Mesmo quando você decide delegar seus investimentos a um gestor profissional, existe uma responsabilidade que não pode ser terceirizada. O dinheiro é seu. É o seu patrimônio. Na maioria das vezes, é o dinheiro de uma vida inteira de trabalho, de renúncias e escolhas difíceis. Por isso, independentemente de quem esteja operando, você precisa entender o que está sendo feito, quais riscos estão sendo assumidos e por que determinadas decisões são tomadas.
Essa conversa se torna ainda mais necessária quando olhamos para o cenário recente do mercado brasileiro. O Ibovespa fechou a último ano em torno dos 160 mil pontos, um recorde histórico. Algo que, honestamente, eu não acreditava que fosse acontecer tão cedo. No início do ano, eu não acreditava nem que o índice ultrapassaria os 130 mil pontos, quanto mais romper a marca dos 150 mil. Mas o mercado, como sempre, não se importa com nossas convicções pessoais.
O que impulsionou esse movimento não foi um milagre econômico interno. Foi o fluxo externo. A expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos, combinada com erros de política econômica lá fora e uma agenda fiscal confusa, acabou enfraquecendo o dólar. Dinheiro saiu dos Estados Unidos e começou a procurar retorno em outros mercados. E quando isso acontece, os emergentes entram imediatamente no radar.
O Brasil, gostem ou não, continua sendo um dos mercados preferidos para investimento de curto prazo. Não porque somos organizados, previsíveis ou eficientes, mas justamente porque somos instáveis. O Brasil não é um país pobre. Isso é uma leitura rasa. O Brasil é um país extremamente desigual, um dos mais desiguais do planeta. E desigualdade, do ponto de vista do capital, cria distorções. Distorções criam oportunidades.
Investidores estrangeiros sabem disso. Eles sabem que, quando o governo erra, o preço do erro vem em forma de juros altos. E hoje o Brasil ostenta uma das maiores taxas de juros reais do mundo (a segunda maior no momento em que este artigo foi escrito), disputando o topo com países como a Turquia. Esse cenário atrai o capital rentista. O dinheiro vem, entra em renda fixa, aproveita o diferencial de juros e vai embora quando o vento muda.
Isso ajuda o mercado financeiro no curto prazo, mas destrói o desenvolvimento no longo prazo. Um país não se desenvolve pagando juros reais de 9, 10 ou 11 por cento ao ano. Não existe mágica. Desenvolvimento exige investimento produtivo, e investimento produtivo exige crédito viável.
Hoje, qualquer empresa que precise se alavancar enfrenta um custo financeiro absurdo. Com uma taxa básica na casa dos 15%, o crédito na ponta facilmente ultrapassa 20% ao ano. Em muitos casos, a conta simplesmente não fecha. O retorno do negócio não cobre nem os juros da dívida, quanto mais o risco operacional. Isso desestimula o empreendedor, trava o crescimento e empurra o capital para a renda fixa.
Do outro lado, quem já tem dinheiro faz exatamente o movimento racional. Empresta para o governo e vive de renda. Não empreende, não gera emprego, não assume risco. E por que assumiria? Para quê? Para correr risco operacional, lidar com funcionário, com imposto, com insegurança jurídica, se é possível ganhar mais ficando em casa, investindo em títulos públicos?
Aqui está uma das maiores distorções do Brasil. No mundo, o risco é recompensado. Quanto maior o risco assumido de forma consciente e controlada, maior tende a ser o retorno. Isso é uma lógica natural, quase biológica. Empreender é mais arriscado do que ser empregado, mas tende a gerar mais retorno. Investir em ações é mais arriscado do que renda fixa, mas tende a gerar mais retorno. Em praticamente todos os países desenvolvidos, isso é verdade.
No Brasil, não
O Brasil é uma anomalia ambulante. Aqui, o ativo de menor risco entrega, muitas vezes, o maior retorno real. A renda fixa, que deveria ser a base conservadora da carteira, se torna o protagonista. O mercado de capitais perde relevância. O empreendedor perde incentivo. A inovação perde espaço.
E não para por aí. O risco de empreender no Brasil é maior do que em muitos países, mas o retorno médio é menor. O risco de investir em ações é maior do que simplesmente aplicar em títulos públicos, mas o retorno ajustado ao risco frequentemente não compensa. Enquanto isso, carreiras estáveis, como o funcionalismo público, oferecem uma relação risco retorno completamente fora da curva, com salários altos, estabilidade e benefícios.
Essa distorção não existe dessa forma em outros países. Ela é estrutural no Brasil. E enquanto essa estrutura não mudar, o país continuará andando em círculos, o estado com a maior renda per capta não é São Paulo, é o Distrito Federal, a o percentual de pessoas mais ricas do país não está na iniciativa privada, está no funcionalismo público.
Mas agora vem o ponto que poucos gostam de ouvir. Essa anomalia, por mais prejudicial que seja para o desenvolvimento do país, cria oportunidades para quem entende o jogo. Onde não há problema, não há oportunidade extraordinária. Onde tudo funciona bem, os retornos tendem a ser medianos. Onde há distorção, volatilidade e erro, existe espaço para ganhar dinheiro.
Isso não significa fechar os olhos para os problemas ou fingir que está tudo bem. Significa entender o ambiente em que você está inserido. Reclamar não paga conta. Chorar não protege patrimônio. O investidor precisa aprender a operar dentro da realidade, não dentro da fantasia de como o país deveria ser.
O Brasil continua oferecendo oportunidades relevantes, tanto no empreendedorismo quanto nos investimentos. Mas exige algo diferente. Exige estudo, leitura de cenário, entendimento de ciclos e, principalmente, consciência de risco. Não é para amador. Não é para quem segue moda ou manchete.
A volatilidade que assusta muitos é exatamente o terreno onde o investidor preparado prospera. Oscilações de juros, câmbio, bolsa e inflação não são ruídos. São sinais. Quem entende esses movimentos consegue se posicionar melhor, proteger patrimônio e capturar retornos que não existem em mercados excessivamente eficientes.
No Brasil, assumir menos risco muitas vezes gera mais retorno. Essa é a anomalia. Mas dentro dessa anomalia existem brechas. E é nessas brechas que o conhecimento faz a diferença. Não é sobre coragem cega. É sobre risco calculado. É sobre entender onde está a distorção e como se posicionar diante dela.
O país pode até não mudar no curto prazo. Mas o investidor que muda sua forma de pensar, analisar e agir consegue sobreviver e prosperar mesmo em um ambiente disfuncional. E no fim do dia, é isso que importa.
Tudo bem com você investidor? Hoje, o papo é reto e fundamental para quem opera ou está começando no mercado financeiro: Títulos Públicos.
Eu vou começar dando uma introdução sobre vários investimentos, mas precisamos "engrossar um pouquinho mais o caldo" nos títulos. Quando eu comecei a investir, o meu primeiro movimento foi exatamente nos títulos públicos brasileiros. A gente fala muito de renda fixa, né? Mas temos que desmistificar isso de cara. Título público é, sim, renda fixa, se você levar o papel até o final. Caso contrário, você pode, sim, perder dinheiro na chamada marcação a mercado.
A Grande Diferença: Pós-fixado vs. Pré-fixado no Brasil
Nós vamos destrinchar um pouquinho sobre esses títulos. Eu já adianto para vocês qual tipo eu gosto e qual eu não gosto. Eu, particularmente, nunca comprei NTNB e sempre comprei título atrelado à Selic. E por que essa preferência pela Selic? Porque ela compreende a nossa taxa básica de juros, que é o parâmetro interbancário para todas as taxas de juro do país.
O nosso país, pessoal, é um mercado instável. E em mercados instáveis, a estratégia é clara: investimos no título pós-fixado, e não no pré-fixado, na minha visão.
Pensa comigo no cenário do título pré-fixado (ou o híbrido IPCA+), onde ele coloca lá o IPCA mais um rendimento. Se a inflação explodir, como já aconteceu aqui no Brasil, você vai tomar uma baita de uma fumada. O Brasil, historicamente, é um país mais instável, e por isso temos muito mais títulos atrelados ao pós-fixado (taxa Selic) do que ao pré-fixado.
Se você comprar um título pré-fixado, que é de longo prazo, e a inflação explodir para 15%, por exemplo, você vai começar a perder dinheiro. É muito complicado, já que a nossa taxa de juro, no Brasil, muitas vezes tende a aumentar. Por isso, toma muito cuidado.
Já o Tesouro Selic (que é pós-fixado) segue a Selic. Se a Selic for para 40%, o seu título vai pagar 40%, porque ele é atrelado à taxa. A maioria dos investidores gringos que vêm para o Brasil coloca o dinheiro na Selic. Por isso, aqui no Brasil, eu invisto em Selic.
O Risco da Impressora: Por que o Pós-fixado protege
Aqui entra um ponto crucial para quem investe: o governo possui um monopólio de emissão de moeda, o que, teoricamente, garante que ele honrará seus compromissos. Algumas pessoas dizem: "O governo nunca vai dar calote porque ele tem a impressora, ele pode imprimir dinheiro e te pagar". Sim, ele pode.
Mas aí reside o perigo do pré-fixado: se o governo não arrecada mais, tem problemas e precisa imprimir dinheiro para te pagar, o que acontece? Essa impressão gera uma inflação gigantesca. Ele vai te pagar, mas o que ele vai te pagar, você não vai conseguir ganhar da inflação se isso acontecer, e sim, no Brasil tudo pode acontecer.
Se você comprou um título pré-fixado (como um IPCA + 5%) e a inflação explode, seus ganhos reais são corroídos. No título Selic, se o governo precisar imprimir dinheiro, você vai acompanhar esse crescimento porque ele é atrelado à taxa básica. É por isso que eu tenho Selic aqui no Brasil, e é por isso que temos que tomar esses cuidados.
O Mecanismo: Tesouro Direto e o Empréstimo ao Governo
O que são, afinal, títulos públicos? Eles são instrumentos de renda fixa. Eles são emitidos pela Secretaria do Tesouro Nacional. Quando você compra um título, você está emprestando dinheiro para o governo federal. Ou seja, (em outras palavras, você está emprestando dinheiro para você mesmo), já que somos pagadores de impostos.
O governo utiliza esses recursos para financiar atividades essenciais como saúde, infraestrutura e segurança, é a famosa dívida que é rolada dentro do país. Os títulos públicos são considerados os investimentos com menor risco de crédito no Brasil. Não que eles não tenham risco, mas esse risco é minimizado, especialmente porque a dívida brasileira é majoritariamente em Real, o que traz uma certa estabilidade.
O processo é simples através do Tesouro Direto, um programa que democratizou o acesso aos títulos públicos em 2002. Antes disso, as pessoas físicas quase não tinham acesso, pois o valor era muito alto. Hoje, você abre conta na corretora (o que é tão fácil quanto abrir conta em um banco digital) e pode investir com um valor acessível; o investimento mínimo é de R$ 30. Você compra uma fração do título, permitindo que qualquer pessoa comece a investir.
A liquidez é diária, o que é um ponto forte. O governo garante a recompra do título todos os dias.
Marcação a Mercado e Sua Estratégia
A marcação a mercado é crucial. Mesmo com liquidez diária (D+1 ou D+2), se você resgatar antecipadamente, está sujeito a ela.
Se você comprou um título pré-fixado com uma taxa de juro X e essa taxa cair, seu título se valoriza (marcação positiva). Mas se a taxa subir, seu título desvaloriza, e você vai ter que levar ele até o final se não quiser ter prejuízo. É por isso que, para evitar perdas, a dica é manter seus investimentos até o vencimento sempre que possível.
Para quem está começando e não tem experiência nenhuma no mercado, eu sugiro a seguinte sequência de ativos para começar: primeiro, o Tesouro Direto.
Você deixa o dinheiro rendendo ali enquanto estuda o mercado. Depois, você pode ir para uma coisa mais sofisticada, como os fundos imobiliários. Eu mesmo fiquei cinco anos investindo no Tesouro Direto e estudando o mercado antes de partir para outros ativos.
Tributação (O Fisco Sempre de Olho)
Quando falamos de mercado financeiro, a tributação é um ponto importante. Os ganhos com juros e a diferença entre compra e venda dos títulos são tributados pelo Imposto de Renda.
Isso segue uma tabela regressiva que favorece o longo prazo:
• Até 180 dias: 22,5%.
• Até 360 dias: 20%.
• Até 720 dias: 17,5%.
• Acima de 720 dias: 15%.
É fundamental lembrar, pessoal, que o IR incide sobre o ganho de capital (a valorização), e não sobre o montante total investido.

