É um filme que reconstrói o passado com a veracidade de um documento e o lirismo de uma lembrança.
A escala da produção impressiona. O design de produção é irretocável, e há cenas que beiram o épico, como a tomada da janela de um cinema que revela a paisagem de Recife em sua plenitude, um momento de respiração e encantamento que também simboliza o olhar do diretor sobre sua cidade. Kleber demonstra um amor quase religioso pela sala escura e pelo poder do cinema de preservar aquilo que o tempo e o descaso tentam apagar.
Wagner Moura entrega uma das atuações mais complexas de sua carreira. Ele faz de Marcelo um homem exausto, mas ainda guiado por uma chama de curiosidade e empatia. Alguém que, apesar da perseguição, continua fascinado pelas pessoas e pelas suas histórias.
Moura é um incontestável astro de cinema e domina o filme com sutileza, traduzindo o espírito de um país em que a resistência é silenciosa, e o heroísmo, cotidiano. Seu olhar contém tanto amor quanto indignação, e sua presença é o eixo moral de um mundo que perdeu a noção de justiça.
Mas O Agente Secreto é também um filme de rostos anônimos, de coadjuvantes que, em sua aparente marginalidade, compõem o retrato mais profundo e humano do Brasil daquela época. Dona Sebastiana, Hans, Clóvis e tantos outros vivem entre a fuga e o refúgio, lutando para não serem apagados por aqueles que controlam a narrativa oficial.
Suas histórias cruzam a do protagonista, não como peças de uma trama linear, mas como ecos de uma mesma resistência. Há momentos em que a narrativa desacelera e parece se dispersar, mas é aí que Kleber atinge o coração do filme: ao nos colocar dentro da vida dessas pessoas, em sua banalidade, medo e esperança. É um retrato coletivo de um país à deriva, em que o absurdo e a violência se tornaram rotina e onde, de alguma forma, seguimos sobrevivendo.
Kleber Mendonça Filho faz de cada personagem, mesmo o mais efêmero, um lembrete da dignidade e da complexidade humana diante do horror. Suas figuras secundárias não servem apenas à trama, mas à reconstrução do espírito de uma época: o de um Brasil que já não se reconhecia, mas ainda pulsava nas brechas de solidariedade e ironia.
Politicamente, o filme é contundente sem ser panfletário. O retrato das autoridades corruptas e da violência institucionalizada expõe o teatro do poder, uma performance grotesca que atravessa décadas e ainda define a estrutura social do país. É um espelho desconfortável, onde o passado e o presente se confundem.
Mais do que um suposto filme de espionagem, O Agente Secreto é uma elegia sobre o esquecimento. Fala de um país que transforma seus traumas em ruínas e depois constrói monumentos sobre elas, fingindo que nada aconteceu.
Sem precisar recorrer à tragédia explícita, Kleber deixa claro que as histórias interrompidas pela ditadura continuam ecoando. O filme encerra-se não com respostas, mas com a sensação de que as feridas seguem abertas, e que lembrar ainda é um ato de resistência.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

