A Warner Bros. tentou matar Coyote vs. Acme. Felizmente, escolheu como vítima o único personagem que já sobreviveu a quedas de penhascos, explosões de dinamite, atropelamentos, bigornas na cabeça e décadas utilizando produtos fabricados por uma empresa com padrões de segurança bastante questionáveis.
Era evidente que uma manobra contábil não seria suficiente.
Poucos filmes chegam ao público acompanhados por uma história de bastidores tão perfeitamente conectada àquilo que apresentam na tela. Coyote vs. Acme acompanha um personagem pequeno, constantemente humilhado e acostumado a perder, que decide enfrentar judicialmente uma corporação gigantesca responsável por transformar seu sofrimento em lucro. Depois de concluída a produção, a própria Warner Bros. decidiu que o longa seria mais útil como baixa contábil do que como obra disponível ao público.
A empresa responsável pelo filme tentou apagá-lo depois que o trabalho já estava pronto.
É difícil imaginar campanha de marketing mais eficiente.
A premissa parte de uma pergunta que provavelmente ocorreu a qualquer pessoa que tenha assistido aos desenhos do Papa-Léguas: depois de tantos produtos defeituosos, por que o Coiote nunca processou a Acme? Durante décadas, ele comprou foguetes que mudavam de direção, catapultas que disparavam para o lado errado, explosivos com temporizadores pouco confiáveis e máquinas elaboradas que pareciam possuir como única função ferir o próprio comprador. Em algum momento, o problema deixa de ser mau uso e começa a parecer responsabilidade do fabricante.
O Coiote finalmente chega à mesma conclusão.
Para enfrentar a Acme, ele se associa a um advogado modesto interpretado por Will Forte. O homem inicialmente não deseja aceitar o caso, em parte porque processar uma das maiores corporações do mundo parece uma maneira particularmente trabalhosa de destruir a carreira, mas principalmente porque teme fracassar. O cliente, em compensação, possui uma relação muito diferente com a derrota. O Coiote falha todos os dias. Às vezes, várias vezes antes do almoço. Ainda assim, levanta, limpa a fuligem do rosto, desenha outro plano e tenta novamente.
O mais impressionante em Coyote vs. Acme não é que a ideia produza boas piadas. O processo judicial envolvendo alguém que passou a vida sendo esmagado por mercadorias compradas pelo correio praticamente chega com as piadas incluídas. A surpresa está na quantidade de emoção encontrada dentro desse absurdo. O filme olha para uma das maiores vítimas da história da animação e percebe que sua característica essencial nunca foi o fracasso. Foi a persistência.
Nos desenhos, essa insistência faz parte da piada. O Coiote sempre retorna porque a perseguição precisa recomeçar. Ninguém pergunta como ele se sente depois de cair do penhasco ou quanto tempo levou para juntar dinheiro para comprar mais um foguete. A estrutura exige que ele continue tentando, mesmo quando todos, inclusive o público, sabem que seu plano terminará em desastre.
O filme preserva essa lógica, mas encontra humanidade dentro dela. Pela primeira vez, sua incapacidade de desistir não é apenas preparação para a próxima gag. É aquilo que permite ao advogado confrontar o próprio medo. Enquanto um homem evita tentar para não precisar descobrir se é capaz de vencer, o Coiote se entrega completamente a cada nova tentativa mesmo possuindo uma quantidade esmagadora de evidências de que o universo o odeia.
São dois personagens definidos pelo fracasso, mas apenas um deles aprendeu a sobreviver a ele.
Will Forte é uma escolha especialmente boa para esse tipo de protagonista. Existe algo em sua expressão que transmite simultaneamente exaustão, gentileza e a suspeita de que ele tomou todas as decisões erradas disponíveis. O ator sabe ser ridículo sem transformar o personagem numa piada ambulante. Seu advogado pode ser patético, inseguro e frequentemente incapaz de controlar a situação, mas nunca parece cínico demais para poder eventualmente acreditar que aquele processo realmente importa.
Essa sinceridade sustenta a relação com o Coiote. Ele continua sendo uma criatura neurótica, excessivamente confiante em planos impossíveis e provavelmente incapaz de abandonar a perseguição ao Papa-Léguas por motivos que nem ele compreenderia. No entanto, seus gestos, expressões e cicatrizes contam uma história que o advogado gradualmente aprende a levar a sério.
Pode parecer uma conquista modesta para um filme cujo protagonista vem sendo atropelado desde 1949, mas fazer o público acreditar emocionalmente num processo movido por um personagem de desenho animado exige um equilíbrio bastante delicado. Coyote vs. Acme nunca deixa de tratar a situação como comédia, mas também não utiliza a ironia como desculpa para evitar qualquer sentimento verdadeiro.
A própria estrutura de uma comédia de tribunal ajuda a renovar o personagem. Em vez de simplesmente reproduzir durante duas horas a perseguição que todos conhecem, o roteiro transforma suas antigas aventuras em provas. Cada explosão pode ser uma demonstração de negligência. Cada manual de instruções levanta uma nova dúvida. Cada cicatriz representa uma compra anterior. O extenso catálogo da Acme deixa de ser apenas uma fonte de ferramentas absurdas e passa a funcionar como o registro de décadas de abuso corporativo.
As referências aos Looney Tunes não existem apenas para provocar reconhecimento. Elas são incorporadas à lógica do caso e ao mundo no qual ele acontece. Isso permite que o filme celebre a história desses personagens sem se transformar numa sucessão de piscadelas para adultos que cresceram assistindo aos desenhos.
Também existe uma alegria particular em assistir ao nosso mundo sendo obrigado a operar sob a lógica de um desenho animado. Essa combinação aparece no cinema com menos frequência do que deveria. A cada década, aproximadamente, surge algum filme disposto a aceitar que seres humanos e personagens animados podem compartilhar a tela sem que um deles precise funcionar apenas como efeito visual do outro.
Em Coyote vs. Acme, a realidade não serve somente como cenário para os Looney Tunes. Ela é contaminada por eles. Tribunais, ruas, escritórios e grandes empresas precisam aceitar que buracos podem ser pintados em paredes, objetos podem permanecer suspensos por alguns segundos antes de perceberem a gravidade e ferimentos terríveis podem desaparecer na cena seguinte.
O humor nasce justamente do compromisso com essas regras. O filme não para para explicar como tudo funciona porque, dentro daquele universo, a pergunta não faria sentido. É uma liberdade que permite ao longa construir sequências fisicamente inventivas sem perder sua narrativa.
Nem todas as combinações entre animação e atores reais funcionam igualmente bem. Alguns planos denunciam um orçamento ou um cronograma que não parecem acompanhar a ambição da produção. A iluminação nem sempre integra os personagens ao ambiente, certos movimentos possuem uma leveza artificial e, em alguns momentos, o Coiote parece flutuar sobre a imagem em vez de realmente ocupar aquele espaço.
Ainda assim, é revelador que essas imperfeições raramente destruam uma piada. O cuidado com a construção das gags e a expressividade do Coiote compensam boa parte da integração inconsistente. Mesmo quando o efeito não é inteiramente convincente, a personalidade permanece intacta.
Há também algo curioso na classificação de Coyote vs. Acme como filme infantil. Uma comédia de tribunal envolvendo responsabilidade civil, práticas empresariais abusivas e o desequilíbrio de poder entre um consumidor e uma multinacional não é exatamente o conceito que costuma surgir quando executivos discutem entretenimento para crianças.
Talvez seja justamente por isso que funcione. O filme não trata o público mais jovem como incapaz de acompanhar uma história que envolve argumentos, provas e interesses corporativos. Ele oferece perseguições, quedas e explosões, mas também apresenta ideias que podem permanecer depois das risadas. Crianças talvez não saiam do cinema preparadas para discutir jurisprudência sobre produtos defeituosos, porém compreenderão imediatamente que uma empresa poderosa está tentando escapar das consequências do mal que causou. David contra Golias não precisa de tradução.
A história de Coyote vs. Acme fora da tela não pode ser separada da experiência de assisti-lo. O filme estava pronto. Artistas, animadores, técnicos, atores e roteiristas haviam realizado seu trabalho. Pessoas que participaram de sessões antecipadas reagiram com entusiasmo. Mesmo assim, a Warner Bros. considerou mais vantajoso impedir seu lançamento e utilizar a produção como baixa contábil.
Não se tratava de cancelar um projeto antes que centenas de pessoas dedicassem anos a ele. A obra já existia. A intenção era apagá-la deliberadamente, impedindo que o público pudesse julgá-la por conta própria.
A prática é terrível não apenas porque desperdiça dinheiro ou desrespeita profissionais. Ela estabelece que uma empresa pode concluir uma obra e depois decidir que sua inexistência possui maior valor financeiro do que sua existência. Filmes deixam de ser trabalhos criativos realizados por pessoas e tornam-se números que podem ser removidos de um relatório quando isso for conveniente.
O destino quase imposto a Coyote vs. Acme é ainda mais revoltante porque o resultado está longe de ser uma catástrofe que justificaria o constrangimento do estúdio. Não estamos diante de um desastre incompreensível que escapou de algum laboratório hollywoodiano. É uma comédia consistentemente divertida, cheia de referências inteligentes, construída com evidente afeto pelos Looney Tunes e capaz de encontrar uma quantidade surpreendente de coração em seu protagonista.
Isso não significa que o filme deva receber elogios apenas porque sobreviveu. Transformar sua quase destruição num escudo contra qualquer crítica seria outra maneira de deixar a história dos bastidores substituir o trabalho dos artistas. Coyote vs. Acme merece ser assistido porque é bom, não somente porque alguém tentou impedir que fosse visto.
Sua sobrevivência, contudo, importa. O público raramente possui controle sobre as decisões internas dos grandes estúdios, mas existe uma resposta bastante simples quando uma empresa tenta enterrar um filme e ele consegue escapar: podemos assistir. Não é necessário transformar a compra de um ingresso num grande gesto revolucionário. Basta reconhecer que bilheteria, audiência e repercussão são os idiomas que essas corporações compreendem com maior facilidade.
Se o filme fracassar, os executivos poderão alegar que estavam certos. Se encontrar seu público, a tentativa de apagá-lo passará a parecer exatamente aquilo que sempre foi: uma decisão estúpida.
Há uma bela justiça em permitir que o Coiote consiga sua vitória justamente dessa maneira. Ele passou a existência inteira perseguindo um objetivo que nunca alcançou, comprando soluções de uma empresa que lucrava com cada novo fracasso. Agora, depois de quase ser eliminado por outra corporação gigantesca, finalmente depende de nós para atravessar a linha de chegada.
O sucesso de uma comédia romântica costuma depender de fatores perfeitamente comuns, mas difíceis de fabricar. Química entre os protagonistas, calor humano, diálogos agradáveis e uma disposição geral do público para torcer pela felicidade de pessoas bonitas. Mas quando o roteiro adiciona uma premissa excessivamente elaborada, esse equilíbrio delicado corre o risco de desaparecer sob o peso das próprias regras.
Só por uma Noite possui quase todos os elementos intangíveis necessários. Monica Barbaro e Callum Turner formam um casal atraente, capaz de transmitir interesse sem se comportar como dois adolescentes. Nova York é fotografada em sua versão mais convidativa, com noites quentes, ruas movimentadas e a promessa de que alguma coisa especial pode acontecer antes do amanhecer. Existem até algumas piadas que provocam risadas verdadeiras, o que já coloca o filme acima de muitas comédias contemporâneas que parecem considerar a mera presença de uma referência cultural como substituta aceitável para humor.
O problema é que Só por uma Noite também possui uma premissa tão absurda que, depois de apresentada, torna-se impossível pensar em qualquer outra coisa.
Antes mesmo que os protagonistas tenham a oportunidade de se encontrar de maneira encantadora, uma série de letreiros explica que, três anos antes, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei determinando que relações sexuais fora do casamento seriam permitidas durante apenas uma noite por ano. Durante algumas horas, pessoas solteiras podem transar legalmente. Quando o relógio chega ao fim da contagem regressiva, a abstinência volta a ser obrigatória.
Em poucos segundos, aquilo que parecia caminhar pelo território de Harry e Sally – Feitos um para o Outro desvia na direção de O Conto da Aia por uma estrada construída por Uma Noite de Crime.
É uma mudança de tom que exige algum tempo de processamento. Não porque a ideia seja difícil de compreender, mas porque suas implicações são grandes demais para permanecerem em segundo plano. O que exatamente o governo considera uma relação sexual? Como ficam casais que vivem juntos sem oficializar a união? Quais mecanismos permitiram que uma legislação tão evidentemente inconstitucional fosse aprovada? O restante do planeta observa essa experiência distópica com horror? O filme não possui qualquer interesse nessas perguntas e isso acaba tornado a experiência de assistir o filme um tanto frustrante.
No centro desse delírio estão Allie e Owen, dois solteiros cansados do funcionamento mecânico dos relacionamentos contemporâneos. Enquanto a população de Nova York se prepara para aproveitar sua janela anual de legalidade como coelhos, os dois procuram algo que ultrapasse uma única transa. Eles querem companhia, intimidade e a possibilidade de que a pessoa encontrada naquela noite ainda esteja interessada na manhã seguinte.
A ação concentrada durante uma madrugada e o deslocamento frenético dos personagens pela cidade conferem a Só por uma Noite um pouco da energia de Depois de Horas, de Martin Scorsese. Allie e Owen atravessam festas, eventos para solteiros, vagões de metrô e situações progressivamente mais ridículas, enquanto o tempo diminui e Nova York parece reorganizar toda a sua infraestrutura em torno da urgência sexual.
A semelhança, no entanto, termina na correria. Depois de Horas transformava uma noite ruim numa descida surreal pelos medos e desejos de seu protagonista. Só por uma Noite deseja apenas utilizar sua contagem regressiva para empurrar o casal de uma situação pastelão até a seguinte. Quanto mais caótico se torna o trajeto, menos a experiência parece revelar sobre as pessoas que o percorrem.
Ainda assim, o filme funciona melhor quando abandona por alguns minutos sua grande invenção e permite que Barbaro e Turner conversem. As trocas dentro do metrô, os primeiros constrangimentos e a tentativa de descobrir o que cada um realmente procura possuem uma familiaridade agradável com o atual cenário dos aplicativos e encontros descartáveis. Os atores encontram pequenas hesitações, olhares e mudanças de postura que indicam uma atração mais interessante do que qualquer coisa imaginada pelo roteiro.
Se Só por uma Noite fosse apenas a história de duas pessoas atravessando Nova York e se apaixonando durante uma madrugada, talvez esses atores fossem suficientes. O roteiro de Travis Braun, porém, está permanentemente chamando atenção para o cenário político ao redor deles sem demonstrar coragem para lidar com nada do que apresenta.
A cidade está coberta por cartazes de utilidade pública incentivando cidadãos a denunciar vizinhos sexualmente ativos. Campanhas governamentais explicam quais atos são permitidos para pessoas casadas e proibidos para solteiros. Relógios instalados em táxis e vagões de metrô mantêm a população informada sobre quanto tempo resta antes que o celibato volte a ser lei. Muros recebem pichações com a palavra de ordem, enquanto a procura repentina por preservativos leva os personagens a medidas cada vez mais desesperadas.
Uma boa sátira não precisa oferecer uma tese acadêmica sobre cada alvo, mas precisa compreender o sistema que pretende ridicularizar. Humor político depende de alguma percepção sobre as condições que permitiram o surgimento daquele absurdo. Não basta colocar uma placa ridícula no cenário, fazer uma referência cultural atrasada e esperar que a proximidade entre realidade e ficção realize todo o trabalho.
Will Gluck filma esse mundo como se a própria premissa já constituísse uma piada completa. A existência de uma lei sexualmente repressiva nos Estados Unidos é considerada engraçada o bastante para dispensar qualquer investigação sobre quem se beneficiaria dela, quem seria atingido com maior violência ou por que parte da sociedade estaria disposta a apoiá-la. O resultado não é uma sátira sobre a América contemporânea, mas uma fantasia de estúdio que utiliza a aparência da provocação sem correr o risco de realmente provocar alguém.
Essa covardia política seria menos incômoda se o filme ao menos possuísse uma visão coerente sobre sexo e romance. Gradualmente, porém, Só por uma Noite revela uma perspectiva quase tão conservadora quanto a do governo que supostamente pretende ridicularizar.
As pessoas interessadas em sexo casual são tratadas como desesperadas, vazias ou ridículas. Relações abertas existem principalmente para terminar em culpa e arrependimento. A multidão ao redor dos protagonistas é representada como uma massa descontrolada, incapaz de distinguir desejo de conexão humana. Allie e Owen são considerados especiais porque procuram “algo verdadeiro”, como se intimidade emocional e prazer sexual fossem forças opostas disputando o mesmo espaço.
Não há nada de reacionário em desejar um relacionamento monogâmico ou em contar uma história sobre duas pessoas cansadas de encontros passageiros. Comédias românticas são, por natureza, construídas em torno da expectativa de que seus protagonistas escolherão um ao outro. O problema surge quando essa preferência particular é apresentada como prova de superioridade moral e todos os demais modelos de relacionamento são reduzidos a advertências.
O que deveria ser uma celebração do direito ao desejo transforma-se numa longa advertência sobre os riscos da cultura das ficadas. É como assistir a uma palestra de grupo de jovens na qual o pastor decidiu utilizar uma produção de grande orçamento para alertar os universitários sobre aquilo que acontece nos dormitórios. Em algum ponto do desenvolvimento, alguém parece ter enviado uma anotação de estúdio pedindo que a premissa fosse suficientemente ousada para atrair atenção, mas que a conclusão não assustasse os americanos conservadores.
O desfecho consolida a mensagem de que essa função perfeitamente comum da humanidade estaria impedindo as pessoas de construir vínculos significativos. Depois de passar um filme inteiro observando Nova York virar de cabeça para baixo por causa de uma política sexual absurda, chegamos essencialmente à moral de que talvez todos devessem ter esperado um pouco mais. O ingresso vem acompanhado de um anel de castidade?
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

