Marty Supreme é um filme suado, explosivo, cruelmente engraçado, que avança em ritmo de colapso nervoso permanente. É cinema que vibra no limite da combustão. Cada cena parece prestes a desandar, e muitas delas efetivamente desandam, mas sempre de um jeito mais caótico do que você imaginava.
Sua cartada inicial é que a história não começa como um filme dos Safdie. E é exatamente aí que ele te pega. Por cerca de meia hora, tudo indica que estamos diante de um drama esportivo relativamente convencional: o jovem prodígio, o talento bruto, a promessa de ascensão. A câmera até se comporta. O ritmo parece controlado. Mas então, quase sem aviso, o filme implode essa ilusão e se revela como a comédia de erros mais delirante, sufocante e moralmente corrosiva que os Safdie já fizeram: uma mistura enlouquecida do ataque de ansiedade de “Bom Comportamento” com a espiral autodestrutiva de “Joias Brutas”, só que ainda mais agressiva, mais engraçada e mais desesperada. É de sair do cinema completamente atordoado.
No centro desse furacão está Timothée Chalamet, entregando algo que não soa exagero chamar de performance de uma vida. Não porque seja espalhafatosa, embora às vezes seja, mas porque é absurdamente segura. Chalamet sustenta Marty com uma confiança tão inabalável que dá a impressão de que esse personagem existe dentro dele há anos. É uma atuação calibrada no detalhe, sem vacilos, sem hesitação, movida por uma energia quase infinita. Marty nunca para. E Chalamet também não.
O mais fascinante é que Marty Supreme é, em muitos níveis, um filme sobre atuação. Sobre performance como forma de sobrevivência. Sobre mentiras que soam mais verdadeiras do que a verdade. Marty se apresenta ao mundo como um mito em construção e deixa isso explícito logo de cara, quando se define como “performer” em uma conversa casual que já carrega o DNA temático do filme inteiro. Ele mitologiza a própria vida porque não sabe existir de outro modo. Tudo é encenação, tudo é “pitch”, tudo é aposta. A realidade só interessa na medida em que pode ser dobrada à força da sua fantasia.
Há também um subtexto poderoso e doloroso sobre memória e permanência. Marty é um jovem judeu vivendo à sombra de uma violência histórica que ecoa silenciosamente em sua obsessão por legado. O gesto quase absurdo de arrancar um fragmento das pirâmides para levar à mãe não é apenas delírio; é uma tentativa desesperada de afirmar que seu povo, sua história, sua existência não podem ser apagados. Marty quer ser grande não só por vaidade, mas porque precisa acreditar que o mundo vai lembrar dele. Que seu nome vai sobreviver. Que seu mito vai resistir ao esquecimento.
E é aqui que o filme se torna genuinamente perturbador.
Marty Supreme não é uma história de redenção. Não é sobre aprendizado. Não é sobre crescimento. É, como os melhores filmes do universo Safdie, a história de um homem incapaz de mudar. Um sujeito em guerra constante consigo mesmo, movido por uma combinação tóxica de narcisismo, insegurança patológica e fome por validação. Marty não amadurece. Ele consome. Ele passa pelas pessoas como um incêndio passa por uma casa. E o filme não suaviza isso. Pelo contrário: deixa muito claro que toda vida que Marty toca acaba em ruínas.
E ainda assim, você não consegue tirar os olhos dele.
Porque cinema permite isso. Um personagem pode ser profundamente detestável e ainda assim hipnotizante. Marty é alguém que erra o tempo todo, acerta por acidente, escapa por milímetros. E cada pequena vitória vem seguida de uma queda ainda maior. Seus sucessos diminuem. Seus fracassos crescem. O sonho permanece colossal. A realidade, cada vez mais estreita.
Tudo isso se encaixa perfeitamente na persona de Chalamet como astro. Diferente de outros atores que tentam esconder sua vocação para o espetáculo, ele abraça o fato de ser um vendedor de ideias, de personagens, de si mesmo. Seus papéis recentes parecem menos “interpretações” e mais apostas. Produtos impulsionados por uma fé quase messiânica em si próprio. Em Marty Supreme, o filme usa isso contra ele e a favor da obra. É um duelo entre ambição e sentido, entre vender o coração e perguntar por que alguém faria isso.
Visualmente, o filme é elétrico. A fotografia e o design de produção transformam 1952 em um delírio anacrônico, embalado por uma trilha sonora oitentista que não deveria funcionar, mas funciona perfeitamente, como se estivéssemos vendo um clássico dos anos 80 que escapou no tempo. Há ecos de “Bons Companheiros” e “O Gângster”: mitos americanos construídos sobre o sacrifício de tudo que é humano.
No fim, Marty Supreme é um mito moderno sobre o pacto faustiano da grandeza. Um filme sobre capitalismo como ritual de humilhação, sobre ambição como vício, sobre malandragem como condenação. Um retrato cruel, engraçado e desesperador de alguém que quer ser tudo, mas acaba sendo apenas um vazio em movimento.
Não é um filme confortável. Não é um filme edificante. Mas é avassalador.
“Extermínio: O Templo dos Ossos” pode até parecer, à primeira vista, um desvio lateral dentro da franquia, mas rapidamente deixa claro que se trata de uma continuação direta dos eventos de “Extermínio: A Evolução” e, mais do que isso, de um comentário ainda mais incisivo sobre memória, cultura e a maneira seletiva com que sociedades em colapso olham para o próprio passado.
Se o filme anterior já sugeria que o verdadeiro horror não estava apenas nos infectados, O Templo dos Ossos torna essa ideia explícita: não há nada mais grotesco do que aquilo que humanos “não-zumbis” são capazes de fazer uns com os outros. A violência aqui é ritualística, simbólica e profundamente cultural. O filme defende, com surpreendente clareza, que as humanidades (história, música, literatura, até o latim repetido como mantra por Kelson) são o que ainda pode nos ancorar à nossa humanidade. “Memento mori” não é apenas um lembrete da morte, mas um chamado para lembrar que ainda estamos vivos e que o mundo que sobreviverá será moldado por quem conseguir aprender com o que veio antes.
Spike (Alfie Williams), que no filme anterior encerrava sua jornada com um gesto de autonomia e amadurecimento, aqui enfrenta uma aclimatação rápida, brutal e profundamente frustrante. O garoto é forçado a integrar a gangue liderada por Sir Lord Jimmy Crystal (Jack O’Connell), e o choque é imediato: rituais de iniciação, invasões domiciliares e uma violência que ecoa diretamente o terceiro ato do Extermínio original, reforçando a tese de que o colapso social não elimina hierarquias, apenas as torna mais cruéis.
Jimmy é, sem exagero, um dos vilões mais repulsivos da franquia. Sua estética remete deliberadamente a Jimmy Savile, figura que, para o público britânico, carrega um peso histórico perturbador. No entanto, o filme opta por não aprofundar explicitamente essa associação, transformando o que poderia ser uma reflexão mais densa sobre abuso institucional e conivência social em uma ironia desconfortável: símbolos de infância e inocência reaproveitados como verniz para o sadismo. Ainda assim, O’Connell é absolutamente aterrador. Bastam poucos minutos em cena para que o espectador deseje, com urgência, o seu fim.
A direção agora está nas mãos de Nia DaCosta, com Danny Boyle atuando como produtor. A mudança traz consequências claras: O Templo dos Ossos é visualmente mais contido, menos errático, mas também menos imprevisível. A narrativa abandona os zigue-zagues arriscados do filme anterior para intercalar linhas dramáticas que inevitavelmente convergem no terceiro ato. Isso torna o mundo apresentado paradoxalmente menor, ainda que mais expansivo em escala.
O grande ganho dessa abordagem é o espaço concedido a Dr. Ian Kelson, vivido por um Ralph Fiennes absolutamente destemido. Kelson é um médico que construiu um templo literal de ossos como um memorial para os mortos e que se recusa a enxergar os infectados apenas como alvos. Sua relação com “Sansão”, um zumbi alfa nomeado e observado quase como um experimento antropológico, empurra o filme para territórios estranhos, líricos e até absurdos. Fiennes se entrega completamente, e o filme só se sustenta porque ele está disposto a ir até o limite do ridículo, do trágico e do sublime sem jamais piscar.
Curiosamente, é também aqui que o filme encontra um humor mais sombrio e eficaz do que o habitual na franquia. DaCosta extrai momentos de ironia genuinamente perturbadora, algo que até Boyle raramente buscava, especialmente nas interações entre Kelson e o mundo que insiste em classificá-lo como louco.
Se há um ponto em que o filme tropeça, é justamente em Spike. Antes o centro emocional da narrativa, ele agora se torna um observador silenciado pelo terror constante. Alfie Williams continua excelente, mas o roteiro o mantém preso a uma única nota emocional, o que reduz o impacto de sua presença. Isso reforça a sensação de que O Templo dos Ossos funciona mais como capítulo intermediário do que como obra plenamente autônoma.
Ainda assim, o filme é coerente com seu tema central: olhar para trás e olhar para frente nunca é um gesto neutro. A memória é seletiva, falha, muitas vezes fabricada. Em um mundo dominado por um passado mal lembrado, ou convenientemente reescrito, a tentativa de reconstrução pode facilmente se tornar uma repetição dos mesmos horrores. O Templo dos Ossos entende isso com clareza desconfortável.
Talvez não seja o capítulo mais ousado da franquia, mas é um filme rico, inquietante e profundamente humano, que ganha força quando visto em diálogo com o anterior e que, com o tempo, pode crescer ainda mais à medida que essa nova trilogia encontre sua conclusão.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

