Poucas franquias de terror foram tão inteligentes quanto Pânico. Desde o início, a série se destacou por sua autoconsciência: um slasher que entendia as regras do gênero e brincava com elas ao mesmo tempo. Mas Pânico 7 parece ter esquecido justamente aquilo que tornou a saga especial. O filme tenta revisitar os “maiores sucessos” da franquia, mas o resultado é menos uma reinvenção e mais uma cover desajeitada de uma música que já ouvimos muitas vezes antes.
Parte dessa sensação vem do turbulento processo de produção. Após o sucesso das “Sequências-legado” recentes, a franquia parecia ter encontrado novo fôlego com as personagens interpretadas por Melissa Barrera e Jenna Ortega. Mas a demissão de Barrera em 2023, após declarações pró-Palestina nas redes sociais, desencadeou uma reação em cadeia: Ortega deixou o projeto logo depois, e o diretor inicialmente escalado, Christopher Landon, também abandonou o filme. O resultado é uma produção que carrega, em cada cena, os sinais de uma reconstrução apressada.
Com isso, a narrativa retorna ao ponto mais seguro possível: Sidney Prescott. Interpretada novamente por Neve Campbell, a icônica “final girl” vive agora em uma pequena cidade de Indiana, tentando manter uma vida tranquila com o marido e a filha adolescente, Tatum. Naturalmente, essa paz dura pouco. Ghostface volta a ligar (desta vez por FaceTime) e logo surgem suspeitas envolvendo uma possível manipulação por inteligência artificial.
A premissa até sugere caminhos interessantes. Um slasher que explorasse deepfakes, paranoia digital e a permanência do trauma através das gerações poderia renovar a fórmula da série. O problema é que o filme nunca parece disposto a seguir essas ideias até o fim. Sempre que surge a chance de fazer algo novo ou ousado, Pânico 7 recua para repetir os movimentos mais previsíveis da franquia.
O roteiro reúne o autor do original, Kevin Williamson, com os roteiristas dos capítulos mais recentes, James Vanderbilt e Guy Busick. Em teoria, essa combinação deveria unir o espírito metatextual clássico da série com a violência mais gráfica dos filmes recentes. Na prática, o resultado é um choque de tons: Williamson parece interessado em expandir a mitologia da franquia, enquanto o restante do roteiro insiste em piadas autoreferenciais e mortes cada vez mais elaboradas.
Mas o problema principal não é a violência nem a nostalgia. É a ausência de propósito. O filme faz referência a “final girls”, a remakes intermináveis e até a adaptações oportunistas de clássicos, mas não existe o subtexto afiado que sempre acompanhou essas piadas nos filmes anteriores. O comentário sobre o estado do cinema de terror simplesmente não está lá.
Nem mesmo o retorno de personagens queridos consegue salvar a experiência. Courteney Cox reaparece como Gale Weathers, acompanhada pelos irmãos Meeks-Martin, personagens que trouxeram energia aos capítulos anteriores. Durante alguns minutos, o filme até parece ganhar vida. Mas logo volta ao piloto automático, conduzindo a trama para uma revelação final tão absurda que chega a provocar mais confusão do que surpresa.
Visualmente, o filme também decepciona. A fotografia escura, parte de uma tendência cada vez mais comum no cinema contemporâneo, transforma várias sequências em blocos indistintos de sombras. A montagem irregular só aumenta a sensação de que tudo foi montado às pressas.
Nada disso significa que Matthew Lillard não esteja se divertindo ao revisitar o legado de Stu Macher, ou que Neve Campbell faça algo particularmente errado. Mas até mesmo o carisma desses atores parece preso dentro de um projeto que nunca encontrou sua própria identidade.
Talvez o aspecto mais frustrante de Pânico 7 seja justamente perceber quantas oportunidades o filme desperdiça. Há ideias interessantes espalhadas pelo roteiro, sobre inteligência artificial, trauma geracional e a obsessão contemporânea com nostalgia, mas nenhuma delas é explorada de verdade.
No fim, o filme faz exatamente aquilo que a própria franquia sempre satirizou: repete fórmulas conhecidas sem entender por que elas funcionaram no primeiro lugar.
E isso é o que torna Pânico 7 não apenas um capítulo fraco da série mas, possivelmente, o mais esquecível de todos.
A temporada de premiações está chegando ao seu momento decisivo, e o Oscar de 2026 promete uma disputa particularmente interessante. Entre dramas históricos, experimentos narrativos e performances arrebatadoras, algumas categorias já começam a desenhar seus favoritos, enquanto outras seguem abertas até o último momento. Vamos analisar quem chega mais forte na reta final da corrida pela estatueta.
Melhor Roteiro — Original e Adaptado
Poucas categorias revelam tanto sobre um filme quanto o roteiro. É ali que nascem os diálogos memoráveis, os personagens complexos e as estruturas narrativas capazes de sustentar toda uma produção.
Na categoria de Roteiro Adaptado, um dos trabalhos mais comentados do ano foi o de Guillermo del Toro, que trouxe nova vida a uma história amplamente conhecida com sua versão de Frankenstein. Mesmo partindo de um material clássico, o diretor encontrou formas de reinventar o drama e explorar novas camadas emocionais da narrativa.
Ainda assim, tudo indica que o prêmio deve ir para Hamnet, resultado da colaboração entre a diretora Chloé Zhao e a autora do romance original, Maggie O’Farrell. O roteiro se destaca por sua abordagem sensorial e atmosférica, construindo uma ligação profundamente comovente entre tragédia pessoal e criação artística, uma reflexão delicada sobre como a arte pode nascer da dor.
Já em Roteiro Original, um dos textos mais comentados da temporada é o de Marty Supreme. Em vez de seguir a tradicional trajetória de redenção tão comum no cinema americano, o filme aposta em algo mais incômodo: uma história sobre perseverança tóxica e obsessão pelo sucesso. O resultado é um roteiro intenso, caótico e cheio de energia, conduzido por um ritmo narrativo quase vertiginoso.
Melhor Atriz
A categoria de Melhor Atriz este ano reúne algumas das performances mais poderosas da temporada.
Um dos grandes destaques foi Emma Stone em Bugonia. O filme coloca sua personagem em uma situação quase insuportavelmente desesperadora, o que poderia facilmente se tornar uma experiência difícil de acompanhar. Mas Stone sustenta tudo com uma presença magnética. Mesmo quando sua personagem está em desvantagem absoluta, a atriz domina cada cena com força e controle.
Também merece destaque Rose Byrne, que entrega uma atuação intensa interpretando uma personagem profundamente desagradável. É aquele tipo de performance que dificilmente vence, mas que representa a clássica indicação “uma honra estar aqui”, permitindo à atriz explorar nuances dramáticas raramente vistas em sua carreira.
Apesar da concorrência forte, a grande favorita da categoria parece ser Jessie Buckley, por Hamnet. A atriz venceu praticamente todos os prêmios da temporada até agora com uma interpretação feroz e emocionalmente crua, que evita qualquer sentimentalismo fácil.
Uma pena para Renate Reinsve, de Valor Sentimental. Em muitos anos, sua atuação provavelmente seria suficiente para garantir a vitória, mas a competição deste ano está especialmente acirrada.
Melhor Ator
Entre os homens, a disputa talvez seja a mais imprevisível da noite.
O brasileiro Wagner Moura surge como um dos nomes fortes da categoria após vencer o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, repetindo o feito de Fernanda Torres no ano passado. Mas a história recente mostra que isso não garante vitória no Oscar, afinal, os votantes do Globo de Ouro não são os mesmos da Academia.
Outro concorrente de peso é Timothée Chalamet, por Marty Supreme. Ele venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical, além de levar também o BAFTA e o Critics Choice Award, o que o coloca como favorito em muitas previsões.
Mas a corrida ganhou um novo elemento quando Michael B. Jordan, que interpreta irmãos gêmeos em Pecadores, venceu o prêmio do Sindicato dos Atores, um dos termômetros mais importantes da temporada, já que muitos membros do sindicato também votam no Oscar.
Ainda assim, tudo indica que Chalamet segue como favorito. Wagner Moura aparece como um forte terceiro colocado, mas a disputa ainda pode surpreender.
Melhor Diretor
A categoria de direção este ano reúne alguns dos trabalhos mais impressionantes da temporada, embora seja difícil não lamentar a ausência de Kleber Mendonça Filho, cujo trabalho em Agente Secreto merecia maior reconhecimento.
Entre os indicados, o nome mais comentado é Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra. O diretor venceu o prêmio do Sindicato dos Diretores (DGA), considerado um dos maiores termômetros do Oscar.
Além disso, Anderson é um dos cineastas mais respeitados de sua geração, responsável por clássicos modernos como Sangue Negro, O Mestre e Boogie Nights. Apesar de já ter sido indicado ao Oscar diversas vezes, ele nunca venceu e a Academia frequentemente gosta de premiar grandes nomes que passaram muito tempo sem reconhecimento, como aconteceu com Martin Scorsese.
Ainda assim, não seria impossível ver Chloé Zhao surpreendendo novamente com Hamnet. Sua direção é delicada, sensível e profundamente emocional, exatamente o tipo de trabalho que costuma conquistar a Academia.
Mas, neste momento, tudo aponta para Paul Thomas Anderson como o favorito.
Melhor Filme
A principal categoria da noite costuma reunir não apenas os melhores filmes, mas também aqueles que melhor representam o momento do cinema.
Em qualquer outro ano, Hamnet provavelmente seria o vencedor. O filme reúne muitos dos elementos que a Academia costuma premiar: um drama de época, direção autoral respeitada, temática artística e metalinguística e uma forte carga emocional.
Outro grande concorrente é Pecadores, um filme original que combina sucesso de público com relevância temática. Em uma época em que Hollywood busca desesperadamente histórias originais que ainda consigam atrair espectadores, o filme se tornou um verdadeiro símbolo do que a indústria precisa para sobreviver. Não por acaso, ele liderou a temporada com 16 indicações.
Mas há um detalhe curioso na história do Oscar: filmes com números recordes de indicações muitas vezes acabam levando menos prêmios do que se imagina, quase como se o reconhecimento em si já fosse a recompensa.
Por isso, o grande favorito da noite parece ser Uma Batalha Após a Outra. O filme venceu o prêmio do Sindicato dos Produtores, um dos indicadores mais confiáveis da categoria principal.
Além disso, o longa de Paul Thomas Anderson dialoga diretamente com o clima político atual dos Estados Unidos, algo que frequentemente pesa nas decisões da Academia. Somado ao fato de que Anderson nunca venceu um Oscar, o momento parece perfeito para que Hollywood finalmente reconheça um de seus cineastas mais reverenciados.
Se as tendências da temporada se confirmarem, 2026 pode finalmente ser o ano de Paul Thomas Anderson.
No fim das contas, a temporada do Oscar é sempre um jogo de expectativas, narrativas e momentos históricos. Prêmios anteriores ajudam a indicar tendências, mas a Academia frequentemente surpreende, seja premiando um desempenho inesperado, seja consagrando finalmente um artista que há anos parecia destinado à vitória.
Se as apostas atuais se confirmarem, 2026 pode entrar para a história como o ano em que Paul Thomas Anderson finalmente levou seu primeiro Oscar, consolidando uma carreira que já é considerada uma das mais importantes do cinema contemporâneo. Mas, como toda corrida ao Oscar nos lembra, até o envelope ser aberto, tudo ainda pode acontecer.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

