É muito engraçado assistir Mortal Kombat II e perceber que o maior acerto do filme é simplesmente aceitar aquilo que a franquia sempre foi. Não existe vergonha aqui. Não existe tentativa desesperada de “elevar” o material ou transformar uma série de ninjas mágicos, monstros interdimensionais e lutadores arrancando colunas vertebrais em algo respeitável ou realista.
O filme finalmente entende que Mortal Kombat funciona melhor quando abraça o exagero completo. E isso já faz dele infinitamente mais divertido que o anterior.
Mortal Kombat II é, antes de qualquer coisa, um festival de fanservice feito sem vergonha nenhuma. Fatalities grotescos, personagens clássicos surgindo a cada dez minutos, cenários absurdos, golpes icônicos, litros de sangue e diálogos que parecem saídos diretamente das cutscenes dos jogos. E sinceramente? Ótimo.
Porque os jogos sempre foram exatamente isso também.
Na trama, o torneio Mortal Kombat finalmente começa pra valer. Enquanto o imperador de Outworld, Shao Kahn, tenta dominar diferentes reinos à força, guerreiros da Terra precisam entrar no torneio organizado por Raiden para impedir uma invasão total. Entre eles estão rostos já conhecidos como Liu Kang, Sonya Blade, Jax e o eternamente sem graça Cole Young, agora acompanhados pela chegada triunfal de Johnny Cage e pela introdução de Kitana, que vive sob o domínio brutal de Shao Kahn enquanto tenta sobreviver às conspirações e guerras de Outworld.
Grande parte da trama funciona apenas como cola narrativa para levar os personagens até a próxima luta e o filme parece perfeitamente consciente disso. Há objetos mágicos jogados pra todo lado, exposições apressadas, personagens entrando e saindo da história quase sem desenvolvimento, necromantes conspirando em castelos sombrios e frases de efeito repetidas até a exaustão. Em qualquer outro contexto isso seria um desastre completo. Aqui… estranhamente funciona. Ou pelo menos funciona o suficiente.
O filme acerta ao entender que o público não está ali esperando sutileza dramática. Está esperando ver alguém ser atravessado ao meio por um chapéu afiado. E Mortal Kombat II entrega isso com entusiasmo quase infantil. Os fatalities são brutais, criativos e exagerados da melhor maneira possível. Dedos voam, crânios explodem, membros são arrancados sem cerimônia. Existe uma honestidade quase refrescante no fato de que o filme nunca tenta fingir ser mais sofisticado do que realmente é. Quando alguém morre aqui, morre de forma tão absurda e sangrenta que chega a arrancar aplausos involuntários da plateia.
Mas o verdadeiro MVP do filme é mesmo Karl Urban como Johnny Cage. Sozinho, ele já vale o ingresso. Urban entende perfeitamente o tipo de energia que o personagem precisa ter: um astro decadente dos anos 90, convencido de que ainda é o cara mais importante da sala, mesmo enquanto tudo ao redor desmorona. Ele faz Johnny Cage funcionar como alívio cômico, protagonista improvisado e comentário metalinguístico sobre o próprio filme ao mesmo tempo.
Além disso tudo, há algo extremamente divertido na forma como ele reage ao absurdo do Outworld com a mistura perfeita de arrogância, medo e incredulidade. O encontro dele com Baraka é facilmente um dos pontos altos do longa.
E o mais curioso é que o filme até tenta construir algo minimamente emocional através da personagem da Kitana e sua relação com Shao Kahn. Há um esforço genuíno para dar alguma dimensão dramática à guerra de Outworld, ainda que tudo inevitavelmente volte para pessoas trocando socos em cenários digitais psicodélicos poucos minutos depois. O que, honestamente, parece correto.
As primeiras rodadas do torneio são onde o filme realmente encontra sua melhor versão: sequências longas de luta em ambientes totalmente artificiais, coreografias exageradas e uma energia quase de filme de ação direto-para-locadora dos anos 90. É ali que Mortal Kombat II parece mais confortável consigo mesmo.
Infelizmente, sempre que o filme precisa desacelerar e explicar sua mitologia, ele perde força rapidamente. Os diálogos são sofríveis, muitos personagens existem apenas para repetir frases prontas, e há momentos em que o roteiro parece um compilado de cutscenes de videogame esticadas até o limite.
Mas talvez isso também seja parte do charme. Porque, no fim das contas, Mortal Kombat nunca foi sobre narrativa refinada. Sempre foi sobre estética, violência, personagens absurdamente estilosos e a alegria primitiva de ver dois malucos se destruindo em arenas impossíveis.
E essa sequência finalmente parece confortável em admitir isso.
Talvez seja por isso que, mesmo cheio de problemas, Mortal Kombat II funcione tão melhor que o primeiro. O filme abandona a vergonha. Para de tentar justificar sua existência. Para de pedir desculpas por ser ridículo e abraça o fato de que Mortal Kombat sempre foi, essencialmente, uma desculpa extremamente elaborada para ver pessoas arrancando órgãos umas das outras.
Como deveria ser.
A pior sensação que Star Wars já me provocou não foi raiva. Foi indiferença.
Eu até entendo quem se irritou com escolhas de Os Últimos Jedi. Dá para discutir cada uma delas, seus méritos, seus excessos, suas provocações e tropeços. Mas A Ascensão Skywalker me pareceu, desde o primeiro contato, menos um filme e mais uma sala de reunião fantasiada de aventura espacial. Era como se cada cena tivesse sido concebida para desfazer uma reclamação, responder a uma thread, acalmar um setor específico do público e garantir que ninguém saísse realmente desafiado. Havia explosões, nostalgia, música alta, personagens voltando, frases conhecidas, sabres de luz cruzando a tela. Mas, pela primeira vez vendo um Star Wars, eu não senti nada. Só enxerguei os fios sendo puxados por um estúdio apavorado com a ideia de desagradar.
Por isso, havia algo simbólico em ver Mandaloriano e Grogu chegar aos cinemas. Não era apenas mais uma aventura derivada da série do Disney+. Era o primeiro grande retorno de Star Wars à tela grande depois daquele tropeço, uma chance de lembrar por que essa franquia ainda importa quando deixa de agir como um algoritmo de nostalgia e volta a parecer cinema.
O problema é que Mandaloriano e Grogu não irrita. Não ofende. Não constrange. Não trai nenhum personagem querido. Não tenta reescrever a franquia, nem consertar traumas antigos, nem fazer uma grande declaração sobre o futuro da saga. Ele simplesmente passa.
E talvez isso seja quase mais frustrante.
O filme é divertido, em vários momentos. Tem criaturas esquisitas, planetas coloridos, perseguições, tiroteios, naves, bonecos, monstros gigantes e aquele tipo de artesanato prático que ainda carrega um pouco da magia tátil de Star Wars. Grogu continua adorável, Babu Frik e seus similares seguem funcionando como pequenas máquinas de encanto, e há algo inegavelmente gostoso em ver esse universo povoado por marionetes, máscaras, aliens e bugigangas espaciais que parecem ter saído de uma caixa de brinquedos muito cara.
Mas diversão não é necessariamente impacto. E Mandaloriano e Grogu é um filme sem peso, sem risco, sem consequência. Parece um episódio longo da série, inflado para ocupar a tela grande, mas não transformado em algo que justifique essa mudança de escala. Se tivesse estreado direto no Disney+, talvez a sensação fosse outra. Talvez parecesse um especial caprichado, uma aventura maior, uma versão luxuosa daquilo que a série sempre entregou. No cinema, porém, um filme de Star Wars carrega outra promessa. Ele precisa parecer evento. Precisa ocupar a sala, não apenas a tela.
Aqui, por tempo demais, a sensação é de estar assistindo a bonecos de ação muito bem renderizados sendo batidos uns contra os outros por duas horas.
A trama avança sem realmente avançar. Os personagens enfrentam perigos, mas raramente parecem ameaçados. Entram em lugares, saem de lugares, lutam contra inimigos, escapam de situações, encontram figuras conhecidas ou potencialmente vendáveis, e tudo termina mais ou menos onde começou. O status quo permanece intacto, protegido, imperturbável. Ninguém muda de verdade. Nenhuma relação se complica. Nenhum dilema se impõe. Nenhuma escolha parece capaz de custar alguma coisa.
É Star Wars como desenho infantil de sábado de manhã: colorido, ligeiro, simpático, barulhento e cuidadosamente desenhado para que nada realmente se quebre.
E isso não seria necessariamente um problema se o filme tivesse mais graça, mais energia ou mais personalidade. A série The Mandalorian, em seus melhores momentos, sempre funcionou como uma mistura de faroeste, conto samurai e aventura episódica. Din Djarin era um pistoleiro cansado atravessando a galáxia com uma criança impossível de ignorar. Havia simplicidade, sim, mas também havia solidão, ternura e uma dinâmica silenciosa que dava humanidade ao capacete.
No filme, essa humanidade parece mais rarefeita. Pedro Pascal, escondido atrás da armadura e reduzido quase exclusivamente à voz, entrega uma variação muito estreita de tons: sussurro calmo, sussurro irritado, sussurro surpreso. É claro que o personagem sempre foi contido, mas contenção não precisa significar ausência de textura. Aqui, muitas vezes, Din parece menos um homem em jornada e mais uma função narrativa vestindo beskar.
Sigourney Weaver, por sua vez, aparece como se tivesse sido convidada para dar prestígio instantâneo ao projeto, mas sem receber uma personagem que justifique sua presença. Sua atuação é tão econômica, tão mínima, que fica difícil até lembrar exatamente o nome dela na história poucos minutos depois. Não por falta de talento, evidentemente, mas porque o filme parece pouco interessado em qualquer ser humano que não possa ser convertido em bicho de pelúcia.
Ainda assim, há lampejos. Uma sequência envolvendo Mando enfrentando uma enorme serpente finalmente traz aquela sensação de escala, perigo e composição visual que esperamos de Star Wars no cinema. Por alguns minutos, o filme respira como filme. A imagem cresce. O corpo sente. A sala ganha vida. É um daqueles momentos em que dá para enxergar a produção que poderia ter existido se o projeto inteiro tivesse sido concebido com a ambição de ocupar a tela grande, e não apenas de preencher uma lacuna no calendário da franquia.
Mas esses momentos são raros. Na maior parte do tempo, Mandaloriano e Grogu parece um videogame caríssimo sendo jogado por outra pessoa, com uma história mínima costurando fases, chefes e cutscenes. Tudo é tecnicamente competente, polido, funcional. Só falta calor. Falta atrito. Falta aquela sensação de que os personagens estão descobrindo algo sobre si mesmos enquanto atravessam a aventura.
O mais estranho é que o filme entrega exatamente o que promete. Quem gosta da série provavelmente encontrará aqui uma extensão fiel daquele universo: mais Mando, mais Grogu, mais missões, mais criaturas, mais referências. Não dá para acusar o filme de propaganda enganosa. Ele é, de fato, aquilo que parece ser.
Mas o problema é justamente esse.
Depois de A Ascensão Skywalker, eu não precisava que Star Wars voltasse aos cinemas pedindo desculpas. Também não precisava que voltasse tentando chocar, subverter ou provar alguma coisa a qualquer custo. Mas seria bom sentir que a franquia ainda acredita em histórias, não apenas em manutenção de marca. Seria bom ver personagens com conflitos reais, diálogos com alguma faísca, riscos que não parecessem decorativos. Seria bom sentir que alguém, em algum lugar, estava disposto a fazer mais do que preservar uma vitrine de brinquedos intacta.
Mandaloriano e Grogu é melhor do que um desastre. Talvez esse seja justamente o elogio mais triste que se pode fazer. É competente, simpático, visualmente agradável e ocasionalmente encantador. Mas também é bobo, inofensivo e sem gosto muito definido. Como um sorvete de baunilha feito com ingredientes caros: você até toma sem reclamar, mas dificilmente vai lembrar do sabor no dia seguinte.
A magia de Star Wars ainda aparece, principalmente nos bonecos, nas criaturas, na música, nos pequenos absurdos visuais que só essa galáxia consegue oferecer. Mas magia, sozinha, não sustenta um filme. Precisa haver drama. Precisa haver risco. Precisa haver alguma coisa pulsando por baixo da aventura.
Aqui, a galáxia muito distante nunca pareceu tão segura.
E segurança, em Star Wars, talvez seja justamente o caminho mais curto para o esquecimento.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

