Superman carrega nos ombros uma das fantasias mais americanas já criadas.
Não apenas porque nasceu nos quadrinhos dos Estados Unidos, ou porque durante décadas foi associado àquela expressão clássica: “verdade, justiça e o estilo de vida americano”. Mas porque o personagem sempre representou uma espécie de mitologia nacional em sua forma mais pura. O estrangeiro que cai do céu, é criado no interior, incorpora os melhores valores de uma sociedade idealizada e decide usar um poder incomparável para fazer o bem. Com o tempo, os próprios quadrinhos perceberam que essa ideia precisava crescer para além de fronteiras específicas. O “American way” virou, em muitas versões, algo mais próximo de um “human way”, uma tentativa de transformar o Super-Homem não em símbolo de um país, mas em exemplo para o mundo.
E, curiosamente, isso funciona.
Basta lembrar como a imagem do Superman atravessa culturas tão diferentes, como se aquele uniforme azul e vermelho tivesse se tornado uma linguagem universal de esperança. Mesmo sendo um ícone profundamente americano, há algo nele que conversa com o mundo inteiro. Talvez porque, no fundo, a pergunta essencial do personagem nunca tenha sido “e se um alienígena extremamente poderoso vivesse entre nós?”, mas sim “e se a pessoa mais poderosa da Terra fosse também uma das mais bondosas?”.
É essa bondade fundamental que sustenta a versão de David Corenswet no novo DCU de James Gunn. Mesmo cercado por dúvidas, manipulações e temores sobre sua origem, o Superman de Gunn é bom. Não de forma ingênua ou acidental, mas como princípio dramático. Ele é o centro moral de um universo que ainda está tentando descobrir como lidar com pessoas extraordinárias.
Por isso, faz sentido que Supergirl escolha outro caminho.
Kara Zor-El não chega ao filme como uma variação feminina do primo. Ela não é a mesma ideia com outro uniforme. Inspirada em A Mulher do Amanhã, essa versão é apresentada como alguém marcada por perdas profundas, pela destruição de seu mundo, por uma vida ainda jovem, mas já atravessada por traumas que a deixaram mais áspera, mais impaciente e menos disposta a performar serenidade. Se Clark é o garoto do Kansas que aprendeu a acreditar no melhor das pessoas, Kara é alguém que viu o pior cedo demais.
E é aí que o faroeste entra.
Porque Supergirl é, em essência, um western espacial.
Não só pela iconografia, pela aridez de certos cenários ou pelo formato de jornada. Mas porque o faroeste sempre foi uma mitologia sobre fronteiras: o espaço entre civilização e barbárie, entre justiça e vingança, entre o que a lei promete e aquilo que a violência resolve mais rápido. Os melhores faroestes costumam viver nesse território ambíguo, acompanhando personagens que caminham na linha entre a decência e a brutalidade.
O movimento interessante do filme é que Kara não ocupa exatamente esse lugar de dúvida. Ela não é a personagem prestes a ser corrompida pela vingança. Em vez disso, ela acompanha alguém que está à beira desse abismo. Sua função na história é menos descobrir se ainda pode ser heroica e mais impedir que outra pessoa confunda dor com destino.
É uma dinâmica que aproxima o filme de Bravura Indômita, talvez a influência mais evidente por trás dessa história. Nas duas versões de Rooster Cogburn, há uma figura endurecida pela vida, meio decadente, meio lendária, guiando uma jovem movida por uma sede de justiça que facilmente poderia se transformar em algo mais sombrio. John Wayne interpretava Cogburn como um herói maior que a vida, rude, mas fundamentalmente decente. Jeff Bridges, na versão dos irmãos Coen, abraçava o lado mais sujo, bêbado, imprevisível e moralmente ambíguo do personagem.
A Kara de Milly Alcock parece existir em algum lugar entre essas duas tradições.
Ela ainda é maior que a vida. Ainda é idealista em seu núcleo. Ainda acredita, mesmo que de forma mais ferida, que há uma diferença entre justiça e crueldade. Mas Alcock permite que vejamos as rachaduras. Sua Supergirl é menos polida que o Superman de Corenswet, menos solar, mais impulsiva, com uma amargura que nunca apaga completamente sua compaixão. O trabalho dela é o grande alicerce do filme: uma performance forte, vulnerável e cheia de arestas, que faz Kara parecer ao mesmo tempo poderosa e emocionalmente exausta.
Craig Gillespie dirige essa jornada com competência e Ana Nogueira estrutura o roteiro ao redor de uma ideia muito boa: transformar Kara não em uma messias, nem em uma ameaça, mas em uma sobrevivente. Uma pessoa que ainda escolhe o bem, não porque desconhece a dor, mas justamente porque a conhece intimamente.
O problema é que o filme nem sempre dá a essa ideia o peso que ela merecia.
Há um ritmo apressado em Supergirl que impede algumas cenas de respirarem. A história avança com eficiência, talvez até demais, mas muitos momentos pediam mais silêncio, mais contemplação, mais impacto. Para um filme tão inspirado pelo western, faltou um pouco daquela paciência épica de Sergio Leone: os grandes planos, os duelos de olhar, a sensação de que cada escolha moral está sendo esculpida no tempo antes da violência explodir.
A ação é competente. Algumas sequências funcionam bem. Mas faltam mais momentos de arrepio, aqueles instantes de “é por isso que eu vim ao cinema”. Curiosamente, a HQ original tinha muitos desses quadros grandiosos, com Kara sendo vista pela perspectiva de Ruthye como uma figura quase mítica, uma heroína imensa atravessando um universo cruel. O filme entende essa ideia, mas raramente a transforma em imagens tão poderosas quanto poderia.
E já que “Supergirl” nem sempre encontra essa dimensão épica, ao menos poderia compensar com mais personalidade nos momentos leves. É aqui que o filme mais parece operar dentro de uma espécie de “modo James Gunn”, mas como uma versão menos afiada do original. Há personagens excêntricos, humor seco, criaturas estranhas, pequenas quebras de expectativa e diálogos tentando soar irreverentes. Nada chega a ser ruim ou constrangedor, mas também falta aquele tempero a mais: uma fala realmente marcante, uma troca mais esperta, uma piada que revele personagem, uma sacada de roteiro que faça a cena ganhar outra camada.
O resultado é curioso. “Supergirl” tem momentos divertidos, mas raramente é tão engraçado quanto parece querer ser. O filme carrega a estética de um universo moldado por Gunn, mas nem sempre encontra o mesmo domínio de ritmo, timing e estranheza emocional que torna os melhores trabalhos dele tão particulares. Em vez de piadas que parecem nascer naturalmente dos personagens, algumas cenas soam como aproximações de um estilo já conhecido, só que com menos precisão.
Isso não compromete Milly Alcock, que segue sendo o grande acerto do filme. Pelo contrário: reforça a sensação de que há ainda mais a ser explorado nessa Kara quando ela estiver em um material mais afiado. A esperança, nesse sentido, é que a Continuação de “Superman” escrita e dirigida pelo próprio James Gunn, saiba servir melhor essa personagem, por que há algo muito coerente na forma como Supergirl se encaixa no novo DCU.
James Gunn parece interessado em reconstruir esses personagens a partir de uma pergunta simples, mas essencial: o que significa escolher o bem em um mundo que oferece tantos motivos para desistir? Em Superman, essa resposta vinha da bondade natural de Clark. Em Supergirl, ela vem de uma ferida. Kara não é boa porque a vida foi gentil com ela. Kara é boa apesar de tudo que perdeu.
Isso torna a personagem mais interessante do que uma simples contraparte sombria do primo. Ela não está ali para negar o Superman, mas para ampliar o que esse símbolo pode significar. Se Clark representa a esperança preservada, Kara representa a esperança sobrevivente. Menos limpa. Menos fácil. Talvez menos confortável. Mas ainda esperança.
E, por isso, mesmo com seus problemas de ritmo e impacto, Supergirl está longe de ser um tropeço para o novo universo da DC. Pelo contrário: é mais uma peça promissora em uma visão que parece entender que heroísmo não precisa ser cínico para ser complexo.
Milly Alcock sai do filme como uma das grandes apostas desse universo. Sua Kara tem força, dor, humor seco e uma humanidade que atravessa até os momentos em que o roteiro poderia deixá-la apenas como arquétipo. Dá vontade de vê-la novamente, especialmente ao lado do Superman de David Corenswet em Man of Tomorrow.
Porque, se Superman olha para o céu e vê uma promessa, Supergirl olha para o mesmo céu e vê tudo que perdeu.
O que faz dela uma heroína não é ignorar essa diferença.
É continuar voando mesmo assim.
Afinal, ainda vale a pena acreditar que a empatia pode mudar alguma coisa?
É uma pergunta que parece cada vez mais ingênua num mundo em que redes sociais recompensam indignação, a política se alimenta da polarização e a desconfiança parece ser o idioma universal. Talvez justamente por isso Steven Spielberg tenha decidido voltar ao cinema de ficção científica com um filme que, no fundo, não fala sobre alienígenas, mas sobre pessoas.
Dia D trata da tentativa de vazamento de imagens que comprovam o primeiro contato da humanidade com inteligências extraterrestres. A partir disso, o filme acompanha um grupo de pessoas determinado a tornar isso público, enquanto são perseguidos por aqueles que temem as consequências dessa revelação. A pergunta principal que move o filme é: Como reagiríamos diante da maior descoberta da história? Com curiosidade? Com medo? Ou simplesmente procurando uma forma de transformá-la em mais uma guerra política?
É justamente nessa pergunta que Spielberg encontra o coração do filme. A ideia de que a empatia talvez seja nossa maior ferramenta evolutiva atravessa toda a narrativa. Existe um certo idealismo nisso, um otimismo muito característico do diretor. E entendo perfeitamente quem ache essa visão ingênua. Mas talvez ingenuidade não seja exatamente o problema dos nossos tempos. Talvez o problema seja justamente o oposto.
Infelizmente, o roteiro escrito por Spielberg ao lado de David Koepp não está à altura dessas ideias. A trama frequentemente simplifica discussões filosóficas muito interessantes e, em alguns momentos, infantiliza conflitos que poderiam ter muito mais peso. Há uma sensação constante de que o filme prefere respostas fáceis a perguntas difíceis.
Ainda assim, basta Spielberg assumir o controle da encenação para lembrar por que ele continua sendo um dos maiores diretores da história do cinema.
É impressionante observar alguém com quase oitenta anos filmando com tamanha energia e domínio da linguagem cinematográfica. Informações são transmitidas através de reflexos, movimentos de câmera elaborados, enquadramentos que mudam completamente o significado de uma cena e uma condução impecável. Spielberg continua dirigindo suspense como poucos, transformando algo extremamente complexo em uma experiência que parece simples e natural.
Existe uma sequência envolvendo um trem que sintetiza isso perfeitamente. É daquelas cenas em que você percebe cada decisão de direção funcionando em perfeita harmonia: posicionamento da câmera, montagem, som, geografia da ação. Um espetáculo técnico que prende a atenção do início ao fim.
O elenco também ajuda bastante. Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo entregam performances excelentes, sustentando o lado humano da história mesmo quando o roteiro tropeça. Há ainda uma participação importante de Courtney Grace como uma jornalista que funciona quase como a consciência emocional do filme, ajudando o espectador a processar o tamanho daquilo que está acontecendo.
Nem tudo funciona visualmente. Algumas imagens que deveriam parecer registros históricos foram excessivamente manipuladas por computação gráfica e acabam perdendo justamente aquilo que deveriam transmitir: autenticidade. Em vez de convencer, certos momentos chamam atenção para o próprio efeito digital, enfraquecendo parte do impacto dramático.
Mesmo assim, Spielberg guarda o melhor para o final.
Sem entrar em spoilers, o desfecho abandona qualquer preocupação com realismo estrito para transformar o primeiro contato em algo simultaneamente científico e espiritual. É um encerramento profundamente sentimental, embalado por uma das melhores trilhas que John Williams compôs nos últimos anos e por uma sucessão de imagens que pertencem àquela categoria muito particular de cenas que só Spielberg parece conseguir construir.
O filme termina deixando uma pergunta curiosa. Se uma verdade capaz de mudar a humanidade finalmente fosse revelada... ela realmente mudaria alguma coisa?
O meu lado mais cínico responde imediatamente que não. Que as pessoas encontrariam um jeito de negar, distorcer ou transformar tudo em disputa ideológica.
Mas gosto que Spielberg ainda escolha acreditar no contrário.
Num momento em que tantos filmes parecem fascinados pelo pessimismo e pela ideia de que estamos condenados ao pior, Dia D ousa defender que comunicação, curiosidade e compaixão ainda têm algum valor. Talvez isso seja idealista. Talvez seja até ingênuo.
Mas depois de tantos anos vendo o cinema apostar no cinismo como sinônimo de maturidade, foi bom encontrar um diretor disposto a lembrar que a esperança também pode ser uma forma de coragem.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

