“Socorro!” é exatamente o tipo de filme que anuncia suas intenções antes mesmo de mostrar sangue. Nos primeiros minutos, Sam Raimi já deixa claro que está de volta ao território que domina como poucos: o do exagero calculado, da comédia nervosa, do desconforto que provoca riso e, logo depois, repulsa. Seu primeiro filme para maiores de 18 anos em 25 anos não é uma máquina de caos absoluto como alguns de seus trabalhos mais famosos, mas é um exercício perversamente divertido de controle de tom, personagens e tensão.
A protagonista Linda Liddle, vivida por Rachel McAdams, é apresentada como alguém plenamente competente, mas sistematicamente ignorada. Ela trabalha em uma empresa de consultoria onde homens promovem outros homens, onde promoções são promessas vazias e onde qualquer mulher que não se encaixe em um padrão estético confortável vira invisível ou um constrangimento. Raimi enfatiza isso com sua câmera cruel: closes excessivos, olhares julgadores e pequenas humilhações cotidianas que dizem muito mais do que diálogos explicativos jamais poderiam.
Seu novo chefe, Bradley, interpretado por Dylan O’Brien, é o arquétipo do herdeiro corporativo: simpático em público, mesquinho nos bastidores, sempre pronto para empurrar Linda para fora do caminho com um sorriso no rosto. Quando os dois embarcam juntos em uma viagem de trabalho, que é vendida como mais uma oportunidade vazia, o filme rapidamente abandona o drama corporativo e abraça o absurdo: um acidente aéreo os deixa presos em uma ilha deserta, forçando uma convivência que redefine, pouco a pouco, a dinâmica de poder entre eles.
A partir daí, “Socorro!” se transforma em um jogo psicológico de sobrevivência, onde Raimi se diverte menos em esconder seus caminhos narrativos e mais em confundir o espectador sobre para quem exatamente estamos torcendo. Linda é, sem dúvida, a figura mais empática, especialmente quando assume o controle da situação e passa a dominar habilidades que antes só observava à distância, mas o filme se recusa a oferecer uma catarse simples ou um discurso de empoderamento confortável. Raimi tem uma relação espinhosa com suas protagonistas femininas, e isso aparece aqui sem qualquer suavização.
Há ecos claros de “Arraste-me para o Inferno” nessa abordagem. Assim como naquele filme, homens agem de forma claramente imoral, mas a narrativa parece igualmente fascinada e desconfiada das transgressões femininas. Linda começa como a “nerd do escritório” que luta para avançar na carreira, passa por uma fase de adaptação quase didática e, quando finalmente abraça sua capacidade de violência e sobrevivência, o filme observa essa transformação com uma mistura desconfortável de admiração e punição. É um olhar provocador, imperfeito e deliberadamente ambíguo.
Nada disso, no entanto, diminui o prazer do espetáculo. “Socorro!” é brutal quando precisa ser, aposta em bons jump scares, abraça o grotesco sem pudor e entrega imagens que só Raimi parece confortável em explorar. Não é um filme de terror puro, mas sim um exemplar sólido do terrir: subgênero que mistura horror e comédia, usando exagero, sátira e violência estilizada para transformar o macabro em entretenimento nervoso. Nesse campo, Raimi continua sendo o mestre absoluto.
O verdadeiro coração do filme está no duelo entre McAdams e O’Brien. Os dois trabalham em registros quase caricaturais, mas conseguem extrair nuances emocionais reais dessa convivência forçada. McAdams, em especial, impressiona ao construir uma personagem que evolui constantemente, alternando fragilidade, raiva, inteligência prática e, eventualmente, algo próximo da crueldade. Sua Linda não é uma heroína tradicional e o filme se beneficia enormemente disso.
No fim das contas, Socorro! parece um cruzamento improvável entre Louca Obsessão e Náufrago: um thriller de sobrevivência com humor ácido, crítica social torta e prazer genuíno em deixar o espectador desconfortável. Não é o Raimi mais descontrolado, mas é um Raimi afiado, consciente de suas obsessões e disposto a brincar com elas mais uma vez.
Se você é fã do diretor, especialmente de sua fase mais cruel e cômica, vai se sentir em casa.
Marty Supreme é um filme suado, explosivo, cruelmente engraçado, que avança em ritmo de colapso nervoso permanente. É cinema que vibra no limite da combustão. Cada cena parece prestes a desandar, e muitas delas efetivamente desandam, mas sempre de um jeito mais caótico do que você imaginava.
Sua cartada inicial é que a história não começa como um filme dos Safdie. E é exatamente aí que ele te pega. Por cerca de meia hora, tudo indica que estamos diante de um drama esportivo relativamente convencional: o jovem prodígio, o talento bruto, a promessa de ascensão. A câmera até se comporta. O ritmo parece controlado. Mas então, quase sem aviso, o filme implode essa ilusão e se revela como a comédia de erros mais delirante, sufocante e moralmente corrosiva que os Safdie já fizeram: uma mistura enlouquecida do ataque de ansiedade de “Bom Comportamento” com a espiral autodestrutiva de “Joias Brutas”, só que ainda mais agressiva, mais engraçada e mais desesperada. É de sair do cinema completamente atordoado.
No centro desse furacão está Timothée Chalamet, entregando algo que não soa exagero chamar de performance de uma vida. Não porque seja espalhafatosa, embora às vezes seja, mas porque é absurdamente segura. Chalamet sustenta Marty com uma confiança tão inabalável que dá a impressão de que esse personagem existe dentro dele há anos. É uma atuação calibrada no detalhe, sem vacilos, sem hesitação, movida por uma energia quase infinita. Marty nunca para. E Chalamet também não.
O mais fascinante é que Marty Supreme é, em muitos níveis, um filme sobre atuação. Sobre performance como forma de sobrevivência. Sobre mentiras que soam mais verdadeiras do que a verdade. Marty se apresenta ao mundo como um mito em construção e deixa isso explícito logo de cara, quando se define como “performer” em uma conversa casual que já carrega o DNA temático do filme inteiro. Ele mitologiza a própria vida porque não sabe existir de outro modo. Tudo é encenação, tudo é “pitch”, tudo é aposta. A realidade só interessa na medida em que pode ser dobrada à força da sua fantasia.
Há também um subtexto poderoso e doloroso sobre memória e permanência. Marty é um jovem judeu vivendo à sombra de uma violência histórica que ecoa silenciosamente em sua obsessão por legado. O gesto quase absurdo de arrancar um fragmento das pirâmides para levar à mãe não é apenas delírio; é uma tentativa desesperada de afirmar que seu povo, sua história, sua existência não podem ser apagados. Marty quer ser grande não só por vaidade, mas porque precisa acreditar que o mundo vai lembrar dele. Que seu nome vai sobreviver. Que seu mito vai resistir ao esquecimento.
E é aqui que o filme se torna genuinamente perturbador.
Marty Supreme não é uma história de redenção. Não é sobre aprendizado. Não é sobre crescimento. É, como os melhores filmes do universo Safdie, a história de um homem incapaz de mudar. Um sujeito em guerra constante consigo mesmo, movido por uma combinação tóxica de narcisismo, insegurança patológica e fome por validação. Marty não amadurece. Ele consome. Ele passa pelas pessoas como um incêndio passa por uma casa. E o filme não suaviza isso. Pelo contrário: deixa muito claro que toda vida que Marty toca acaba em ruínas.
E ainda assim, você não consegue tirar os olhos dele.
Porque cinema permite isso. Um personagem pode ser profundamente detestável e ainda assim hipnotizante. Marty é alguém que erra o tempo todo, acerta por acidente, escapa por milímetros. E cada pequena vitória vem seguida de uma queda ainda maior. Seus sucessos diminuem. Seus fracassos crescem. O sonho permanece colossal. A realidade, cada vez mais estreita.
Tudo isso se encaixa perfeitamente na persona de Chalamet como astro. Diferente de outros atores que tentam esconder sua vocação para o espetáculo, ele abraça o fato de ser um vendedor de ideias, de personagens, de si mesmo. Seus papéis recentes parecem menos “interpretações” e mais apostas. Produtos impulsionados por uma fé quase messiânica em si próprio. Em Marty Supreme, o filme usa isso contra ele e a favor da obra. É um duelo entre ambição e sentido, entre vender o coração e perguntar por que alguém faria isso.
Visualmente, o filme é elétrico. A fotografia e o design de produção transformam 1952 em um delírio anacrônico, embalado por uma trilha sonora oitentista que não deveria funcionar, mas funciona perfeitamente, como se estivéssemos vendo um clássico dos anos 80 que escapou no tempo. Há ecos de “Bons Companheiros” e “O Gângster”: mitos americanos construídos sobre o sacrifício de tudo que é humano.
No fim, Marty Supreme é um mito moderno sobre o pacto faustiano da grandeza. Um filme sobre capitalismo como ritual de humilhação, sobre ambição como vício, sobre malandragem como condenação. Um retrato cruel, engraçado e desesperador de alguém que quer ser tudo, mas acaba sendo apenas um vazio em movimento.
Não é um filme confortável. Não é um filme edificante. Mas é avassalador.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

