A temporada de premiações está chegando ao seu momento decisivo, e o Oscar de 2026 promete uma disputa particularmente interessante. Entre dramas históricos, experimentos narrativos e performances arrebatadoras, algumas categorias já começam a desenhar seus favoritos, enquanto outras seguem abertas até o último momento. Vamos analisar quem chega mais forte na reta final da corrida pela estatueta.
Melhor Roteiro — Original e Adaptado
Poucas categorias revelam tanto sobre um filme quanto o roteiro. É ali que nascem os diálogos memoráveis, os personagens complexos e as estruturas narrativas capazes de sustentar toda uma produção.
Na categoria de Roteiro Adaptado, um dos trabalhos mais comentados do ano foi o de Guillermo del Toro, que trouxe nova vida a uma história amplamente conhecida com sua versão de Frankenstein. Mesmo partindo de um material clássico, o diretor encontrou formas de reinventar o drama e explorar novas camadas emocionais da narrativa.
Ainda assim, tudo indica que o prêmio deve ir para Hamnet, resultado da colaboração entre a diretora Chloé Zhao e a autora do romance original, Maggie O’Farrell. O roteiro se destaca por sua abordagem sensorial e atmosférica, construindo uma ligação profundamente comovente entre tragédia pessoal e criação artística, uma reflexão delicada sobre como a arte pode nascer da dor.
Já em Roteiro Original, um dos textos mais comentados da temporada é o de Marty Supreme. Em vez de seguir a tradicional trajetória de redenção tão comum no cinema americano, o filme aposta em algo mais incômodo: uma história sobre perseverança tóxica e obsessão pelo sucesso. O resultado é um roteiro intenso, caótico e cheio de energia, conduzido por um ritmo narrativo quase vertiginoso.
Melhor Atriz
A categoria de Melhor Atriz este ano reúne algumas das performances mais poderosas da temporada.
Um dos grandes destaques foi Emma Stone em Bugonia. O filme coloca sua personagem em uma situação quase insuportavelmente desesperadora, o que poderia facilmente se tornar uma experiência difícil de acompanhar. Mas Stone sustenta tudo com uma presença magnética. Mesmo quando sua personagem está em desvantagem absoluta, a atriz domina cada cena com força e controle.
Também merece destaque Rose Byrne, que entrega uma atuação intensa interpretando uma personagem profundamente desagradável. É aquele tipo de performance que dificilmente vence, mas que representa a clássica indicação “uma honra estar aqui”, permitindo à atriz explorar nuances dramáticas raramente vistas em sua carreira.
Apesar da concorrência forte, a grande favorita da categoria parece ser Jessie Buckley, por Hamnet. A atriz venceu praticamente todos os prêmios da temporada até agora com uma interpretação feroz e emocionalmente crua, que evita qualquer sentimentalismo fácil.
Uma pena para Renate Reinsve, de Valor Sentimental. Em muitos anos, sua atuação provavelmente seria suficiente para garantir a vitória, mas a competição deste ano está especialmente acirrada.
Melhor Ator
Entre os homens, a disputa talvez seja a mais imprevisível da noite.
O brasileiro Wagner Moura surge como um dos nomes fortes da categoria após vencer o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, repetindo o feito de Fernanda Torres no ano passado. Mas a história recente mostra que isso não garante vitória no Oscar, afinal, os votantes do Globo de Ouro não são os mesmos da Academia.
Outro concorrente de peso é Timothée Chalamet, por Marty Supreme. Ele venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical, além de levar também o BAFTA e o Critics Choice Award, o que o coloca como favorito em muitas previsões.
Mas a corrida ganhou um novo elemento quando Michael B. Jordan, que interpreta irmãos gêmeos em Pecadores, venceu o prêmio do Sindicato dos Atores, um dos termômetros mais importantes da temporada, já que muitos membros do sindicato também votam no Oscar.
Ainda assim, tudo indica que Chalamet segue como favorito. Wagner Moura aparece como um forte terceiro colocado, mas a disputa ainda pode surpreender.
Melhor Diretor
A categoria de direção este ano reúne alguns dos trabalhos mais impressionantes da temporada, embora seja difícil não lamentar a ausência de Kleber Mendonça Filho, cujo trabalho em Agente Secreto merecia maior reconhecimento.
Entre os indicados, o nome mais comentado é Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra. O diretor venceu o prêmio do Sindicato dos Diretores (DGA), considerado um dos maiores termômetros do Oscar.
Além disso, Anderson é um dos cineastas mais respeitados de sua geração, responsável por clássicos modernos como Sangue Negro, O Mestre e Boogie Nights. Apesar de já ter sido indicado ao Oscar diversas vezes, ele nunca venceu e a Academia frequentemente gosta de premiar grandes nomes que passaram muito tempo sem reconhecimento, como aconteceu com Martin Scorsese.
Ainda assim, não seria impossível ver Chloé Zhao surpreendendo novamente com Hamnet. Sua direção é delicada, sensível e profundamente emocional, exatamente o tipo de trabalho que costuma conquistar a Academia.
Mas, neste momento, tudo aponta para Paul Thomas Anderson como o favorito.
Melhor Filme
A principal categoria da noite costuma reunir não apenas os melhores filmes, mas também aqueles que melhor representam o momento do cinema.
Em qualquer outro ano, Hamnet provavelmente seria o vencedor. O filme reúne muitos dos elementos que a Academia costuma premiar: um drama de época, direção autoral respeitada, temática artística e metalinguística e uma forte carga emocional.
Outro grande concorrente é Pecadores, um filme original que combina sucesso de público com relevância temática. Em uma época em que Hollywood busca desesperadamente histórias originais que ainda consigam atrair espectadores, o filme se tornou um verdadeiro símbolo do que a indústria precisa para sobreviver. Não por acaso, ele liderou a temporada com 16 indicações.
Mas há um detalhe curioso na história do Oscar: filmes com números recordes de indicações muitas vezes acabam levando menos prêmios do que se imagina, quase como se o reconhecimento em si já fosse a recompensa.
Por isso, o grande favorito da noite parece ser Uma Batalha Após a Outra. O filme venceu o prêmio do Sindicato dos Produtores, um dos indicadores mais confiáveis da categoria principal.
Além disso, o longa de Paul Thomas Anderson dialoga diretamente com o clima político atual dos Estados Unidos, algo que frequentemente pesa nas decisões da Academia. Somado ao fato de que Anderson nunca venceu um Oscar, o momento parece perfeito para que Hollywood finalmente reconheça um de seus cineastas mais reverenciados.
Se as tendências da temporada se confirmarem, 2026 pode finalmente ser o ano de Paul Thomas Anderson.
No fim das contas, a temporada do Oscar é sempre um jogo de expectativas, narrativas e momentos históricos. Prêmios anteriores ajudam a indicar tendências, mas a Academia frequentemente surpreende, seja premiando um desempenho inesperado, seja consagrando finalmente um artista que há anos parecia destinado à vitória.
Se as apostas atuais se confirmarem, 2026 pode entrar para a história como o ano em que Paul Thomas Anderson finalmente levou seu primeiro Oscar, consolidando uma carreira que já é considerada uma das mais importantes do cinema contemporâneo. Mas, como toda corrida ao Oscar nos lembra, até o envelope ser aberto, tudo ainda pode acontecer.
Os primeiros minutos de Valor Sentimental funcionam como uma declaração de intenções. Antes mesmo de conhecermos os personagens, vemos uma casa descrita como se fosse um ser vivo: um lugar que sente, que respira, que sofre quando é esvaziado. Em seguida, encontramos uma atriz à beira de um colapso antes de subir ao palco. Uma casa que guarda memórias. Uma mulher que precisa performar apesar do abismo interno. História, trauma, expressão e arte já estão entrelaçados ali, discretamente, preparando o terreno para um drama que ecoa Ingmar Bergman sem jamais se tornar refém de sua influência.
Depois de A Pior Pessoa do Mundo, Joachim Trier reafirma aqui seu lugar entre os grandes cineastas em atividade. Valor Sentimental é um filme que cresce aos poucos, como um romance literário que continua reverberando dias depois da leitura, por que ele não impõe seus temas, ele os infiltra.
No centro da história está Nora (Renate Reinsve, ainda mais impressionante do que no filme anterior do cineasta), uma atriz marcada por um abandono parental que nunca foi totalmente verbalizado. Sua mãe morreu recentemente, e o funeral reúne novamente a família na antiga casa de infância. É ali que retorna o pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um renomado diretor de cinema que não lança um filme há 15 anos. Ele deixou as filhas para viver em função da própria arte e agora surge com um pedido inesperado: escreveu um novo filme e quer Nora como protagonista.
Ela sequer aceita ler o roteiro.
O encontro entre os dois é uma das cenas mais impressionantes do ano. Skarsgård e Reinsve comunicam décadas de ressentimento através de pausas, microexpressões e mudanças sutis de tom. O roteiro nunca explicita totalmente as feridas do passado. E é justamente isso que o torna tão verossímil. Relações familiares não se sustentam apenas em grandes traumas; são feitas também de pequenas agressões acumuladas, de expectativas frustradas, de silêncios mal resolvidos.
Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), a irmã mais nova, segue outro caminho: historiadora, casada, mãe. Enquanto Nora representa a expressão artística, Agnes encarna a investigação histórica. É impossível ignorar a simetria. O filme sugere que arte e história são dois modos de lidar com a mesma coisa: a memória. O que guardamos? O que transformamos? O que inventamos para suportar o que foi real?
Quando Nora recusa o papel, Gustav oferece o projeto a uma atriz americana famosa, Rachel Kemp (Elle Fanning), que se encanta pelo roteiro. Trier então brinca com identidade, substituição e a tentativa de alguém viver a dor que não lhe pertence. Rachel é talentosa, dedicada, mas há algo que ela não consegue alcançar: a experiência. A dor que fundamenta o texto não é dela. E isso se revela com força em um ensaio onde o mesmo monólogo soa diferente e mais verdadeiro quando dito na língua original.
O que torna Valor Sentimental tão devastador não é um clímax melodramático, mas o acúmulo silencioso. Trier constrói emoção pela observação, não pelo exagero. Há momentos de humor, como a cena em que Gustav compra DVDs absolutamente inapropriados para o neto, que lembram que relações rompidas não são compostas apenas de tensão. Às vezes, um cigarro compartilhado pode reconstruir algo que palavras não conseguem.
Visualmente, o filme é elegante sem ser ostensivo. A fotografia fluida de Kasper Tuxen e a montagem precisa de Olivier Bugge Coutté mantêm um drama essencialmente falado em constante movimento. Trier divide a narrativa em capítulos marcados por cortes secos para o preto, como se estivéssemos folheando um romance.
Além de tudo isso, há um ponto fundamental que atravessa toda a obra: o filme dentro do filme não é “sobre” uma única coisa. O longa que Gustav escreve parece tratar de sua própria mãe, mas é igualmente sobre Nora. E sobre o neto. E sobre ele mesmo. O mesmo vale para Trier. Assim como em “Hamnet”, que também observava como a arte pode nascer daquilo que não conseguimos dizer em voz alta, aqui a criação artística funciona como território de deslocamento. Um espaço onde sentimentos não elaborados encontram forma.
Se em “Hamnet” a tragédia íntima reverberava em uma obra eterna, em “Valor Sentimental” o processo é mais direto e quase dolorosamente consciente: Gustav escreve para entender o que perdeu, para tocar o que não soube proteger, para ensaiar um pedido de desculpas que nunca conseguiu verbalizar.
No fundo, Valor Sentimental fala sobre o que significa criar. Criar um filho. Criar uma obra. Criar uma memória. Quando colocamos algo no mundo, perdemos o controle sobre ele. O artista precisa aceitar que sua criação viverá além de sua intenção e que talvez revele mais sobre ele do que gostaria.
E é nesse ponto que o filme mais claramente dialoga com “Hamnet”: ambos entendem a arte como um recipiente para o indizível. Quando as palavras falham entre marido e esposa, entre pai e filha, entre passado e presente, resta a criação. A obra não apaga a dor, mas a reorganiza. Não resolve o trauma, mas o transforma em algo que pode ser visto, compartilhado, atravessado.
A força do filme está nesse espaço liminar entre intenção e recepção. Entre o que Gustav acha que está oferecendo como gesto de reconciliação e o que Nora enxerga como invasão. Entre o que a arte pretende e o que ela provoca. O desfecho, quase sem palavras, atinge com a simplicidade de algo inevitável.
Valor Sentimental não é apenas um drama familiar sobre abandono. É um filme sobre como tentamos eternizar aquilo que já perdemos e sobre como, às vezes, só conseguimos amar plenamente aquilo que fomos capazes de transformar em arte.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

