Há um ponto em economia que poucos percebem, mas que muda completamente a forma como enxergamos riqueza, inflação e poder. Ele foi descrito ainda no século XVIII por um economista irlandês chamado Richard Cantillon. E o curioso é que, mesmo três séculos depois, continua mais atual do que nunca. O chamado efeito Cantillon é a explicação mais clara de como a expansão monetária cria distorções profundas na economia real, concentrando renda, alterando preços relativos e gerando um tipo de inflação que não aparece de imediato nos indicadores.
Cantillon observou algo simples, mas poderoso: o dinheiro novo não entra na economia de forma neutra. Ele tem um ponto de entrada. E quem recebe esse dinheiro primeiro ganha poder de compra antes que os preços subam. Enquanto isso, quem está na ponta, recebendo por último, já enfrenta o aumento de preços sem ter tido o mesmo ganho. É uma transferência silenciosa de riqueza, feita não por impostos, mas pela ordem de chegada do dinheiro novo.
Na prática, isso significa que bancos, grandes empresas e governos, que recebem esse dinheiro antes do resto da economia, acabam sendo beneficiados. Eles compram ativos, imóveis, ações e insumos antes que os preços se ajustem. Enquanto isso, trabalhadores, aposentados e pequenos empresários sentem o efeito apenas quando o dinheiro já perdeu valor. É o tipo de desigualdade que não aparece em gráficos, mas corrói lentamente a base de qualquer sociedade.
Se olharmos para os últimos quinze anos, fica fácil enxergar isso. Desde a crise de 2008, o mundo viveu um experimento monetário sem precedentes. Bancos centrais inundaram o sistema financeiro com liquidez, juros negativos e programas de compra de ativos. O resultado foi a inflação dos preços dos ativos: bolsas dispararam, imóveis se valorizaram e as grandes corporações acumularam fortunas. Mas o trabalhador comum não viu essa riqueza. O custo de vida subiu, o poder de compra caiu e a promessa de prosperidade se perdeu no meio do caminho.
O Brasil, como sempre, importou parte dessa dinâmica, mas com suas próprias distorções. Aqui, o efeito Cantillon se mistura com o fiscal. O governo gasta, se endivida, injeta dinheiro via bancos públicos e subsídios, e esse dinheiro entra primeiro no topo da cadeia. Quem tem acesso ao crédito subsidiado, às grandes licitações e às operações financeiras de alto valor se beneficia. Quem está na base recebe a inflação depois, nos preços do supermercado e no aluguel.
O resultado é o que já conhecemos: concentração, desigualdade e uma sensação constante de que quem trabalha mais não necessariamente melhora de vida. E não é coincidência. É o funcionamento normal de um sistema que recompensa quem está mais próximo da fonte do dinheiro e pune quem está distante dela.
Quando olhamos para os movimentos recentes, expansão fiscal, programas de crédito e política de juros, é impossível não ver o mesmo padrão se repetindo. Sempre que o Estado tenta “estimular” a economia com dinheiro novo, cria uma bolha temporária. O consumo aumenta, os índices de curto prazo melhoram, mas logo vem o reajuste de preços. O dinheiro novo perde valor, e o poder de compra de quem está na base volta a ser corroído.
Isso é o efeito Cantillon na prática: o tempo entre a criação do dinheiro e o momento em que a inflação é percebida é o intervalo em que a transferência de riqueza acontece. É nesse espaço que o sistema financeiro e o setor público se beneficiam. E o curioso é que, mesmo com toda a tecnologia e transparência de dados, esse mecanismo continua invisível para a maioria.
Há ainda um componente psicológico. Quando as pessoas percebem que precisam trabalhar cada vez mais para manter o mesmo padrão, mas que o dinheiro se desvaloriza, surge o que chamo de inflação moral. É o sentimento de injustiça econômica. E esse sentimento é perigoso. Ele corrói a confiança no sistema e cria terreno fértil para populismos e promessas fáceis.
A única forma de se proteger desse ciclo é entender onde o dinheiro nasce e como ele se espalha. Investidores que compreendem o efeito Cantillon conseguem se posicionar antes da maré. Buscam ativos reais, proteções contra inflação e diversificam sua exposição à moeda local. É o movimento de quem entende que o valor não está apenas no quanto se ganha, mas no que o dinheiro ainda compra.
O efeito Cantillon é mais do que uma teoria. É uma lente de leitura da economia moderna. Mostra que a inflação não é apenas o aumento de preços, mas um processo de redistribuição de poder. Quem tem acesso ao crédito barato, quem opera próximo aos centros de decisão e quem entende os fluxos monetários sempre sai na frente.
Em tempos de déficits crescentes, juros reais baixos e promessas de estímulos fiscais, entender esse mecanismo é questão de sobrevivência financeira. Porque a história mostra que a expansão monetária nunca é neutra. Ela tem direção, tem endereço e tem beneficiários claros. O que muda é apenas o discurso que tenta justificar o processo.
Talvez a grande lição de Cantillon seja essa: a inflação não começa no supermercado, mas no banco central. E quem entende isso para de olhar apenas para os números e começa a enxergar a lógica. Dinheiro é poder, mas o poder de compra se move antes do preço.
Vamos conversar sobre a economia do Brasil, e o cerne da questão, o verdadeiro calcanhar de Aquiles, não é a taxa Selic como alguns estão dizendo há algum tempo, mas sim a falta de compromisso fiscal e os estímulos financeiros governamentais desmedidos. A Selic elevada, a 15%, é mais um sintoma do que a causa principal dos nossos males econômicos.
Frequentemente, compara-se o Brasil com nações como Estados Unidos e Japão, que possuem dívidas públicas altíssimas, mas juros baixos. Essa comparação é desproporcional. Quantas vezes esses países deram calote? E o Brasil? Nossa história é pontuada por esses episódios. A credibilidade de um país não se constrói da noite para o dia, e o mercado financeiro global leva isso em conta.
O Brasil é um país emergente, com uma riqueza natural imensa, mas uma desigualdade social abissal. Um país pode ser rico em recursos, mas se a população não usufrui dessa riqueza, algo está errado. Atribuir a culpa da desigualdade à Selic de 15% é desviar o foco. Essa taxa reflete nossa instabilidade e a desconfiança do mercado na nossa gestão econômica.
Nossa dependência de capital externo é uma realidade. Sem um retorno atraente, o investimento não vem. É a lógica de mercado: quem investe busca segurança e rentabilidade. Com um histórico de mau pagador, é natural que o risco percebido seja maior, e, consequentemente, os juros também. O Brasil tem se mostrado um gastador compulsivo e perdulário. A Selic alta é um espelho da nossa própria gestão.
Para o empresário, a realidade é ainda mais desafiadora. A falta de previsibilidade, com regras que mudam a todo momento, impede o planejamento de longo prazo. O Brasil se destaca mundialmente pelos seus programas de auxílio. Na minha visão, essa cultura de dependência mais prejudica do que ajuda. Deveríamos focar em criar um ambiente onde as pessoas possam prosperar por seus próprios méritos.
O argumento de que sem auxílios "as pessoas vão morrer de fome" ou que "sem o SUS, todos morrem" não se sustenta na prática. A verdade é que muitos já enfrentam dificuldades extremas mesmo com esses programas. Curiosamente, muitos defensores do SUS possuem planos de saúde particulares. Biologicamente, nosso cérebro busca poupar energia; benefícios sem contrapartida podem desincentivar o trabalho. Precisamos de equidade de oportunidades, não de esmolas que perpetuam a dependência.
É desanimador ver a insistência em culpar a Selic ou o "rentista". O investidor apenas opera dentro das regras do jogo. Um cenário de trabalho e segurança para todos seria preferível, mas a realidade do mercado é outra. E sobre a "redução da pobreza", é preciso olhar além dos números. Viajando pelo Brasil, vejo a miséria de perto. Se a reduzirmos artificialmente a Selic, o capital foge e o desemprego aumenta, já tivemos essa experiência no governo Dilma. A solução passa por responsabilidade fiscal e por honrar compromissos. Construir credibilidade leva tempo.
Medidas como a isenção do Imposto de Renda para até 5 mil reais são paliativas. O valor será compensado por inflação ou outros impostos. A tabela do IR deveria ser corrigida anualmente, mas isso não acontece, nem vai acontecer. A conta sempre chega. O que realmente precisamos é de uma reforma administrativa séria, com corte de gastos. Políticos e alguns economistas insistem que o Estado não é como uma casa ou como uma empresa, a verdade é que no final do dia, matemática é matemática, você pode fazer malabarismo, enfeitar, mas no final a conta não fecha, o princípio de não gastar mais do que se arrecada é universal. Essa retórica serve para justificar o aumento de impostos e a impressão de moeda.
Para concluir, o déficit recorde das estatais é mais um exemplo da má gestão. Não sou contra estatais por princípio, mas no Brasil, falta-nos maturidade para administrá-las eficientemente. O resultado é prejuízo, e quem paga a conta somos nós. Esta análise não é para desanimar, mas para alertar. É preciso direcionar os investimentos com sabedoria. Infelizmente, nosso país parece mais propício à especulação do que ao investimento de longo prazo. Proteger o patrimônio em outras moedas, mercados e em Bitcoin tornou-se uma estratégia de sobrevivência. Essa é a realidade que precisamos encarar de frente.

