Afinal, ainda vale a pena acreditar que a empatia pode mudar alguma coisa?
É uma pergunta que parece cada vez mais ingênua num mundo em que redes sociais recompensam indignação, a política se alimenta da polarização e a desconfiança parece ser o idioma universal. Talvez justamente por isso Steven Spielberg tenha decidido voltar ao cinema de ficção científica com um filme que, no fundo, não fala sobre alienígenas, mas sobre pessoas.
Dia D trata da tentativa de vazamento de imagens que comprovam o primeiro contato da humanidade com inteligências extraterrestres. A partir disso, o filme acompanha um grupo de pessoas determinado a tornar isso público, enquanto são perseguidos por aqueles que temem as consequências dessa revelação. A pergunta principal que move o filme é: Como reagiríamos diante da maior descoberta da história? Com curiosidade? Com medo? Ou simplesmente procurando uma forma de transformá-la em mais uma guerra política?
É justamente nessa pergunta que Spielberg encontra o coração do filme. A ideia de que a empatia talvez seja nossa maior ferramenta evolutiva atravessa toda a narrativa. Existe um certo idealismo nisso, um otimismo muito característico do diretor. E entendo perfeitamente quem ache essa visão ingênua. Mas talvez ingenuidade não seja exatamente o problema dos nossos tempos. Talvez o problema seja justamente o oposto.
Infelizmente, o roteiro escrito por Spielberg ao lado de David Koepp não está à altura dessas ideias. A trama frequentemente simplifica discussões filosóficas muito interessantes e, em alguns momentos, infantiliza conflitos que poderiam ter muito mais peso. Há uma sensação constante de que o filme prefere respostas fáceis a perguntas difíceis.
Ainda assim, basta Spielberg assumir o controle da encenação para lembrar por que ele continua sendo um dos maiores diretores da história do cinema.
É impressionante observar alguém com quase oitenta anos filmando com tamanha energia e domínio da linguagem cinematográfica. Informações são transmitidas através de reflexos, movimentos de câmera elaborados, enquadramentos que mudam completamente o significado de uma cena e uma condução impecável. Spielberg continua dirigindo suspense como poucos, transformando algo extremamente complexo em uma experiência que parece simples e natural.
Existe uma sequência envolvendo um trem que sintetiza isso perfeitamente. É daquelas cenas em que você percebe cada decisão de direção funcionando em perfeita harmonia: posicionamento da câmera, montagem, som, geografia da ação. Um espetáculo técnico que prende a atenção do início ao fim.
O elenco também ajuda bastante. Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo entregam performances excelentes, sustentando o lado humano da história mesmo quando o roteiro tropeça. Há ainda uma participação importante de Courtney Grace como uma jornalista que funciona quase como a consciência emocional do filme, ajudando o espectador a processar o tamanho daquilo que está acontecendo.
Nem tudo funciona visualmente. Algumas imagens que deveriam parecer registros históricos foram excessivamente manipuladas por computação gráfica e acabam perdendo justamente aquilo que deveriam transmitir: autenticidade. Em vez de convencer, certos momentos chamam atenção para o próprio efeito digital, enfraquecendo parte do impacto dramático.
Mesmo assim, Spielberg guarda o melhor para o final.
Sem entrar em spoilers, o desfecho abandona qualquer preocupação com realismo estrito para transformar o primeiro contato em algo simultaneamente científico e espiritual. É um encerramento profundamente sentimental, embalado por uma das melhores trilhas que John Williams compôs nos últimos anos e por uma sucessão de imagens que pertencem àquela categoria muito particular de cenas que só Spielberg parece conseguir construir.
O filme termina deixando uma pergunta curiosa. Se uma verdade capaz de mudar a humanidade finalmente fosse revelada... ela realmente mudaria alguma coisa?
O meu lado mais cínico responde imediatamente que não. Que as pessoas encontrariam um jeito de negar, distorcer ou transformar tudo em disputa ideológica.
Mas gosto que Spielberg ainda escolha acreditar no contrário.
Num momento em que tantos filmes parecem fascinados pelo pessimismo e pela ideia de que estamos condenados ao pior, Dia D ousa defender que comunicação, curiosidade e compaixão ainda têm algum valor. Talvez isso seja idealista. Talvez seja até ingênuo.
Mas depois de tantos anos vendo o cinema apostar no cinismo como sinônimo de maturidade, foi bom encontrar um diretor disposto a lembrar que a esperança também pode ser uma forma de coragem.
Quando foi que os filmes de paródia desapareceram? Durante boa parte dos anos 2000, parecia impossível escapar deles.
Todo mês surgia alguma nova paródia chegando aos cinemas. Algumas boas. Muitas ruins. Quase todas lucrativas. Era uma época em que Hollywood ainda acreditava que uma piada sobre o filme que estreou na semana passada podia sustentar uma produção inteira.
E, por mais que hoje seja fácil torcer o nariz para esse tipo de humor, existe uma razão para tanta gente guardar carinho por franquias como Todo Mundo em Pânico. Elas pertencem a um momento muito específico da cultura pop. Um momento em que todos assistiam às mesmas coisas, reconheciam as mesmas referências e entendiam imediatamente por que era engraçado ver um assassino mascarado tropeçando na própria faca.
Revisitar os primeiros filmes da série hoje é uma experiência curiosa. Algumas piadas continuam funcionando perfeitamente. Outras envelheceram como leite deixado no sol. Muitas dependem de um conhecimento tão específico do contexto cultural da época que provavelmente não fazem o menor sentido para alguém que não viveu aqueles anos.
Mas talvez isso faça parte do charme. Afinal, Todo Mundo em Pânico nunca foi exatamente uma coleção de grandes roteiros ou sátiras sofisticadas. Era uma franquia construída sobre velocidade. Uma avalanche de referências, absurdos, piadas visuais e humor físico tão frenético que, quando uma gag fracassava, outra já estava chegando cinco segundos depois.
Mais de vinte anos após o auge da série, Todo Mundo em Pânico 6 entende exatamente isso.
O retorno de Anna Faris como Cindy Campbell e Regina Hall como Brenda é a prova mais clara. A química entre as duas continua funcionando de maneira impressionante. Existe uma naturalidade na dinâmica delas que faz parecer que o tempo simplesmente não passou. O mesmo vale para Marlon e Shawn Wayans, de volta aos papéis de Shorty e Ray depois de décadas afastados da franquia. Inclusive, o próprio histórico turbulento dos irmãos com a série acaba virando alvo de algumas das melhores piadas do filme.
E faz sentido que esse retorno aconteça justamente agora. O terror atravessa uma excelente fase. Nos últimos anos tivemos o renascimento de franquias como Halloween e Pânico, além do surgimento de novos fenômenos como Corra, A Substância e Terrifier e tantos outros. Existe novamente um repertório compartilhado de filmes suficientemente populares para serem parodiados.
O resultado é um longa que usa produções recentes como matéria-prima sem depender exclusivamente delas. As melhores sequências não são aquelas que apenas apontam para a tela e dizem "lembra disso?". Elas pegam a referência e transformam em algo próprio. As paródias de Corra e A Hora do Mal, por exemplo, estão entre os momentos mais engraçados justamente porque usam os filmes originais apenas como ponto de partida para situações cada vez mais absurdas.
Nem tudo funciona, claro. Algumas piadas parecem existir apenas porque alguém reconhece a referência. O personagem Doofy, por exemplo, protagoniza algumas das sequências mais arrastadas do filme. E há momentos em que a narrativa simplesmente trava para lembrar ao público de outro filme, sem encontrar um ângulo particularmente engraçado para isso.
Mas talvez esse seja um gênero que precise ser julgado por critérios diferentes.
Comédias como essa nunca sobreviveram porque cada piada era brilhante. Elas sobrevivem por volume.
É uma matemática simples. Se uma gag não funciona, a próxima está logo ali. Depois outra. E outra. E outra. O importante é a frequência dos acertos.
Nesse aspecto, Todo Mundo em Pânico 6 funciona melhor do que eu esperava.
Os momentos mais engraçados são justamente os mais estúpidos. As piadas que acontecem ao fundo da cena. Os detalhes quase escondidos. Uma excelente brincadeira envolvendo a franquia Premonição. Um confronto completamente ridículo entre Cindy e Ghostface que utiliza objetos improváveis como armas. O tipo de humor que sabe exatamente o quão idiota é e decide abraçar isso sem qualquer vergonha.
Curiosamente, o filme também é menos obcecado por guerras culturais do que a campanha de marketing sugeria.
Durante meses, parecia que o principal alvo da produção seria a chamada cultura woke da lacração. No entanto, isso ocupa muito menos espaço do que se imaginava. O espírito continua sendo o mesmo de sempre: zombar de todo mundo ao mesmo tempo. O humor pode ser grosseiro, exagerado e ocasionalmente polêmico, mas raramente parece motivado por algum tipo de ressentimento. A regra continua sendo mirar em qualquer coisa que esteja ao alcance.
E então chega o ato final. Sem revelar detalhes, basta dizer que ele se transforma em algo inesperadamente mais ambicioso do que o restante do filme. O que começa como mais uma investigação envolvendo um assassino mascarado acaba se transformando numa espécie de autópsia da própria franquia Todo Mundo em Pânico, da franquia Pânico original e do conceito de franquias em geral. Um comentário metalinguístico sobre paródias, sequências, nostalgia e sobre o próprio ato de reciclar fórmulas antigas de Hollwyood. O mais impressionante é que esse momento funciona.
Principalmente porque surge depois de quase duas horas de humor escrachado e cenas que parecem ter sido escritas por adolescentes hiperativos. Quando o filme f inalmente decide refletir sobre sua própria existência, o contraste torna a ideia muito mais divertida do que deveria ser.
O desfecho ainda encontra espaço para prestar homenagem tanto à franquia Pânico quanto à própria história de Todo Mundo em Pânico, encerrando tudo com uma sinceridade inesperada para uma série que passou décadas fazendo piada de absolutamente qualquer coisa.
No fim das contas, um filme como esse é medido por uma pergunta extremamente simples: quantas vezes ele fez você rir? A resposta, para mim, foi "bastante".
Talvez não tanto quanto quando eu tinha doze anos e assisti ao primeiro filme pela primeira vez. Talvez porque eu tenha mudado. Talvez porque o mundo tenha mudado. Talvez porque algumas piadas inevitavelmente percam força com o tempo. Mas eu ri.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

