A segunda parte da quinta temporada de Stranger Things funciona menos como uma escalada contínua de ação e mais como um ajuste emocional e narrativo antes do golpe final. Se o Volume 1 estava preocupado em reorganizar o tabuleiro após o caos deixado pela quarta temporada, este novo bloco de episódios se dedica a algo igualmente importante: destravar relações que haviam ficado estagnadas, encerrar ciclos afetivos e preparar os personagens, assim como o público, para um confronto que promete ser definitivo. É um encerramento cuidadoso para várias jornadas pessoais, ainda que fique claro que o Volume 3 precisará concentrar toda a sua energia na batalha final contra Vecna.
É verdade que há uma quantidade generosa de exposição nesses episódios. Cada um ultrapassa facilmente a marca de uma hora, com o sexto (e melhor) chegando perto dos 75 minutos. Mas isso nunca foi exatamente um desvio de rota para a série. Stranger Things sempre apostou em diálogos explicativos, mapas rabiscados, teorias jogadas na mesa e longas conversas sobre regras sobrenaturais. A diferença é que, aqui, os irmãos Duffer tentam justificar essa verborragia ao introduzir novas camadas de mitologia do Mundo Invertido e uma dimensão inédita, que redefine os riscos e exige uma missão mais complexa e perigosa do grupo. Some-se a isso uma série de conversas emocionais e situações de vida ou morte que dão peso humano a tudo o que está sendo explicado.
Um dos maiores acertos desse volume é finalmente dar a Will algo substancial para fazer. Mesmo depois de seu momento-chave no fim da Parte 1 que, como de costume, culmina nele ferido, capturado, inconsciente ou em lágrimas, o personagem ganha cenas de real agência, especialmente na sequência impressionante em que ajuda a salvar Max. Mais do que isso, sua participação no episódio final deixa claro que ele terá um papel central no desfecho da série. O destaque absoluto, no entanto, é sua cena mais honesta até hoje: um momento em que Will se permite ser verdadeiro com seus amigos sobre quem ele é. A colocação da cena na narrativa pode parecer estranha, mas a intenção é poderosa. Trata-se de um discurso sensível sobre o dano causado por esconder a própria identidade, sobre o medo da rejeição e sobre como esse medo pode ser mais destrutivo do que a verdade. É emocionante e um pouco cafona, mas Stranger Things sempre soube usar esse tipo de sinceridade sem ironia, culminando em um abraço coletivo que soa genuíno dentro da lógica da série.
Falando em atuações, Caleb McLaughlin e Sadie Sink entregam um dos momentos mais devastadores da temporada. O colapso emocional de Lucas quando Max retorna é sincero e comovente, e marca um dos raros instantes em que a série deixa o espetáculo de lado para simplesmente observar as emoções de seus personagens. É uma cena que funciona justamente por sua contenção.
Nem todas as relações, porém, caminham para a harmonia. Uma das grandes expectativas do público era ver Dustin e Steve finalmente se reconciliarem de vez, mas o que acontece é quase o oposto. A relação entre os dois atinge seu ponto mais baixo, chegando a um confronto físico em um momento de absoluto desespero. A reconciliação só vem quando Dustin implora para que Steve não se sacrifique novamente, confessando que não suportaria perder outro melhor amigo. É uma cena lindíssima, que lembra que, por trás da língua afiada e da pose desafiadora, Dustin ainda é só um garoto tentando lidar com perdas demais. Gaten Matarazzo entrega aqui uma de suas melhores performances na série, com Steve assumindo, enfim, o papel de conforto e proteção que sempre orbitou seu arco.
Já Nancy e Jonathan têm talvez sua melhor cena juntos em anos. Presos e em perigo, os dois finalmente colocam as cartas na mesa e analisam, com maturidade surpreendente, o seu relacionamento. Não há vilões ali, nem grandes declarações melodramáticas. Apenas a constatação de que eles querem coisas diferentes, de que a distância os transformou e de que o vínculo nasceu do trauma compartilhado após o sequestro de Will e a morte de Barb. É um rompimento triste, mas necessário, tratado com honestidade e delicadeza, longe do sentimentalismo fácil.
Nem tudo funciona com a mesma naturalidade. As interações entre Eleven e sua irmã Kali estão entre os momentos mais desconfortáveis da temporada. Há um tom estranho, quase sinistro, que paira sobre essas cenas, menos heroico e mais perturbador, sugerindo que essa relação ainda guarda implicações sombrias que só devem florescer no Volume 3.
Por fim, as grandes revelações sobre a natureza do Mundo Invertido e o plano de Vecna surpreendem positivamente. A mitologia se sustenta melhor do que se poderia esperar após tantas camadas acumuladas ao longo dos anos. A grande expectativa agora gira em torno da origem definitiva dos poderes de Vecna e do papel que o Devorador de Mentes ainda terá no confronto final.
Essa segunda parte da quinta temporada talvez não seja a mais eletrizante de Stranger Things, mas é uma das mais ricas emocionalmente. Ela entende que, antes do fim do mundo, é preciso fechar feridas, ou ao menos encará-las. E se o Volume 3 conseguir unir essa densidade emocional ao espetáculo que a série sempre prometeu, a espera de nove anos pode, enfim, valer cada segundo.
James Cameron sempre foi um mestre em sequências. Poucos cineastas conseguiram transformar “partes dois” em obras definitivas do cinema blockbuster como ele. O Exterminador do Futuro 2, Aliens e Avatar: O Caminho da Água são exemplos claros de como Cameron entende que continuar uma história não é apenas repetir fórmulas, mas aprofundá-las, expandi-las e, muitas vezes, superá-las. Talvez por isso Avatar: Fogo e Cinzas carregue desde o início uma sensação curiosa: o risco de parecer apenas um “novo capítulo”, e não um grande evento cinematográfico. Ainda assim, mesmo quando parece mais convencional dentro da própria franquia, o filme continua sendo um épico visual e narrativo que humilha boa parte das superproduções contemporâneas.
Após o impacto emocional de O Caminho da Água, que reposicionou a saga como uma história essencialmente familiar, Fogo e Cinzas retoma a narrativa pouco tempo depois da morte do filho mais velho, Neteyam. O luto ainda domina a família Sully. Neytiri vive seu período ritualístico de dor, enquanto sua raiva e desejo de vingança tensionam o relacionamento com Jake e contaminam a dinâmica familiar, especialmente no que diz respeito à presença de Spider, o filho humano de Quaritch, que continua orbitando aquele núcleo como um lembrete constante do inimigo.
A decisão de Jake e Neytiri de afastar Spider, enviando-o de volta à base humana, desencadeia uma nova jornada que rapidamente se transforma em fuga. Em um dos momentos mais inventivos do filme, Cameron apresenta uma tribo de mercadores viajantes que usam veículos aéreos híbridos: parte navio, parte carruagem, parte balão orgânico que servem de palco para uma sequência de ataque espetacular. É ali que somos apresentados à nova antagonista, Varang, líder de uma tribo Na’vi agressiva, marcada por pinturas vermelhas e uma relação blasfema com Eywa. Interpretada com intensidade por Oona Chaplin, Varang se impõe não apenas como força física, mas como ruptura ideológica dentro daquele mundo.
A aliança improvável entre Varang e Quaritch, agora completamente adaptado ao corpo Na’vi, mas ainda carregando o colonialismo em sua essência, é uma das ideias mais provocativas do filme. Infelizmente, também é uma das menos exploradas. Há sugestões riquíssimas ali: a recusa de Varang à deusa Eywa, o desejo por armas humanas, e o espelhamento sombrio entre Jake e Quaritch como dois homens transformados por mundos opostos. Mas Fogo e Cinzas parece indeciso sobre até onde quer levar essas ideias, deixando subtramas promissoras à margem.
Narrativamente, Cameron segue gastando tempo com aquilo que sempre fez melhor: explorar mundos. Assim como em Titanic, onde o diretor se permitia longas digressões antes do impacto final, aqui ele passeia por novos ambientes com prazer quase contemplativo. A diferença é que, desta vez, as grandes cenas de ação chegam em intervalos mais regulares, dando ao filme um ritmo mais propulsivo e que, paradoxalmente, faz sua duração parecer maior do que a dos filmes anteriores. Ainda assim, reclamar da abundância de “set pieces” em um filme de James Cameron soa quase como heresia, especialmente quando cada uma delas é coreografada com clareza espacial, peso físico e imaginação visual.
Visualmente, Avatar: Fogo e Cinzas é irrepreensível. A tecnologia de captura de performance atingiu um nível tão avançado que o espectador simplesmente aceita aquele mundo como real. A expressividade dos personagens, especialmente nos olhos e microgestos, sustenta emoções complexas mesmo em corpos digitais. O uso do 3D novamente reforça a imersão de forma orgânica, sem truques gratuitos. Cameron continua sendo, essencialmente, o único cineasta em quem se pode confiar plenamente para usar essa tecnologia como linguagem, e não como artifício.
Há também uma defesa a ser feita da franquia como um todo. A ideia de que Avatar seria “apenas espetáculo” ignora o fato básico de que nenhuma saga atinge esse nível de sucesso sem personagens pelos quais o público genuinamente se importa. Mesmo com diálogos simples e arquétipos clássicos, a generosa duração dos filmes permite uma convivência prolongada com a família Sully, criando vínculos emocionais reais. Jake, interpretado com consistência por Sam Worthington, segue como esse pai-veterano silencioso, rígido, mas absolutamente devotado à família. Zoe Saldaña, por sua vez, entrega talvez sua performance mais potente da franquia, fazendo de Neytiri o coração emocional da história.
Ainda assim, Fogo e Cinzas deixa uma sensação curiosa de contenção. Após a expansão radical do segundo filme, que mergulhou profundamente na cultura dos Metkayina, muitos espectadores podem sentir falta de um nível similar de detalhamento nas novas tribos apresentadas aqui. Tanto a tribo das cinzas quanto os mercadores do vento são visualmente fascinantes, mas permanecem mais como conceitos do que como culturas plenamente desenvolvidas. O filme, mesmo sendo o mais longo da série, também é o mais acelerado, com pouco tempo para que o espectador se acostume aos novos ambientes antes de ser empurrado para a próxima sequência de ação.
No fim, Avatar: Fogo e Cinzas é um filme imensamente envolvente, tecnicamente impressionante e emocionalmente eficaz, mas que parece carregar o peso de ser tanto uma peça de conclusão quanto de transição. Ele entrega espetáculo em abundância, concluindo muito da história começada no segundo filme, mas explora menos do mundo de Pandora do que poderia, especialmente considerando a promessa de ainda haver mais dois filmes pela frente. Mesmo assim, trata-se de um épico que reafirma algo essencial: James Cameron continua operando em um patamar próprio. E mesmo quando ele “repete”, o faz melhor do que quase todos os seus concorrentes.
Se isso é apenas mais um Avatar, então talvez isso já seja mais do que suficiente.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

