Escolher o melhor Toy Story é uma tarefa meio inútil.
Não porque todos sejam iguais, mas justamente porque cada um deles parece existir para completar uma parte diferente da mesma conversa. O primeiro reinventou a animação e descobriu uma mitologia inteira dentro de um quarto infantil. O segundo entendeu que brinquedos também podiam ter medo do abandono. O terceiro transformou o crescimento em luto coletivo. O quarto sugeriu que talvez existir para uma criança não fosse a única forma possível de ter propósito.
Agora, no quinto filme, a pergunta muda de lugar. E se as crianças pararem de brincar?
Essa talvez seja a evolução mais natural e mais triste para uma franquia que sempre tratou seus brinquedos como pequenos pais de plástico. Durante trinta anos, Woody, Buzz, Jessie e companhia observaram crianças crescerem, mudarem, esquecerem, partirem. O grande tema de Toy Story sempre foi a perda. A perda da infância, da utilidade, do dono, da função. Mas também sua irmã mais otimista: a possibilidade de renascer em outro papel, em outro quarto, em outra forma de amor.
Toy Story 5 encontra uma nova variação desse medo. Bonnie ainda tem oito anos. Ainda gosta de seus brinquedos. Ainda existe nela alguma chama de imaginação. Mas o mundo ao redor mudou. As outras crianças não parecem mais interessadas em inventar histórias com bonecos, cowboys, astronautas e dinossauros de plástico. Elas estão nas telas.
É aí que entra Lilypad, um tablet infantil falante em formato de sapo, comprado pelos pais de Bonnie. A ameaça, desta vez, não é um colecionador ganancioso, uma creche comandada por um urso ressentido ou a passagem inevitável do tempo. É algo muito mais cotidiano e, por isso mesmo, mais difícil de combater: a substituição da brincadeira física, bagunçada e compartilhada por uma conexão digital instantânea.
O filme é esperto o suficiente para não tratar tecnologia como vilã absoluta. Uma versão pior dessa história colocaria os brinquedos de um lado, as telas do outro, e resolveria tudo como uma batalha moral entre passado puro e presente corrompido. Andrew Stanton, assumindo pela primeira vez a direção de um longa da franquia depois de ter participado criativamente de todos os anteriores, escolhe algo mais interessante. A tecnologia aparece como um novo território da infância, um espaço sedutor, funcional, cheio de promessas. Lilypad não quer destruir Bonnie. Pelo contrário: ela também acredita estar ajudando. Isso torna o conflito mais rico.
Bonnie tem dificuldade de fazer amigos no mundo real. Com Lilypad, ela descobre que pode conversar com outras crianças online, marcar encontros, se sentir imediatamente incluída. Em poucos minutos, a solidão parece resolvida. Mas Toy Story 5 entende aquilo que muitos adultos parecem ter esquecido: uma amizade mediada por uma tela não é a mesma coisa que dividir o mesmo espaço, o mesmo chão, o mesmo brinquedo, o mesmo absurdo inventado na hora.
O filme fala, no fundo, sobre brincadeira imaginativa. E brincadeira imaginativa não é apenas uma atividade infantil. É uma forma de pensamento. É a criança pegando o universo que existe dentro da própria cabeça e tentando empurrá-lo para fora, usando qualquer coisa à mão: um boneco, uma caixa, um cobertor, um cavalo de plástico, um garfo transformado em brinquedo. Quando isso acontece em Toy Story 5, a animação explode em sequências de cor, exagero e caos visual, como se o filme finalmente pudesse mostrar a lógica interna de uma criança pensando em tempo real. A Pixar continua brilhante nesse tipo de observação.
Poucos estúdios conseguem condensar uma ideia de parentalidade, infância ou amadurecimento em uma imagem simples e uma piada visual tão limpa. Há momentos em que Toy Story 5 entende perfeitamente o pânico silencioso dos adultos diante de uma criança crescendo rápido demais, ou a dor absurda de um brinquedo percebendo que sua maior missão talvez esteja desaparecendo. Mesmo quando a arquitetura geral da narrativa parece um pouco mais rangente do que nos melhores momentos da série, a sensibilidade permanece intacta. E colocar Jessie no centro é uma escolha muito feliz.
Depois de tantos filmes orbitando a amizade e as crises existenciais de Woody e Buzz, faz sentido que a cowgirl assuma outro tipo de responsabilidade. Jessie sempre carregou uma ferida particular dentro da franquia: o trauma de ter sido abandonada, esquecida, encaixotada. Isso torna sua relação com Bonnie especialmente delicada. Ela sabe o que significa ser deixada para trás. Então, quando percebe que Bonnie pode estar se afastando não apenas dela, mas da própria ideia de brincar, o conflito ganha um peso emocional muito específico.
O mais bonito é que o filme não responde a isso com saudosismo ranzinza. Toy Story 5 não diz que as crianças de hoje estão perdidas, nem que tudo era melhor quando o quarto era cheio de bonecos e não de aplicativos. Seu apelo é mais simples, e talvez mais difícil: desacelere. Esteja presente. Brinque. Não porque brinquedos sejam moralmente superiores a telas, mas porque existe algo insubstituível no ato de criar mundos com outra pessoa ao seu lado.
É uma mensagem que poderia soar didática. E, em alguns momentos, o filme chega perto disso. Mas a franquia Toy Story sempre teve a habilidade rara de pegar grandes temas como obsolescência, morte, abandono, identidade, propósito e traduzi-los através de objetos coloridos discutindo embaixo de uma cama. Esse sempre foi o milagre. Fazer a gente rir de um brinquedo apavorado e, segundos depois, perceber que ele está falando sobre nós.
Há sequências de enorme prazer cômico aqui, especialmente quando o filme abraça o caos direto da mente infantil. O clímax envolvendo uma cerimônia de casamento é o tipo de maluquice que só Toy Story conseguiria levar a sério o suficiente para funcionar. Ao mesmo tempo, existem momentos que atingem com a força de um soco emocional, não porque tentam repetir a catarse do terceiro filme, mas porque encontram uma nova ferida para tocar. A pergunta de Toy Story 5 não é apenas se os brinquedos ainda têm lugar. É se as crianças ainda terão tempo para serem crianças.
Cinco filmes depois, Toy Story continua encontrando novas formas de falar sobre perda. Mas sua grandeza sempre esteve em entender que perder também pode significar transformar. Os brinquedos já perderam donos, quartos, funções e certezas. Agora enfrentam talvez sua ameaça mais abstrata: a possibilidade de que o mundo não precise mais deles da mesma forma.
Toy Story 5 talvez não seja o mais perfeito da série, nem o mais revolucionário, nem o mais devastador. Mas é um filme que entende por que esses personagens continuam importantes. Eles não existem apenas para entreter crianças. Existem para lembrar adultos de algo que a vida insiste em apagar: antes de crescermos, antes de nos conectarmos, antes de sermos úteis, nós brincávamos. E talvez uma parte essencial de nós ainda dependa disso.
Superman carrega nos ombros uma das fantasias mais americanas já criadas.
Não apenas porque nasceu nos quadrinhos dos Estados Unidos, ou porque durante décadas foi associado àquela expressão clássica: “verdade, justiça e o estilo de vida americano”. Mas porque o personagem sempre representou uma espécie de mitologia nacional em sua forma mais pura. O estrangeiro que cai do céu, é criado no interior, incorpora os melhores valores de uma sociedade idealizada e decide usar um poder incomparável para fazer o bem. Com o tempo, os próprios quadrinhos perceberam que essa ideia precisava crescer para além de fronteiras específicas. O “American way” virou, em muitas versões, algo mais próximo de um “human way”, uma tentativa de transformar o Super-Homem não em símbolo de um país, mas em exemplo para o mundo.
E, curiosamente, isso funciona.
Basta lembrar como a imagem do Superman atravessa culturas tão diferentes, como se aquele uniforme azul e vermelho tivesse se tornado uma linguagem universal de esperança. Mesmo sendo um ícone profundamente americano, há algo nele que conversa com o mundo inteiro. Talvez porque, no fundo, a pergunta essencial do personagem nunca tenha sido “e se um alienígena extremamente poderoso vivesse entre nós?”, mas sim “e se a pessoa mais poderosa da Terra fosse também uma das mais bondosas?”.
É essa bondade fundamental que sustenta a versão de David Corenswet no novo DCU de James Gunn. Mesmo cercado por dúvidas, manipulações e temores sobre sua origem, o Superman de Gunn é bom. Não de forma ingênua ou acidental, mas como princípio dramático. Ele é o centro moral de um universo que ainda está tentando descobrir como lidar com pessoas extraordinárias.
Por isso, faz sentido que Supergirl escolha outro caminho.
Kara Zor-El não chega ao filme como uma variação feminina do primo. Ela não é a mesma ideia com outro uniforme. Inspirada em A Mulher do Amanhã, essa versão é apresentada como alguém marcada por perdas profundas, pela destruição de seu mundo, por uma vida ainda jovem, mas já atravessada por traumas que a deixaram mais áspera, mais impaciente e menos disposta a performar serenidade. Se Clark é o garoto do Kansas que aprendeu a acreditar no melhor das pessoas, Kara é alguém que viu o pior cedo demais.
E é aí que o faroeste entra.
Porque Supergirl é, em essência, um western espacial.
Não só pela iconografia, pela aridez de certos cenários ou pelo formato de jornada. Mas porque o faroeste sempre foi uma mitologia sobre fronteiras: o espaço entre civilização e barbárie, entre justiça e vingança, entre o que a lei promete e aquilo que a violência resolve mais rápido. Os melhores faroestes costumam viver nesse território ambíguo, acompanhando personagens que caminham na linha entre a decência e a brutalidade.
O movimento interessante do filme é que Kara não ocupa exatamente esse lugar de dúvida. Ela não é a personagem prestes a ser corrompida pela vingança. Em vez disso, ela acompanha alguém que está à beira desse abismo. Sua função na história é menos descobrir se ainda pode ser heroica e mais impedir que outra pessoa confunda dor com destino.
É uma dinâmica que aproxima o filme de Bravura Indômita, talvez a influência mais evidente por trás dessa história. Nas duas versões de Rooster Cogburn, há uma figura endurecida pela vida, meio decadente, meio lendária, guiando uma jovem movida por uma sede de justiça que facilmente poderia se transformar em algo mais sombrio. John Wayne interpretava Cogburn como um herói maior que a vida, rude, mas fundamentalmente decente. Jeff Bridges, na versão dos irmãos Coen, abraçava o lado mais sujo, bêbado, imprevisível e moralmente ambíguo do personagem.
A Kara de Milly Alcock parece existir em algum lugar entre essas duas tradições.
Ela ainda é maior que a vida. Ainda é idealista em seu núcleo. Ainda acredita, mesmo que de forma mais ferida, que há uma diferença entre justiça e crueldade. Mas Alcock permite que vejamos as rachaduras. Sua Supergirl é menos polida que o Superman de Corenswet, menos solar, mais impulsiva, com uma amargura que nunca apaga completamente sua compaixão. O trabalho dela é o grande alicerce do filme: uma performance forte, vulnerável e cheia de arestas, que faz Kara parecer ao mesmo tempo poderosa e emocionalmente exausta.
Craig Gillespie dirige essa jornada com competência e Ana Nogueira estrutura o roteiro ao redor de uma ideia muito boa: transformar Kara não em uma messias, nem em uma ameaça, mas em uma sobrevivente. Uma pessoa que ainda escolhe o bem, não porque desconhece a dor, mas justamente porque a conhece intimamente.
O problema é que o filme nem sempre dá a essa ideia o peso que ela merecia.
Há um ritmo apressado em Supergirl que impede algumas cenas de respirarem. A história avança com eficiência, talvez até demais, mas muitos momentos pediam mais silêncio, mais contemplação, mais impacto. Para um filme tão inspirado pelo western, faltou um pouco daquela paciência épica de Sergio Leone: os grandes planos, os duelos de olhar, a sensação de que cada escolha moral está sendo esculpida no tempo antes da violência explodir.
A ação é competente. Algumas sequências funcionam bem. Mas faltam mais momentos de arrepio, aqueles instantes de “é por isso que eu vim ao cinema”. Curiosamente, a HQ original tinha muitos desses quadros grandiosos, com Kara sendo vista pela perspectiva de Ruthye como uma figura quase mítica, uma heroína imensa atravessando um universo cruel. O filme entende essa ideia, mas raramente a transforma em imagens tão poderosas quanto poderia.
E já que “Supergirl” nem sempre encontra essa dimensão épica, ao menos poderia compensar com mais personalidade nos momentos leves. É aqui que o filme mais parece operar dentro de uma espécie de “modo James Gunn”, mas como uma versão menos afiada do original. Há personagens excêntricos, humor seco, criaturas estranhas, pequenas quebras de expectativa e diálogos tentando soar irreverentes. Nada chega a ser ruim ou constrangedor, mas também falta aquele tempero a mais: uma fala realmente marcante, uma troca mais esperta, uma piada que revele personagem, uma sacada de roteiro que faça a cena ganhar outra camada.
O resultado é curioso. “Supergirl” tem momentos divertidos, mas raramente é tão engraçado quanto parece querer ser. O filme carrega a estética de um universo moldado por Gunn, mas nem sempre encontra o mesmo domínio de ritmo, timing e estranheza emocional que torna os melhores trabalhos dele tão particulares. Em vez de piadas que parecem nascer naturalmente dos personagens, algumas cenas soam como aproximações de um estilo já conhecido, só que com menos precisão.
Isso não compromete Milly Alcock, que segue sendo o grande acerto do filme. Pelo contrário: reforça a sensação de que há ainda mais a ser explorado nessa Kara quando ela estiver em um material mais afiado. A esperança, nesse sentido, é que a Continuação de “Superman” escrita e dirigida pelo próprio James Gunn, saiba servir melhor essa personagem, por que há algo muito coerente na forma como Supergirl se encaixa no novo DCU.
James Gunn parece interessado em reconstruir esses personagens a partir de uma pergunta simples, mas essencial: o que significa escolher o bem em um mundo que oferece tantos motivos para desistir? Em Superman, essa resposta vinha da bondade natural de Clark. Em Supergirl, ela vem de uma ferida. Kara não é boa porque a vida foi gentil com ela. Kara é boa apesar de tudo que perdeu.
Isso torna a personagem mais interessante do que uma simples contraparte sombria do primo. Ela não está ali para negar o Superman, mas para ampliar o que esse símbolo pode significar. Se Clark representa a esperança preservada, Kara representa a esperança sobrevivente. Menos limpa. Menos fácil. Talvez menos confortável. Mas ainda esperança.
E, por isso, mesmo com seus problemas de ritmo e impacto, Supergirl está longe de ser um tropeço para o novo universo da DC. Pelo contrário: é mais uma peça promissora em uma visão que parece entender que heroísmo não precisa ser cínico para ser complexo.
Milly Alcock sai do filme como uma das grandes apostas desse universo. Sua Kara tem força, dor, humor seco e uma humanidade que atravessa até os momentos em que o roteiro poderia deixá-la apenas como arquétipo. Dá vontade de vê-la novamente, especialmente ao lado do Superman de David Corenswet em Man of Tomorrow.
Porque, se Superman olha para o céu e vê uma promessa, Supergirl olha para o mesmo céu e vê tudo que perdeu.
O que faz dela uma heroína não é ignorar essa diferença.
É continuar voando mesmo assim.
Veja aqui tudo que é novidade nas telonas, a partir da análise de Vinícius Bastos.

