Existe uma parte de mim que queria gostar de Michael. De verdade.
Porque o filme, dirigido por Antoine Fuqua, acerta em uma coisa essencial: ele consegue, em alguns momentos, te lembrar do que era amar Michael Jackson sem ressalvas. A energia dos shows, a histeria coletiva, fãs desmaiando, multidões cantando cada palavra... Há algo genuinamente poderoso nessas recriações. É um vislumbre de um tempo em que a relação com o artista era pura, sem o peso que viria depois.
Mas aí o filme continua… e você lembra por que isso não é mais tão simples. Porque Michael não é um filme interessado em lidar com essa complexidade. Ele é um filme interessado em apagá-la.
E isso não é um problema isolado. É um problema estrutural das cinebiografias musicais. Esse tipo de filme quase sempre nasce de um acordo: para usar as músicas, você precisa da aprovação da família ou do espólio. E, para ter essa aprovação… bom, você já sabe o que vem depois.
Sai um filme seguro. Polido. Higienizado. “Chapa branca”. Um filme que não investiga, mas apenas celebra. E aí todos acabam iguais. Você pode trocar o nome do artista, mas o roteiro continua o mesmo. A fórmula é praticamente automática:
Uma infância traumática, com uma vida que muda após a descoberta do talento, seguida por uma ascensão meteórica que é interrompida por uma crise com fama/drogas, piorada por um empresário pilantra ou pai abusivo. Quando tudo parece perdido, vem a redenção, com um grande show icônico, e um texto final com letras brancas em um fundo preto, glorificando o legado e passando pano por cima de todos os erros, deslizes e imperfeições que deixam gerentes de espólios bilionários nervosos.
É Freddie Mercury. É Ray. É James Brown. É Ney Matogrosso. É NWA. É Johnny Cash. É todos eles. E agora é Michael.
O filme acompanha a trajetória da família Jackson desde Gary, Indiana, até a ascensão de Michael ao topo do pop nos anos 80, enquadrando tudo a partir da turnê Bad. E, sim, há competência técnica aqui: as performances musicais são, de longe, o ponto alto. Jaafar Jackson impressiona ao incorporar o tio, com todos os seus movimentos, a voz e os trejeitos. É quase assustador o nível de precisão. E Colman Domingo entrega um Joe Jackson intenso, ainda que reduzido a um arquétipo de pai abusivo unidimensional. Mas o filme não consegue ir além disso. Porque, no fundo, ele não quer.
Grande parte de Michael funciona como uma coletânea de “greatest hits”. Quase um terço do filme é composto por performances recriadas: shows, ensaios, videoclipes, tudo filmado com energia, luzes vibrantes e cortes frenéticos. É onde o filme realmente ganha vida.
Só que, entre esses momentos, existe um vazio. As cenas dramáticas são rasas, mal desenvolvidas, e parecem sempre existir apenas para conectar um número musical ao outro. Momentos gigantes da carreira passam correndo. Processos criativos são reduzidos a flashes. Emoções complexas são simplificadas ao máximo. E então chegamos ao ponto mais incômodo: o retrato do próprio Michael.
O filme o transforma em uma figura quase santa. Ele nunca perde o controle. Nunca erra de verdade. Nunca apresenta contradições significativas. Seus “defeitos” são cuidadosamente escolhidos para não incomodar: ele é inocente demais, gentil demais, quase infantil. Há cenas repetidas dele visitando hospitais, ajudando crianças, levando brinquedos, espalhando bondade. Uma, duas, três vezes. A ponto de deixar de parecer desenvolvimento de personagem e passar a soar como reforço de narrativa.
Não é construção dramática. É controle de imagem. E isso fica ainda mais evidente na decisão mais gritante do filme: ele termina em 1988. Não é só uma escolha narrativa, mas sim uma escolha estratégica. Porque dali em diante… a história complica.
E o filme simplesmente não quer lidar com isso. É mais fácil encerrar na versão confortável sobre o gênio, o ícone, o fenômeno... do que confrontar o que viria depois. O resultado é uma cinebiografia que não só evita o desconforto, mas parece ativamente interessada em reescrever a memória.
E aí voltamos ao problema maior. Não é que cinebiografias musicais usem clichês. Afinal de contas, todo filme usa. O problema é quando elas se tornam reféns deles. Quando deixam de ser ferramentas narrativas e passam a ser muletas. Porque existem outras formas de contar essas histórias.
“I'm Not There” fragmenta Bob Dylan em múltiplas identidades.
“Bird” mergulha na música e no caos sem buscar redenção.
“Better Man” transforma Robbie Williams em um macaco de circo. “The Beach Boys” foca em dois momentos cruciais da vida do Brian Wilson, ao invés de tentar enfiar uma vida inteira em uma fórmula cansada.
Esses filmes entendem que uma vida não precisa ser resumida, ela pode ser interpretada. Michael, por outro lado, faz exatamente o oposto. Ele pega uma das figuras mais complexas da cultura pop… e a enfia à força dentro de um padrão.
No fim, o filme até funciona como espetáculo. Como tributo. Como lembrança de um fenômeno que, goste você ou não, foi gigantesco. Mas como cinema, como tentativa de entender uma pessoa, ele falha.
E talvez essa seja a maior ironia de todas: um artista absolutamente único… um ser humano cheio de complexidades, contradições, desastres públicos colossais e momentos que vivem na memória coletiva do mundo inteiro... preso no formato mais genérico possível.
Existe uma versão de A Maldição da Múmia que é fascinante: cruel, inventiva, quase hipnótica em sua obsessão pelo grotesco. E existe a versão que chega às telas: um filme que, para o bem e para o mal, é um dos exercícios de horror mais agressivos, irregulares e exaustivos do ano.
Dirigido por Lee Cronin, o longa se distancia das encarnações clássicas da múmia de Boris Karloff e passa bem longe das aventuras do Brendan Fraser, se aproximando muito mais do território que o próprio diretor já explorou em “A Morte do Demônio: A Ascensão”. Aqui, a ideia de “múmia” não está nas bandagens ou nas tumbas, mas na decomposição, tanto a física, quanto a emocional e familiar.
A história acompanha um casal, Larissa (Laia Costa) e Charlie (Jack Reynor), que tenta lidar com o retorno da filha Katie (Natalie Grace), desaparecida há anos no Egito. O que deveria ser um reencontro milagroso rapidamente se transforma em algo muito mais perturbador. Katie voltou, mas algo voltou com ela. A partir daí, o filme se revela menos como uma aventura arqueológica e mais como uma casa mal-assombrada. Só que, dessa vez, a assombração não está nas paredes, e sim dentro de uma criança.
Cronin abraça com gosto o horror corporal. A deterioração física de Katie é constante, quase obsessiva: pele que se desfaz, dentes que se partem, membros que parecem não pertencer mais ao corpo. É um espetáculo de repulsa cuidadosamente construído para testar até onde o espectador consegue olhar sem desviar. E, nesse sentido, o filme é eficaz. Há momentos genuinamente perturbadores, imagens que grudam na cabeça, e uma energia caótica que remete ao melhor do terror mais visceral, algo entre Sam Raimi e Peter Jackson em seus dias mais descontrolados. Uma sequência em um velório envolvendo comida, sangue e vômito, por exemplo, é ao mesmo tempo absurda e memorável, uma rara ocasião em que o filme encontra o equilíbrio entre horror e humor.
O problema é que esses momentos são exceção, não regra. A Maldição da Múmia sofre de um excesso de explicação. Em vez de confiar na força de suas imagens e na ambiguidade do horror, o roteiro insiste em detalhar cada aspecto de sua mitologia, transformando o que poderia ser sugestivo em algo didático e, pior, arrastado. Boa parte de suas mais de duas horas é dedicada a entender “o que aconteceu”, quando talvez o mais interessante fosse simplesmente lidar com as consequências.
Essa escolha afeta diretamente o ritmo. O filme nunca encontra um fluxo consistente: alterna entre sequências longas demais, investigações pouco envolventes e explosões de violência que, com o tempo, deixam de chocar e passam a anestesiar. A crueldade, inicialmente impactante, se torna repetitiva.
Há também uma desconexão emocional. No centro da história está a ideia poderosa de pais confrontados com o horror de ver o próprio filho se tornar uma ameaça, mas o filme raramente explora isso com o peso que merece. Os personagens parecem mais peças em um experimento do que pessoas reais tentando sobreviver a uma tragédia impossível. A dor está lá, mas nunca se traduz plenamente em drama.
Ainda assim, há algo intrigante no projeto. Cronin claramente tem uma visão, uma vontade de levar o horror a lugares mais desconfortáveis, mais físicos, mais extremos. E quando ele se permite ser mais caótico, mais indefinido, o filme ganha vida. O problema é que essa ousadia vive em conflito constante com uma estrutura que tenta organizar, explicar e justificar tudo.
No fim, A Maldição da Múmia é um filme dividido. Parte dele é um terror brutal, inventivo e quase punk em sua abordagem. A outra parte é um procedural sobrenatural inchado, que drena a energia do que poderia ser algo realmente marcante.
O resultado é uma experiência intensa, às vezes impressionante, mas frequentemente cansativa. Um filme que quer te fazer olhar… e, ao mesmo tempo, te faz querer desviar os olhos por motivos bem diferentes.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

