Existe uma ironia particularmente bonita no ponto em que encontramos Peter Parker em Homem-Aranha: Um Novo Dia. Todos dentro daquele universo se esqueceram de quem ele é, mas nós o conhecemos há mais tempo do que qualquer outra versão cinematográfica do personagem.
Peter Parker costuma ser vítima da impaciência de Hollywood. Suas histórias retornam à adolescência, atravessam alguns anos, esbarram numa trilogia interrompida e recomeçam com outro ator usando o uniforme. Tom Holland escapou desse ciclo. Nenhum intérprete cinematográfico teve tantas oportunidades de voltar ao personagem, atravessar diferentes fases do Universo Cinematográfico da Marvel e permitir que sua própria idade acompanhasse o amadurecimento de Peter. Quando ele apareceu pela primeira vez, ainda era possível acreditar que aquele jovem desajeitado havia acabado de descobrir seus poderes. Uma década depois, já não estamos vendo um adolescente interpretado por um adulto, mas um Homem-Aranha que realmente viveu tempo suficiente para carregar as consequências de suas escolhas. Esse talvez seja o maior efeito especial de Um Novo Dia: o tempo.
O filme entende que o encerramento de Sem Volta para Casa não pode ser tratado apenas como um mecanismo usado para retirar personagens do tabuleiro e devolver Peter a uma configuração mais próxima dos quadrinhos. Ser esquecido por todas as pessoas que ama não é uma oportunidade conveniente de reiniciar a franquia, mas uma experiência profundamente traumática. O novo longa resiste à saída mais fácil e permite que aquela perda continue definindo o personagem.
O isolamento também ajuda a construir um Peter mais autossuficiente. Durante anos, esta versão foi criticada por viver excessivamente sob a sombra de Tony Stark, cercada por equipamentos, inteligências artificiais e recursos que pareciam afastá-la das limitações tradicionalmente associadas ao Homem-Aranha. Aqui, Holland finalmente abraça por completo a condição de sucessor intelectual de Stark, mas em circunstâncias que fazem essa comparação parecer merecida.
Peter continua sendo brilhante, criativo e tecnologicamente habilidoso, só que agora precisa demonstrar essas qualidades sem uma fortuna, um laboratório voador ou uma equipe inteira resolvendo seus problemas. É como assistir a Tony Stark sem os recursos de Tony Stark, embora o resultado, justamente por isso, pareça muito mais com Peter Parker. Cada solução improvisada nasce de sua própria inteligência, e aquilo que antes lhe era entregue agora precisa ser construído. Pela primeira vez, sua tecnologia não diminui sua identidade como Homem-Aranha; ela a confirma.
Essa evolução também está impressa no modo como o herói se movimenta. Um Novo Dia talvez seja o filme do personagem que mais se aproxima da sensação de ver uma história em quadrinhos ganhar vida, não apenas por reproduzir poses ou enquadramentos reconhecíveis, mas por compreender a energia existente entre essas imagens. O Homem-Aranha atravessa a cidade, persegue criminosos, utiliza o cenário a seu favor e incorpora golpes e movimentos popularizados pelos jogos recentes sem que a ação pareça uma simples coleção de referências.
As cores são vibrantes, e até os tons escuros possuem uma riqueza incomum para uma produção do gênero. O preto parece sombra de verdade, não o cinza desbotado que tantas vezes ocupa seu lugar nos blockbusters contemporâneos. Nova York tem cor, textura e profundidade, permitindo que o vermelho e o azul do uniforme saltem da tela sem parecerem artificiais.
E que uniforme.
A roupa usada por Holland em Um Novo Dia é facilmente a melhor versão live-action do traje, superando até mesmo aquela utilizada por Andrew Garfield em O Espetacular Homem-Aranha 2. O tecido dobra, estica e reage aos movimentos do corpo. Em vários momentos, me peguei distraído da ação apenas observando as costuras, a textura e a maneira como o traje realmente parece ter sido feito de pano, em vez de aplicado digitalmente sobre o ator.
Pode parecer um detalhe superficial, mas o filme compreende que a materialidade do uniforme é parte da fantasia. Há uma diferença entre observar um efeito visual com a forma do Homem-Aranha e acreditar que existe alguém debaixo daquela máscara. Holland já desenvolveu uma linguagem corporal tão específica para o personagem que consegue atuar mesmo quando seu rosto está completamente escondido.
Também existe, para a alegria de qualquer fã, uma quantidade surpreendentemente grande de Homem-Aranha em um filme do Homem-Aranha. O herói passa boa parte da história uniformizado, conversando com policiais, autoridades, criminosos e cidadãos comuns sem precisar retirar a máscara sempre que o protagonista deve expressar alguma emoção. Em um gênero que frequentemente trata o rosto de uma estrela como algo caro demais para permanecer escondido, Um Novo Dia permite que Holland habite o traje e confia que sua voz e seus movimentos serão suficientes.
É essa confiança que faz as sequências de ação funcionarem. Existe escala nos grandes confrontos, mas a história permanece relativamente próxima das ruas. O Homem-Aranha não parece alguém temporariamente afastado de uma aventura dos Vingadores; ele volta a ser parte de Nova York, percorrendo seus prédios, reconhecendo seus habitantes e respondendo diretamente aos problemas que surgem diante dele. Depois de tantas ameaças interdimensionais, existe um prazer especial em simplesmente vê-lo balançando pela cidade e prendendo criminosos.
Isso não significa que o filme abandone o universo compartilhado. Pelo contrário: Um Novo Dia resgata essa característica tão amada do MCU (e que, nos últimos anos, passou a despertar certa desconfiança) ao reunir personagens de outras produções da Marvel e transformar essas conexões em uma de suas maiores forças.
Sem Volta para Casa encontrou uma energia inesperada no fan service de reunir diferentes versões do Homem-Aranha. Um Novo Dia realiza um feito semelhante por meio de algo muito mais básico e essencial à Marvel: colocar personagens com visões incompatíveis no mesmo ambiente e deixá-los reagir uns aos outros.
Ver o Homem-Aranha trocando provocações com o Justiceiro e enfrentando o Hulk oferece o tipo de prazer imediato que eu procurava nos quadrinhos e desenhos animados quando criança. Não se trata apenas da novidade de ver figuras conhecidas dividindo a tela, mas da maneira como suas personalidades alteram cada confronto.
Jon Bernthal continua sendo perfeito como Frank Castle. O Justiceiro representa o extremo oposto de tudo em que Peter acredita: um homem para quem o combate ao crime não possui espaço para misericórdia, reabilitação ou segundas chances. O filme suaviza sua linguagem e reduz, inevitavelmente, a violência gráfica de suas aparições televisivas, mas não descaracteriza o personagem para encaixá-lo numa aventura mais leve.
Bernthal interpreta uma versão ligeiramente mais cartunesca de Frank, encontrando algumas das maiores risadas do filme em sua irritação constante com Peter. Os dois formam uma espécie de dupla incompatível, permanentemente discutindo, mas desenvolvendo um respeito relutante um pelo outro. O humor nasce de seus comportamentos e do choque entre suas convicções, não da sensação de que alguém entrou na sala durante uma reescrita e decidiu inserir uma piada a cada dois minutos. Frank não precisa deixar de ser o Justiceiro para ser engraçado; basta colocá-lo perto de alguém que se recusa a aceitar sua maneira de enxergar o mundo.
É impressionante que um personagem oriundo de algumas das cenas mais sombrias e violentas do MCU consiga funcionar tão bem nesse registro sem perder seu centro. Também é um lembrete de que a maior força da Marvel nunca esteve apenas nas conexões entre suas histórias, mas nas interações entre seus personagens.
Por sua vez, Zendaya possui menos espaço do que em capítulos anteriores, mas é excelente, especialmente em uma cena crucial ao lado de Holland. Sem desfazer as consequências do filme anterior nem oferecer a Peter o conforto de uma solução simples, o momento reconhece o peso da história compartilhada por aqueles personagens, inclusive de uma história que apenas um deles consegue recordar. Era o ponto pendente mais preocupante deixado por Sem Volta para Casa, e Um Novo Dia o trata com uma seriedade que fortalece ambos os filmes.
Nem todas essas conexões, porém, são igualmente bem resolvidas. Como quase sempre acontece quando se compra um ingresso para uma produção da Marvel, existe uma quantidade considerável de dever de casa envolvida. O crescimento do poder do Departamento de Controle de Danos foi construído ao longo de diferentes filmes e séries, e Um Novo Dia pressupõe uma familiaridade com essa trajetória que parte do público talvez não possua.
O longa também não demonstra grande interesse em explicar quem é Frank Castle. Para quem acompanhou suas aparições anteriores, sua presença funciona imediatamente; para o espectador casual, o Justiceiro simplesmente entra na história carregando um passado que o roteiro considera conhecido. Bernthal comunica o bastante por meio de sua atuação para que o personagem ainda funcione, mas algumas relações dependem mais da memória do público do que daquilo que o próprio filme oferece.
O Tentáculo é ainda mais prejudicado. Os ninjas vermelhos são visualmente interessantes e rendem ótimos adversários nas cenas de luta, mas sua integração à trama é praticamente dispensada por uma única fala. É uma solução insuficiente para fazer a organização parecer parte natural da história. Em vez de uma ameaça que cresce organicamente, o grupo às vezes parece ter surgido porque alguém percebeu que o Homem-Aranha precisava de vários inimigos visualmente distintos para enfrentar ao mesmo tempo.
Essas fragilidades não comprometem o centro dramático do filme, sustentado por um Tom Holland confrontado com os maiores desafios de sua trajetória no papel. Existe uma regra informal segundo a qual uma boa história do Homem-Aranha precisa reconhecer que ser o Homem-Aranha é uma experiência terrível. Quanto mais triste está Peter Parker, melhor o filme tende a ser.
Um Novo Dia compreende essa tradição. Peter pode possuir força sobre-humana, reflexos impossíveis e uma inteligência extraordinária, mas nada disso o protege das consequências emocionais de sua vida. Salvar alguém quase sempre exige perder outra coisa. Fazer o que considera correto não garante que será reconhecido, amado ou sequer lembrado por isso. Seu heroísmo está justamente na decisão de continuar mesmo quando não existe recompensa.
Holland nunca havia precisado carregar tanto peso como Peter Parker e responde com sua melhor interpretação do personagem. O ator preserva a agitação, o humor e a vulnerabilidade que sempre definiu sua versão, mas permite que tudo isso seja atravessado pelo cansaço. Seu amadurecimento parece natural porque não apaga o jovem que conhecemos; mostra apenas o que aconteceu quando aquele jovem foi obrigado a sobreviver a perdas demais.
Sadie Sink também se destaca em uma personagem que fornece parte importante do impacto emocional da história. Sem entrar em detalhes que comprometam as surpresas do filme, sua presença amplia o conflito para além da aventura imediata e ajuda a conectar o drama pessoal de Peter à narrativa maior que está sendo construída. É uma atuação capaz de conferir peso a informações que, nas mãos de alguém menos convincente, poderiam funcionar apenas como preparação para produções futuras.
Ainda assim, este é o filme de Holland. Depois de tantas aparições, ele não parece mais um ator tentando demonstrar que compreende Peter Parker. Ele simplesmente habita o personagem. A familiaridade com o papel permite que mesmo pequenas escolhas como uma pausa antes de responder, uma mudança na postura, uma provocação pronunciada durante uma luta, comuniquem tudo o que ele viveu desde que apareceu pela primeira vez.
Essa é a vantagem que nenhuma reinicialização poderia reproduzir. Acompanhamos esses personagens quando eram crianças e agora os vemos entrar na vida adulta. Criamos com eles uma relação semelhante àquela proporcionada por séries como Harry Potter e Stranger Things, nas quais parte do envolvimento emocional nasce do privilégio de observar atores e personagens amadurecendo ao mesmo tempo. As histórias crescem junto com eles sem abandonar completamente o senso de diversão que nos fez gostar delas no início.
Por isso, Homem-Aranha: Um Novo Dia é facilmente o melhor filme desta versão do personagem desde De Volta ao Lar. Sua trama ainda carrega alguns dos vícios do MCU, especialmente a dependência de conhecimentos externos e a obrigação de preparar peças para outras histórias. Mas também recupera aquilo que a Marvel faz melhor: personagens bem definidos, colocados em conflito não apenas por seus poderes, mas pela forma como enxergam o mundo.
Sobretudo, o filme reconhece o valor do tempo que passamos ao lado de Peter Parker. Em vez de tentar devolver Holland à adolescência, recriar glórias anteriores ou tratar a idade do ator como um problema a ser resolvido, Um Novo Dia permite que o Homem-Aranha avance.
De repente, a ideia de um Tom Holland com mais de 30 anos interpretando um Peter adulto não parece o fim inevitável dessa versão. Parece apenas o começo de algo que os filmes anteriores nunca tiveram tempo de mostrar.
Hollywood já reiniciou o Homem-Aranha vezes suficientes. Talvez a coisa verdadeiramente nova agora seja simplesmente deixá-lo envelhecer.
Não sou o maior fã de Christopher Nolan.
É uma afirmação que parece exigir uma justificativa imediata, especialmente em uma época na qual o nome do diretor deixou de ser apenas um crédito nos cartazes e se transformou praticamente em um gênero cinematográfico. Eu entendo sua importância, reconheço a dimensão da carreira que construiu e admiro o feito raro de ter convencido milhões de pessoas a irem ao cinema simplesmente porque “é o novo filme do Nolan”. Pouquíssimos cineastas ainda possuem esse poder.
Mas também não posso fingir que compartilhei do entusiasmo quase universal provocado por sua filmografia mais recente. Depois de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Interestelar, Dunkirk, Tenet e Oppenheimer não me impressionarem tanto quanto aparentemente impressionaram o restante do mundo, já estava preparado para mais uma decepção. Não necessariamente um filme ruim, pois Nolan dificilmente possui recursos ou incompetência suficientes para fazer algo verdadeiramente ruim, mas outra experiência grandiosa, tecnicamente impecável e emocionalmente distante, daquelas que admiro enquanto acontecem e começo a esquecer assim que saio da sala.
Então, quando ele anunciou que adaptaria A Odisseia, a escolha pareceu quase uma piada feita especificamente para confirmar todos os meus receios. Estamos falando de uma história tão monumental e influente que seu título se tornou sinônimo de qualquer jornada longa, perigosa e transformadora. Era exatamente o tipo de produção maximalista e pretensiosa que Nolan faria depois de finalmente ganhar seu Oscar e chegar ao estágio da carreira em que, aparentemente, ninguém mais é capaz de lhe dizer não.
“Quer adaptar Homero com um elenco formado por metade de Hollywood, filmando ao redor do mundo e usando câmeras IMAX imensas para registrar navios, deuses e monstros mitológicos?”
“Claro, senhor Nolan. Quanto dinheiro o senhor precisa?”
O que eu não esperava era que toda essa liberdade resultasse em um filme tão sincero em sua grandiosidade. A Odisseia não usa sua escala apenas para lembrar constantemente o quanto custou ou o tamanho da influência de seu diretor. Nolan aproveita os recursos à disposição para recuperar um tipo de aventura que parecia ter desaparecido de Hollywood: o épico maior do que a vida, construído para fazer o espectador se sentir pequeno diante da tela.
O resultado é um retorno moderno ao cinema que nos deu Ben-Hur e Lawrence da Arábia, com exércitos em grande escala, fugas sufocantes, navios enfrentando mares revoltos e paisagens varridas pelo vento, filmadas em diferentes lugares do mundo. Não se trata apenas de reproduzir a estética das antigas superproduções, mas de resgatar a sensação provocada por elas. Aquela impressão de estar vendo algo grande demais para caber em qualquer lugar que não seja uma sala de cinema.
E, considerando a relação de Nolan com a fantasia, isso não era necessariamente uma garantia.
Uma das características mais marcantes de sua filmografia sempre foi o esforço para dar alguma aparência de realidade às coisas mais absurdas. Sua trilogia do Batman se dedicou a plantar o herói firmemente no mundo concreto, substituindo boa parte do exagero dos quadrinhos por explicações tecnológicas, políticas e militares. Mesmo quando lida com viagens espaciais ou inversões temporais, Nolan precisa criar regras, diagramas e personagens capazes de explicar por que aquilo tudo, de alguma maneira, poderia funcionar.
Em A Odisseia, essa obsessão pelo realismo representava um risco. A última coisa que precisávamos era de uma repetição de Troia, de Wolfgang Petersen, uma produção grandiosa, mas tediosa, que tentou recontar a Guerra de Troia com os pés tão firmemente plantados no chão que acabou abandonando os deuses, a magia e praticamente tudo aquilo que fazia daquela história uma lenda. É difícil se empolgar com uma adaptação mitológica que parece sentir vergonha da própria mitologia.
Felizmente, Nolan não tenta racionalizar Homero. Os deuses são deuses. Os monstros são monstros. O impossível não recebe uma explicação pseudocientífica acompanhada por uma música crescente e um ator encarregado de justificar tudo aquilo. Nolan abraça o fantástico sem abrir mão da materialidade que caracteriza seu cinema. O resultado é um mundo no qual aquilo que existe de sobrenatural também possui peso, textura e presença. As criaturas não parecem ter sido inseridas sobre as paisagens; parecem habitar aqueles lugares há muito antes da chegada dos personagens.
Nenhum momento demonstra isso melhor do que o encontro com o Ciclope, facilmente a melhor sequência do filme. Nolan transforma um dos episódios mais conhecidos do poema em uma espécie de pintura de Goya convertida em filme de terror. O espaço parece simultaneamente gigantesco e claustrofóbico, a criatura é monumental sem perder sua fisicalidade, e os homens ao seu redor deixam de ser guerreiros lendários para se tornarem pequenos animais presos na toca de um predador.
Há uma brutalidade primitiva na cena, construída menos pela velocidade do que pela antecipação. Sabemos o que aquela criatura é capaz de fazer muito antes que ela faça qualquer coisa, e a espera se torna quase insuportável. É nesse momento que A Odisseia revela por completo o filme que deseja ser. E, depois disso, dificilmente perde novamente o impulso.
Até chegar lá, porém, Nolan testa um pouco a nossa fé.
A primeira meia hora é estranhamente hesitante. Há personagens demais para apresentar, informações demais para organizar e celebridades demais vestidas com túnicas, todas entrando em cena com a solenidade de quem sabe que o próprio rosto provocará alguma reação no público. Durante alguns momentos, A Odisseia parece uma novela bíblica da Record produzida com os atores mais famosos do planeta, o que não ajuda muito na imersão.
Quando praticamente todo personagem, por menor que seja, é interpretado por alguma celebridade reconhecível, o elenco deixa de ampliar o universo e começa a diminuí-lo. Em vez de enxergarmos guerreiros, reis, pretendentes e figuras mitológicas, às vezes enxergamos apenas mais um astro de Hollywood surgindo para cumprir sua participação. Com tantos atores e tão pouco tempo disponível para alguns deles, certas aparições parecem menos personagens integrados à narrativa do que convidados especiais usando roupas antigas.
Muito também já foi dito sobre essas roupas, especialmente sobre a falta de fidelidade histórica dos figurinos em relação à Idade do Bronze. Não é uma questão que me incomode particularmente. A Odisseia existe em algum lugar entre história, poesia e mito, e exigir dela o rigor de uma reconstituição arqueológica parece perder um pouco o propósito da coisa. Ainda assim, nem toda liberdade visual funciona: a armadura de Agamenon, em particular, destoa tanto do restante que parece ter sido emprestada de outra produção no corredor ao lado.
Por algum tempo, essas distrações fazem o filme parecer mais artificial do que deveria. Então acontece a primeira grande cena de ação e pronto: A Odisseia finalmente deslancha.
A trama encontra Odisseu, interpretado por Matt Damon, ainda tentando regressar a Ítaca anos depois do fim da guerra. Enquanto ele atravessa mares, monstros e tentações, sua esposa, Penélope (Anne Hathaway), precisa resistir aos homens que ocupam seu palácio, consomem seus recursos e exigem que ela escolha um novo marido. Entre eles está Antínoo (Robert Pattinson), que conspira para eliminar Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu e último obstáculo entre os pretendentes e o poder.
Nolan, é claro, não conta isso na ordem.
O diretor simplesmente adora desmontar uma cronologia e reorganizá-la diante do público, como se narrar os acontecimentos na sequência em que ocorreram fosse algum tipo de derrota artística. Em outros filmes, essa característica muitas vezes me incomoda, especialmente quando a estrutura parece existir apenas para transformar uma trama simples em um quebra-cabeça e oferecer ao espectador a satisfação de perceber que entendeu tudo.
Desta vez, porém, o recurso encontra o material perfeito.
Com a ajuda da montagem de Jennifer Lame, Nolan salta para trás e para a frente no tempo, atravessando lembranças, relatos e acontecimentos paralelos com uma fluidez impressionante. Em vez de impor um truque moderno com o qual já está familiarizado, a estrutura acaba dialogando com a própria natureza da obra de Homero, formada por histórias dentro de histórias e episódios que já pareciam lendas mesmo para os personagens que os ouviam.
A adaptação atravessa páginas e mais páginas do poema em um ritmo vertiginoso, sem transformar a jornada em uma simples lista de obstáculos. A Odisseia nunca deixa de parecer longa, perigosa e exaustiva para seus personagens, mas raramente parece arrastada para o público.
Existe apenas um problema: sempre que Odisseu não está na tela, é difícil não se perguntar “cadê o Odisseu?”.
A trama em Ítaca é essencial para estabelecer aquilo que ele pode perder caso não consiga voltar, mas nunca possui a mesma energia de sua viagem. Parte disso é inevitável, pois Penélope e Telêmaco estão cercados por ameaças humanas enquanto Odisseu enfrenta algumas das criaturas mais famosas da mitologia, mas parte também está na forma como esses personagens são apresentados.
Tom Holland entrega uma interpretação surpreendentemente frouxa, embora seja traído por um roteiro que faz Telêmaco parecer menos um jovem inexperiente tentando honrar o legado do pai e mais um inapto que atravessa a história aos tropeços. Há uma diferença entre vulnerabilidade e patetice, e o filme nem sempre consegue encontrá-la. Como resultado, é difícil torcer por ele com a intensidade que a narrativa exige.
Robert Pattinson, em compensação, entende perfeitamente a tarefa. Seu Antínoo é deliciosamente detestável: um instigador cruel, covarde e manipulador que prefere empurrar os outros em direção à violência enquanto preserva as próprias mãos. Pattinson encontra prazer na perversidade do personagem sem transformá-lo em uma caricatura completa, funcionando como um ótimo contraponto a Telêmaco, mesmo que, vez ou outra, pareça estar atuando em um filme muito mais divertido do que Holland.
Zendaya também se destaca como uma Atena etérea que guia Odisseu em seu retorno. É uma participação relativamente pequena, mas a atriz faz muito com pouco, comunicando ao mesmo tempo proximidade e distância, afeto e autoridade. Sua presença parece pertencer ao mundo e, simultaneamente, existir acima dele. Ela entende a dor dos mortais, mas nunca corre o risco de ser confundida com um deles.
Ainda assim, o filme pertence a Matt Damon.
Por mais surpreendente que pareça diante de uma produção desse tamanho, Nolan filma boa parte de A Odisseia com uma intimidade inesperada. Em vários momentos, a câmera se fecha sobre o rosto de Damon, reduzindo todo o restante do mundo a um borrão e nos obrigando a permanecer ao lado daquele homem enquanto sua confiança, sua força e sua identidade começam a se desfazer.
Damon é excelente ao interpretar o cansaço de Odisseu. Seu rosto carrega a viagem antes mesmo que o roteiro precise descrevê-la. Há arrependimento, tristeza e uma exaustão que parece ir muito além do corpo. Ele transmite perfeitamente a sensação de alguém que passou tempo demais em guerra e já não sabe exatamente o que restará de si mesmo caso consiga retornar para casa.
O ator é menos convincente, porém, ao encarnar a arrogância do personagem.
Odisseu precisa ser tão abrasivo quanto astuto, um homem capaz de salvar todos ao redor graças à própria inteligência e, minutos depois, colocá-los novamente em perigo porque seu orgulho não permite que uma vitória permaneça oculta. Seus piores atos deveriam surgir naturalmente de sua certeza de ser sempre o homem mais inteligente em qualquer ambiente. Na interpretação de Damon, porém, esses momentos impulsivos e inconsequentes parecem destoar do restante da performance.
Ele é tão bom em comunicar humildade, remorso e sofrimento que acaba suavizando os aspectos mais mesquinhos do “herói”. Quando Odisseu age de forma temerária, nem sempre sentimos que estamos vendo a consequência inevitável de sua personalidade; às vezes parece apenas que ele tomou uma decisão estúpida porque o poema precisa conduzi-lo até a próxima tragédia.
É uma limitação importante, mas não chega a comprometer uma atuação que funciona como centro emocional de um espetáculo gigantesco. Mesmo cercado por deuses, monstros e paisagens monumentais, Damon faz com que a questão mais importante do filme permaneça humana: o que exatamente significa voltar para casa depois de passar tempo demais se tornando alguém incapaz de viver nela?
A trilha sonora de Ludwig Göransson tenta traduzir esse conflito entre o mítico e o íntimo, embora nem sempre seja bem-sucedida. Na maior parte do tempo, o compositor entrega o som grandioso esperado de um épico de espadas e sandálias. Em outros momentos, porém, introduz notas eletrônicas dissonantes para ressaltar o isolamento de Odisseu. A ideia faz sentido, mas esses elementos não parecem pertencer à mesma trilha ou sequer ao mesmo universo sonoro. É um detalhe relativamente pequeno que se torna estranhamente difícil de ignorar.
Mas Göransson também possui momentos inspirados. A passagem das sereias é um deles, usando o som como uma forma de sedução e ameaça até se tornar quase impossível separar a beleza do perigo. E a nota produzida pelo tensionamento do arco de Odisseu nunca deixa de ser icônica. É um recurso simples, mas capaz de concentrar toda a expectativa de uma cena em uma única vibração.
O que torna A Odisseia especial, no entanto, é que sua grandiosidade não se limita à produção. Por trás das batalhas, tempestades, monstros e interferências divinas, existe uma história sobre poder, sucessão e as consequências da guerra. Uma advertência contra a tentação e a ganância, uma disputa entre astúcia e brutalidade e, em seus melhores momentos, um pedido por gentileza em um mundo que parece recompensar apenas a crueldade.
O problema é que Nolan não resiste à tentação de explicar tudo isso.
Esse sempre foi um dos aspectos que mais me afastaram de sua filmografia. Nolan raramente confia que o espectador estabelecerá sozinho as conexões propostas pelo filme. O subtexto nunca pode permanecer somente subtexto; em algum momento, um personagem precisa transformá-lo em discurso, resumir o simbolismo e sublinhar os temas para que ninguém corra o risco de sair da sessão sem entender o que deveria ter sentido.
No final de A Odisseia, os paralelos entre aquela guerra antiga, todas as guerras que vieram depois e os conflitos que ainda nos assolam já estão evidentes. Não precisamos que a mão do diretor pese sobre a narrativa, apontando para essas relações como um professor diante do quadro. As imagens já fizeram o trabalho. Os rostos dos sobreviventes já fizeram o trabalho. O próprio Odisseu, transformado por tudo o que fez e sofreu, já fez o trabalho.
A essência do desfecho é poderosa porque entendemos que ele não está apenas tentando regressar de uma guerra. Está tentando descobrir se alguém realmente consegue voltar dela. Nolan não precisava explicar aquilo que seu filme já havia expressado tão bem.
Talvez essa insistência tenha me impedido de sair do cinema completamente arrebatado. A Odisseia não me deixou sem ar nem desfez retroativamente minha indiferença diante dos últimos trabalhos do diretor. Ainda reconheço nela vários dos excessos que sempre me incomodaram: a solenidade, o didatismo, a necessidade de transformar toda ideia em uma declaração e toda declaração em algo digno de ser gravado em pedra.
Mas também seria injusto reduzir o filme a essas limitações. A Odisseia é um grande épico, uma aventura sincera e um testemunho daquilo que o cinema ainda pode alcançar quando um diretor recebe recursos quase ilimitados e decide usá-los para criar algo que verdadeiramente exige a tela grande. Não apenas uma produção cara, mas uma experiência construída em torno da escala, do som, da textura e da sensação coletiva de contemplar algo monumental.
Talvez eu tenha entrado na sala preparado para ver um diretor com liberdade demais se perder nos próprios excessos. Em vez disso, encontrei um cineasta usando justamente esses excessos para se reconectar com uma tradição de Hollywood que parecia perdida.
E, nesse processo, me reconectei um pouco com ele também. Não foi uma conversão completa. Depois de tantos anos atravessando filmes de Nolan sem chegar ao mesmo destino que seus maiores admiradores, seria exagero dizer que A Odisseia finalmente me levou para casa.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, fez com que a viagem valesse a pena.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

